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Análise: um mundo movido a sol, vento, ondas ou hidrogênio não mata por óleo

As dificuldades para realizarmos uma transição energética justa existem, mas são superestimadas no discurso de quem tem interesses ligados à hegemonia do petróleo

24 abr 2026 - 07h26
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As investidas de Trump contra a Venezuela e Irã escancaram uma velha verdade inconveniente: um mundo movido a petróleo é um mundo instável geopoliticamente. Na lógica dos combustíveis fósseis, é preciso manter o acesso contínuo às reservas existentes, onde quer que a loteria geológica as tenha colocado. Quase 90% das reservas provadas de petróleo no mundo estão sob o solo de dez países, dos quais oito são governados por regimes autocráticos. Essa alta dependência de recursos geograficamente concentrados é motor contínuo de guerra, obrigando as grandes potências econômicas do Ocidente a manter rotas militares abertas do outro lado do mundo. Vimos esse imperialismo fóssil moldar diversos conflitos ao longo do século XX e continuamos vendo-o deflagrar confrontos até hoje - literalmente.

O antídoto contra essa instabilidade sistêmica existe, já sabemos qual é e está ao nosso alcance. Precisamos de uma transição energética para longe dos combustíveis fósseis. As fontes renováveis podem ser a chave de um sistema global bem mais estável, garantindo a soberania energética das nações e, de quebra, resolvendo a ameaça urgente da mudança do clima.

Além de mais barata para construir e operar, a energia que vem do vento, do sol, das ondas ou do hidrogênio, por exemplo, é mais bem distribuída no planeta e funciona do frio da Groenlândia ao calor do Saara. Além disso, não se pode fechar um Estreito de Ormuz para o vento ou usar uma frota naval para embargar a energia que vem do sol. O domínio tecnológico das energias renováveis substitui a sorte geológica pela capacidade dos engenheiros de cada país.

Dificuldades superestimadas

As dificuldades para realizarmos uma transição energética justa existem, mas são sistematicamente superestimadas no discurso de quem tem interesses ligados à hegemonia do petróleo. O volume de minerais críticos necessários para o novo sistema com base em renováveis, por exemplo, é estimado em 40 milhões de toneladas anuais em 2040. Parece um número enorme até compararmos ao volume de combustíveis fósseis que mineramos hoje em dia: 15 bilhões de toneladas/ano.

No paradigma das renováveis, uma vez construída a infraestrutura, a operação terá baixa necessidade de novos materiais, reduzindo drasticamente a demanda por mineração no futuro. E, se a China parar de vender lítio amanhã, as placas solares que já estão em telhados no Paquistão ou em Cuba não param de funcionar.

Os desafios relacionados à expansão e modernização dos grids de transmissão de energia também não são especialmente complexos. Já sabemos como estabilizar a oferta por meio de mecanismos de armazenamento como baterias e usinas reversíveis, só precisamos garantir que essa adaptação ocorra de maneira ambientalmente responsável.

E, sobre os custos, vale a pena lembrar que o setor de energia fóssil ainda recebe subsídios pornográficos no mundo de hoje. Em 2024, o FMI estimou em 7,4 trilhões de dólares os subsídios explícitos e implícitos que beneficiam os combustíveis fósseis globalmente. No Brasil, a conta do Inesc chegou a 47 bilhões de reais para os fósseis no mesmo ano, apenas em subsídios explícitos. Se uma boa parte fosse redirecionada para a transição energética, poderia alavancar grandes transformações.

Ainda não se sabe a extensão final da crise energética que resultará dos ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, mas a alta no preço do petróleo já impacta as bombas ao redor do mundo. Quanto mais renovável é a matriz energética de um país, mais imune ele fica a essas recorrentes intempéries geopolíticas.

Os exemplos da Dinamarca e do Paquistão

A Dinamarca, por exemplo, reagiu aos choques do petróleo dos anos 1970 embarcando em uma jornada de inovação que a tornou uma das líderes globais em energia eólica. Com a crise do gás russo em 2022, o país acelerou a troca dos aquecedores domésticos a gás por bombas de calor elétricas e abraçou soluções de aquecimento distrital com base renovável. O parlamento dinamarquês fixou a meta de uma matriz elétrica 100% renovável até 2030.

Se a Dinamarca busca sua soberania energética através de sofisticado planejamento estatal, o Paquistão nos oferece um exemplo de transição liderada por decisões individuais de consumo. Asfixiados pelo alto custo e pela baixa confiabilidade da rede elétrica de base fóssil, os cidadãos e industriais paquistaneses iniciaram uma revolução de baixo pra cima: o país vive nos últimos anos um boom de importação de painéis solares da China.

A geração distribuída em telhados elevou a fatia da eletricidade solar paquistanesa de 5% para quase 30% nos últimos 4 anos. O país já economizou US$ 12 bilhões em importação de gás fóssil liquefeito desde 2021 e pode economizar mais de US$ 6 bilhões apenas este ano se os preços continuarem no patamar atual.

No Brasil, o calcanhar de Aquiles do transporte

No Brasil, nossa matriz altamente renovável e autossuficiência quantitativa na produção de petróleo deveriam nos isolar das escaramuças no Oriente Médio. Mas, infelizmente, temos um calcanhar de Aquiles chamado transporte rodoviário de cargas. Com 65% das cargas transportadas por rodovias e um parque de refino em descompasso com a produção nacional de petróleo, somos obrigados a importar mais de um quarto de todo óleo diesel necessário para o transporte interno de cargas. Como resultado, ficamos vulneráveis às tormentas geopolíticas no mundo (e suscetíveis a chantagens domésticas como as greves de caminhoneiros).

Assim, a guerra da vez pelo petróleo só reforça o óbvio: a efetiva soberania energética no Brasil passa muito mais pela retomada do modal ferroviário (eletrificado) e pelo incentivo aos biocombustíveis avançados do que pela insistência na abertura de novas fronteiras de exploração do óleo na margem equatorial.

É óbvio também que a transição energética não pode ser abrupta. Ninguém está defendendo que paremos de produzir petróleo amanhã, como costumam ironizar os lobistas fósseis. Mas precisa existir vontade política real e planejamento estratégico para sairmos da dependência conflituosa de hoje e chegarmos a um amanhã diferente - quiçá mais pacífico e menos quente. Alguém viu um mapa do caminho por aí?

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Cristiano Vilardo não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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