Autocoleta para HPV pode reduzir desigualdades na prevenção do câncer do colo do útero
Brasil ainda registra 19 mil novos casos de câncer do colo do útero por ano, apesar de essa ser uma doença quase 100% prevenível. Novas diretrizes nacionais para o rastreamento podem mudar esse cenário
Vivemos um cenário preocupante no Brasil: muitas mulheres não realizam o rastreamento do câncer do colo do útero, seja para evitar a coleta ginecológica tradicional (por vergonha ou medo do desconforto), seja pela dificuldade de acesso aos serviços de saúde ou situações de vulnerabilidade social.
A baixa adesão ao rastreamento contribui para os cerca de 19 mil novos casos de câncer do colo do útero registrados anualmente no Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Até recentemente, o rastreamento desse câncer no Brasil era baseado principalmente no exame de Papanicolau. Hoje, o país passou a adotar novas diretrizes que priorizam o teste molecular para detecção do Papillomavirus humano, o HPV, vírus responsável pela quase totalidade dos casos de câncer do colo do útero.
Nesse novo modelo, a coleta pode ser realizada por profissionais de saúde ou pela própria mulher, por meio da autocoleta vaginal.
É muito importante destacar que esse tipo de câncer é praticamente 100% prevenível, com vacinação profilática contra o HPV e rastreamento adequado. Por isso, a praticidade da autocoleta, que é rápida e indolor.
Além disso, a possibilidade de o exame ser realizado pela própria mulher em casa, em uma clínica ou em qualquer outro local conveniente para ela pode aumentar a adesão para aquelas que não realizam o exame de prevenção do câncer de colo do útero.
Nova diretriz
O Brasil deu um passo histórico em 2025, ao publicar a Nova Diretriz Brasileira para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, em cuja elaboração colaborei. A mudança aproxima o país das estratégias já adotadas internacionalmente para a eliminação desse tipo de câncer como problema de saúde pública.
Com a Nova Diretriz, o tradicional exame de Papanicolaou passa a ser gradualmente substituído no SUS, ao longo dos próximos cinco anos, pelo teste molecular para detecção do HPV oncogênico, exame mais sensível para identificar lesões pré-cancerosas.
A estratégia também representa um avanço importante em acesso e equidade, pois permite que a coleta da amostra continue sendo realizada por profissionais de saúde, mas também possibilita a autocoleta vaginal, ampliando o rastreamento entre mulheres que enfrentam maiores barreiras para realizar o exame ginecológico convencional.
Em busca de mais equidade
Como professora na Universidade Estadual de Maringá (UEM), eu me deparo frequentemente com esse contexto da baixa adesão ao rastreamento. Por isso, em 2013, fundei a Rede Previna-se e, desde então, venho desenvolvendo, em nível nacional, projetos de estudo da autocoleta vaginal para teste de HPV no combate ao câncer do colo do útero.
Após mais de uma década estudando profundamente esse tema, outro dado passou a me preocupar ainda mais: no Brasil, mulheres negras, urbanas e quilombolas, estão entre as mais afetadas pelo câncer do colo do útero e apresentam as maiores taxas de mortalidade, que continuam aumentando ao longo dos anos.
Percebi que é urgente olhar com mais atenção para as mulheres negras, tanto das cidades quanto das comunidades quilombolas, e desenvolver pesquisas que ajudem a criar políticas públicas mais justas, que possam mudar essa situação e salvar vidas.
Por isso, em 2024, a Rede Previna-se deu mais um passo em direção à equidade, com um estudo focado em mulheres negras urbanas e quilombolas. O projeto, intitulado "Autocoleta para teste de HPV como estratégia de promoção da equidade e de diminuição da morbimortalidade por câncer do colo do útero em mulheres negras das diferentes macrorregiões brasileiras", foi contemplado pela Chamada Pública nº 21/2023 - Estudos Transdisciplinares em Saúde Coletiva, do CNPq.
O estudo propõe avaliar a aceitabilidade e a adesão de mulheres negras urbanas e quilombolas à autocoleta de teste de HPV para rastreio e prevenção do câncer de colo do útero.
O objetivo do estudo é oferecer a autocoleta para teste de HPV, para que essas mulheres coletem a amostra de forma simples e acessível, facilitando o acesso ao exame, especialmente em lugares com poucos serviços de saúde. Com mais mulheres fazendo o teste, é possível identificar o risco cedo, garantir o tratamento a tempo e ajudar a prevenir a doença.
A atuação do projeto ocorre nas três diferentes macrorregiões econômicas brasileiras. As cidades e os estados envolvidos no projeto são: Maringá (Paraná) e Dourados (Mato Grosso do Sul), na Macrorregião Centro-Sul; Manaus (Amazonas), na Macrorregião Amazônica; Natal (Rio Grande do Norte) e Recife (Pernambuco), na Macrorregião Nordeste.
Busca ativa pelas mulheres
O trabalho é feito em parceria com os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e líderes comunitários, que passaram por um treinamento realizado pelos pesquisadores da Rede Previna-se, com base em um modelo de educação em saúde já aplicado por nossa equipe em projetos anteriores.
Nessa capacitação, eles obtiveram mais informações sobre o HPV e o câncer do colo do útero, além de serem orientados em relação a estratégias de abordagem que devem ser utilizadas pelos ACS e líderes, durante as visitas domiciliares, para convidarem mulheres a participarem do estudo.
Após essa etapa, foi iniciada a busca ativa e coordenada por mulheres negras urbanas e quilombolas em cada centro do estudo, fase que ainda está em andamento. Ao todo, 600 mulheres, de diferentes comunidades e Unidades Básicas de Saúde (UBS), vão receber um dispositivo simples para fazer a autocoleta para teste de HPV.
Todas as amostras coletadas serão encaminhadas para um laboratório especializado, responsável por identificar os tipos de HPV de alto risco para o desenvolvimento do câncer. Isso permite detectar precocemente alterações antes do aparecimento da doença. As mulheres com resultados positivos serão encaminhadas para acompanhamento e tratamento adequado.
Além de contribuir para o diagnóstico precoce e salvar vidas, o projeto também pode fortalecer políticas públicas, ao demonstrar que a autocoleta para teste de HPV pode ser uma estratégia eficaz e acessível para ampliar o rastreamento entre mulheres negras urbanas e quilombolas. Com isso, gestores de saúde podem incorporar essa abordagem aos programas oficiais de prevenção, promovendo maior equidade no acesso à saúde e trazendo melhorias para a saúde das mulheres.
Marcia Edilaine Lopes Consolaro recebe financiamento do CNPq e Ministério da Saúde.
Ana Paula Machado Velho, trabalho como jornalista na Universidade Estadual de Maringá e sou coordenadora de Comunicação do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação Paraná Faz Ciência, financiado pela Fundação Araucária do Paraná, agência de fomento da ciência e tecnologia do Estado. No caso deste artigo, apoio a divulgação científica das ações e resultados, neste projeto finaciado pelo CNPq.
Milena Massako Ito recebe financiamento do CNPq.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.