Caso Ramagem pode reacender tensões diplomáticas entre Washington e Brasília, diz Le Monde
O caso envolvendo a prisão e a posterior libertação de Alexandre Ramagem nos Estados Unidos pode ressuscitar tensões diplomáticas entre Washington e Brasília. Essa é a avaliação do jornal Le Monde, em reportagem assinada pela correspondente no Brasil, Anne‑Dominique Correa, publicada nessa quinta-feira (23). O texto destaca o caráter sensível do episódio no atual contexto político dos dois países.
Alexandre Ramagem, ex-chefe da Agência de Inteligência Brasileira (Abin) durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 16 anos de prisão por participação na tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023. Poucos dias antes do julgamento, o ex-deputado fugiu para os Estados Unidos e é considerado foragido pela Justiça brasileira, lembra o jornal francês. Em 13 de abril, ele acabou sendo preso pela polícia de imigração americana (ICE) devido ao vencimento de seu visto.
O governo brasileiro esperava que a prisão, que ocorreu em cooperação entre as polícias dos dois países, resultasse em extradição, mas a decisão das autoridades americanas de libertar Ramagem apenas dois dias depois provocou a indignação de Brasília, aponta a reportagem. A situação se agravou quando o governo dos Estados Unidos pediu a saída de um agente de ligação da Polícia Federal brasileira em Miami, alegando interferência indevida no sistema migratório americano.
A reação de Brasília a essa "afronta diplomática" foi imediata. Em nome da reciprocidade, o governo Lula retirou as credenciais de um oficial de ligação da polícia americana no Brasil.
Desconfiança persistente
De acordo com o Le Monde, esse episódio ocorre justamente após um período de aparente distensão entre os presidentes Lula e Donald Trump, o que torna o caso ainda mais simbólico. A correspondente entrevistou o cientista político Claudio Couto, da Fundação Getulio Vargas, e observa que, embora uma escalada maior seja considerada improvável, a crise revela a desconfiança persistente entre os dois governos.
Para Couto, principalmente desde o início da guerra no Oriente Médio, o Brasil deixou de ser uma prioridade para os Estados Unidos. O cientista político lembra ainda que as sanções adotadas por Washington contra Brasília às vésperas do julgamento de Bolsonaro, com o objetivo de influenciar a Justiça brasileira, fracassaram.
O risco atual é o uso político do caso por aliados do ex-presidente brasileiro, a começar pelo pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, ressalta o jornal. Bolsonaristas denunciam perseguição política a poucos meses das eleições presidenciais. Assim, o episódio se transforma em um novo foco de tensão, com potencial de impactar o resultado das urnas em outubro, conclui Le Monde.
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