Análise: sociedades civis serão cruciais para combater a lógica geopolítica e nacionalista da nova ordem global
Ameaças militares, diplomacia coerciva ou intervenções com o uso da força começam a se tornar "normais", e o arcabouço de normas, princípios e direitos universais se esvai
Apesar da fulminante eficiência da operação militar norte-americana de captura do Presidente Nicolas Maduro no dia 3 de janeiro, ela não muda o regime autoritário na Venezuela. A verdade é que o objetivo principal do governo Trump é restrito à reinserção do país no mercado de petróleo, e não a restauração da democracia ou mesmo a luta contra atividades criminosas.
A operação também representa a disposição de mostrar à região e ao mundo o novo lugar do uso da força nas relações internacionais dos EUA, ainda que não possa se falar em manutenção do status quo na Venezuela. A operação muda a correlação de forças internas do regime e entre Washington e Caracas, e a Vice-presidente Delcy Rodríguez aparenta assumir a liderança sem contestações, aceitando negociar com Trump.
O mesmo não se pode dizer sobre os efeitos da operação para a América Latina, e muito menos, para a ordem global. O fantasma das intervenções dos EUA na região durante a guerra fria paira no ar. Ademais, esse medo é turbinado com o lançamento da nova Estratégia de Segurança Nacional em novembro de 2025, que retoma a Doutrina Monroe ao discurso oficial norte americano na forma do "corolário Trump da Doutrina Monroe" - ou, simplesmente, a "Doutrina Donroe".
A escolha de Marco Rubio para Secretário de Estado, profundamente interessado no destino da América Latina, já indicava essa tendência. Embora vários traços da política externa norte-americana sejam de Estado e apresentem continuidades de longo prazo, Trump inova com seu "Corolário": "Nós negaremos aos concorrentes não hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outros recursos ameaçadores, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais em nosso hemisfério".
Este "Corolário Trump" à Doutrina Monroe é uma "restauração sensata e potente do poder e das prioridades americanas, consistente com os interesses de segurança dos Estados Unidos", como diz a página 15 da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América 2025.
Mundo das normas, princípios e direitos universais se esvai
A nova relevância da América Latina para a política externa norte americana e a expansão de seus interesses na região emerge de uma concepção da política internacional em que a geografia adquire nova centralidade. Um mundo que somente se estabiliza a partir de acordos implícitos ou explícitos sobre zonas de influência de grandes potencias está sendo delineado.
Ameaças militares, diplomacia coerciva ou intervenções com o uso da força tornam-se "normais" e o arcabouço de normas, princípios e direitos universais se esvai. Segundo essa lógica geopolítica, as relações externas e domésticas da América Latina passam a ser vista como objeto de controle.
No âmbito das relações externas, a administração Trump visa limitar a relação entre a região e a China e a Rússia, já que as Américas são sua área de influência. A pressão sobre o Panamá para mudar a administração do Canal do Panamá foi a versão mais clara dessa perspectiva.
A presença da empresa C.K. Hutchinson de Hong Kong no Canal foi vista como ameaça, e o governo panamenho reverteu sua política. A presença militar na região do Caribe foi dramaticamente estendida e a tendência hoje é uma mudança na política de defesa que deve incluir novas presenças na Costa Rica e nas Ilhas Virgens.
No âmbito doméstico, Trump articula e faz parte de uma rede transnacional da extrema direita, e exerce pressão sobre processos políticos domésticos favorecendo seus aliados. Isso ocorreu recentemente nas eleições argentinas. Governos como de Javier Milei na Argentina, e José Antonio Kast no Chile, Bukele em El Salvador e Nasry Asfura em Honduras são favorecidos em seus processos de chegar ou se manter no poder. O movimento inicial de confrontar o processo brasileiro de processar e condenar aqueles envolvidos na tentativa de golpe no Brasil em janeiro de 2023 faz parte desse cenário.
Apesar da ameaça frontal, a América Latina não tem reagido coletivamente e permanece fragmentada por divisões ideológicas dentro e entre governos, reforçadas pelo alinhamento com Trump, como é o caso de Milei, Kast, Bukele e Nasry Asfura.
A reunião da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), realizada no dia 4 de janeiro de 2026, não resultou em declaração conjunta; tampouco a reunião extraordinária do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA), realizada no dia 6 de janeiro. Confirmou-se assim a polarização na região e o fracasso das organizações multilaterais em gerar consensos.
Na OEA, os governos da Argentina, Equador, Paraguai e El Salvador fizeram declarações individuais defendendo a operação na Venezuela. Na votação no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (CS/ONU) no dia 5 de janeiro, a grande maioria de países criticou a ação dos EUA, mas Argentina e Trinidad e Tobago apoiaram abertamente a operação.
Consensos têm sido possíveis somente em grupos específicos, como no caso da declaração conjunta crítica a intervenção norte americana dos governos do Brasil, México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha no dia 3 de janeiro.
Para além dos efeitos da captura de Maduro para a América Latina, a operação é mais uma ação do governo Trump que comprova a fragilidade da ordem global construída no pós-Segunda Guerra. O multilateralismo, a construção de normas coletivas e o direito internacional estão em crise profunda.
'America First' garantida pela diplomacia coercitiva
Os interesses da America First são, segundo a nova Estratégia de Segurança Nacional, "o que funciona para a América", e entre suas prioridades estão o acesso a cadeias de abastecimento e materiais críticos, que serão monitoradas pela 'comunidade de inteligência'. Essas escolhas políticas serão na prática, garantidas pela diplomacia coercitiva, sejam sanções econômicas, políticas ou intervenções militares.
Nem a Groelândia foi poupada. As ameaças de Trump ao território dinamarquês também não têm gerado uma reação decisiva conjunta nem mesmo na União Europeia, que também está fragmentada, com a presença de governos alinhados a Trump. Ademais, a dependência da OTAN, sobretudo no contexto da Guerra na Ucrânia, dificulta a construção de uma estratégia de resistência.
A ameaça de Trump à Groelândia pode representar um limite da aparente passividade europeia, mas pode também selar seu destino, ela própria um projeto fruto da ordem do pós-Segunda Guerra. Coalisões ad hoc substituem espaços formais como foros decisórios; governos democráticos, receosos do apetite político de direita da população, não exercem liderança, e, em um círculo vicioso, movimentos de direita de fortalecem.
Combatendo a lógica geopolítica e nacionalista, que não favorece a paz
Essa conjuntura não deve, no entanto, levar ao imobilismo, e não se pode menosprezar o potencial da população norte-americana de conter os excessos de Trump. O movimento de resistência a suas políticas domésticas e externa é significativo e provavelmente desembocará em uma mudança da composição do Congresso nas eleições. No dia 18 de outubro de 2025, 7 milhões de pessoas se manifestaram contra o governo.
Além disso, ações são geradas através do sistema judicial americano; há movimentos de solidariedade em relação a migrantes e refugiados; disposição de algumas universidades de negar-se a limitar a liberdade de expressão; e ações dentro do aparato de estado que ainda terão de ser estudadas.
A sociedade civil em cada país e suas dimensões transnacionalizadas, além de forças progressistas em assembleias legislativas e em governos locais, serão cruciais para evitar que as decisões sobre como a vida coletiva organizada sejam determinadas pela localização em uma esfera de influência ou outra. É preciso manter a solidariedade transnacional e combater a lógica geopolítica e nacionalista, que não favorece a paz.
Andrea Ribeiro Hoffmann é professora associada no Instituto de Relações Internacionais, PUC-Rio, membro do Instituto Latino-Americano para o Multilateralismo (ILAM).
Monica Herz é presidente do Instituto Latino-Americano para o Multilateralismo (ILAM) (https://instlam.org/).