'Anistia 79': documentário político brasileiro revisita um passado que não passa
Filme premiado de Anita Leandro resgata imagens inéditas da conferência de exilados brasileiros ocorrida em Roma, em 1979, e serve de lição histórica sobre o que é perseguição política e ditadura de verdade
O premiado documentário "Anistia 79", de Anita Leandro, resgata imagens raras de um histórico encontro de exilados brasileiros em Roma, em 1979, confrontando sobreviventes e familiares com seus traumas e memórias da ditadura civil-militar. Diante do cenário político recente, no qual investigados da extrema-direita alegam perseguição para se autoexilarem, a obra ganha urgência e atualidade ao contrastar essa postura com o sofrimento e a dignidade real de quem resistiu à barbárie de Estado.
Desde o governo Jair Bolsonaro, o Brasil passou a testemunhar casos repetidos de distorção democrática: pessoas com problemas na Justiça decidindo se autoexilar e declarando-se "perseguidas políticas". Coincidentemente ou não, todas elas simpatizantes da ultradireita, algumas inclusive defensoras da volta da ditadura no Brasil.
Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio, Carla Zambelli e Eduardo Bolsonaro eram, até 27 de outubro de 2026, os nomes mais famosos desse clube de fujões. Mas eis que, quem poderia imaginar, o senador Flávio Bolsonaro, candidato derrotado nas eleições presidenciais, seguiu pelo mesmo caminho. Investigado em mais de um inquérito e pivô de uma campanha sobre a qual recaem diversas suspeitas de favorecimento e ilegalidades, Flávio fez as malas e partiu com a família, a bordo de um jatinho de luxo, para os EUA de Donald Trump, de onde fez e continua fazendo declarações golpistas enquanto se intitula "perseguido político".
Além de todas as suas implicações políticas, essa situação é, no mínimo, um desrespeito a um passado nada remoto do Brasil, uma época em que se sabia muito bem o que significava, de fato, ser perseguido político. Centenas de desaparecidos, milhares de exilados, inúmeras famílias separadas ou destruídas, num cenário em que se estima em mais de 10 mil o número de cidadãos assassinados pela ditadura civil-militar.
O cinema brasileiro já retratou com maestria essa realidade em diversas obras. A mais recente é o documentário Anistia 79, filme de Anita Leandro lançado este ano, que conquistou o Prêmio Carlos Reichenbach de Melhor Filme da Mostra Olhos Livres na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes ao contar, a partir de registros cinematográficos raros, a história da Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil. A conferência foi o maior encontro da esquerda brasileira realizado fora do país, em junho de 1979 no Parlamento italiano, em Roma, e que contou com a participação de centenas de exilados brasileiros vindos de vários países.
Anita Leandro, a diretora, é também professora da UFRJ e autora de Retratos de identificação (2014). Desde 2016, quando teve acesso ao material de arquivo em torno do qual Anistia 79 é construído, ela localizou pessoas que apareciam nas imagens, militantes da resistência brasileira, muitos dos quais já conhecia havia muito tempo. E fez "um filme dentro do filme".
Registro histórico em 16mm
O registro que confere a "espinha dorsal" do filme, cerca de 90 minutos de película 16 mm, foi feito por Hamilton Lopes dos Santos, jovem exilado em Paris, ao lado de Velso Ribas, também exilado na capital francesa. Os negativos passaram quase 50 anos num porão parisiense. O evento filmado por Hamilton reuniu líderes do movimento estudantil, líderes sindicais e camponeses, combatentes da luta armada e suas famílias.
Presidida pelo jurista francês Louis Joinet, a conferência herdava o esforço do Tribunal Russell II, convocado pelo senador italiano Lelio Basso, que, em sessões realizadas em Roma e Bruxelas entre 1974 e 1976, submeteu os crimes da ditadura brasileira a uma condenação internacional de grande repercussão. Dois meses depois, o general João Figueiredo sancionaria a Lei da Anistia, que beneficiaria também os agentes da repressão.
O filme começa com o depoimento de Denise Crispim ao Tribunal Russell II, registrado em 1974: debilitada, ela permanece em silêncio enquanto outra voz lê seu relato. Cinco anos depois, as imagens de Hamilton a mostram na conferência em Roma acompanhada da filha Eduarda, ainda criança. Perguntada sobre o que é anistia, a menina responde: "é voltar para o Brasil".
O companheiro de Denise e pai de Eduarda, o militante Eduardo Collen Leite, o "Bacuri", foi preso em 1970 e brutalmente torturado por 109 dias antes de ser assassinado pela repressão. Eduarda não era a única criança naquele cenário em Roma: outras crianças nascidas no exterior durante o exílio de seus pais também aparecem nos registros.
A forma do filme de Anita Leandro é simples, porém eficaz. O registro de Hamilton foi restaurado e exibido a alguns dos personagens reais que frequentaram a conferência em Roma, ou a seus descendentes. Além de Denise Crispim - que reconhece na tela o pai, o ex-deputado comunista José Maria Crispim, e a mãe, Encarnación Lopes Perez -, assistem e reagem ao filme o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, fundador do Comitê Brasileiro pela Anistia em São Paulo; Jean Marc von der Weid, ex-presidente da UNE banido do país em 1971; a historiadora Heloísa Greco, filha de Helena Greco; Dirceu Greco Monteiro; a feminista Branca Moreira Alves; Marijane Lisboa; José Pedro da Silva; Denise Leal e Mariana Conceição Leal, viúva e filha do líder camponês Manoel da Conceição; e o próprio Hamilton Lopes dos Santos.
Ainda aparecem no registro, dando depoimentos, líderes da resistência como Apolônio de Carvalho, veterano da Guerra Civil Espanhola e da Resistência Francesa; o pernambucano Gregório Bezerra; Francisco Julião, das Ligas Camponesas; o advogado Modesto da Silveira; Márcio Moreira Alves, cujo discurso na Câmara serviu de pretexto ao AI-5; Carmela Pezzuti, mãe de militantes exilados; e Luís Travassos (célebre líder estudantil de 1968, conhecido também pelo fatídico congresso da UNE em Ibiúna).
A partir do visionamento desse registro, as testemunhas oculares do evento, bem como alguns de seus descendentes, reconstroem as memórias e o contexto daquele encontro. Sem qualquer imagem violenta, o filme termina como (permitam-me aqui o clichê) um soco no estômago do espectador. Como o Brasil pôde suportar aquilo? O conteúdo dos depoimentos da época, a leitura de documentos e as reações de quem revê as imagens acaba por sobrepor-se à elegância da forma, tamanho o impacto das falas, dos sentimentos e das memórias.
E o filme é assustadoramente atual. Assisti à sua projeção em 20 de outubro de 2026, portanto a cinco dias do segundo turno das eleições presidenciais. A coincidência me causou um espanto suplementar. Numa cena que reúne o então deputado Airton Soares e os veteranos Apolônio de Carvalho, Gregório Bezerra e Diógenes Arruda, presenciamos três diagnósticos acerca da situação política brasileira naquele momento.
Nela, os três líderes sintetizam suas leituras: o ponto a que se chegou, o que está em jogo, a tramoia militar e o que é de fato necessário para se dar à luz uma nova democracia brasileira. Ao longo do filme, mas sobretudo ali, as falas usam um vocabulário - e até mesmo uma sintaxe - assustadoramente próximos da realidade que enfrentamos em pleno 2026: "democracia de fachada", "transição por cima", "anistia de torturados e torturadores", "absolvição dos crimes cometidos pelo Estado", "imperialismo", "ingerência externa".
O filme começa sob uma luz tênue que emana dos olhos daqueles que revisitam suas memórias e a conferência de Roma por meio das imagens de Hamilton. Logo essa luz bruxuleia diante de uma melancolia incontornável que se instala: a memória da tortura, das feridas físicas e psíquicas, da perda dos entes queridos. O debate político de líderes, verdadeiros heróis da resistência como Manoel da Conceição, líder camponês no Maranhão, e José Ibrahim, líder da greve operária de Osasco (SP) em 1968 insufla de vigor o filme e a reação dos personagens que assistem ao "filme dentro do filme".
Não por acaso, o júri de Tiradentes destacou a revelação de dois homens negros raramente lembrados na memória da luta contra a ditadura: Manoel da Conceição e o próprio Hamilton. As falas de expoentes como Helena Greco, fundadora do Movimento Feminino pela Anistia em Minas Gerais, ou Carmela Pezzuti injetam um impulso vital que novamente anima aqueles personagens, jovens na Itália, hoje idosos no Brasil.
O brilho inicial dos olhos retoma iridescência enquanto personagens como Heloísa Greco, Marijane Lisboa e Jean Marc von der Weid retomam suas memórias, em depoimentos que soam quase como "cânticos de resistência". Como se o vivido não fosse passado, mas um presente ao qual se adaptaram. A tortura e o exílio não passam. Mesmo depois deles, as vítimas trazem os seus estigmas. Muitos desapareceram, muitos outros foram assassinados, alguns enlouqueceram. E alguns atingiram uma notável lucidez: o semblante enigmático de quem sobrevive à barbárie sem perder, ou ao menos sem aparentar perder, a dignidade dos que escolheram resistir.
Assistir a "Anistia 79" em novembro de 2026 é assustador. Quarenta e sete anos são um piscar de olhos para um país aturdido em sua deriva, longe de um porto seguro que nos garanta, de uma vez por todas, a tão sonhada segurança institucional.
Alfredo Suppia não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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