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A oportunidade perdida de Jefferson para libertar seus escravizados

4 jul 2026 - 15h16
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Autor da Declaração de Independência dos EUA se viu diante de um teste moral no século 19. Um amigo polonês lhe confiou sua fortuna com uma condição: que Jefferson libertasse seus escravizados. Ele declinou,A estátua de bronze de um homem esguio em casaca do século 18 olha para a distância. Ela fica em Washington, a capital dos Estados Unidos, e representa o terceiro presidente do país, Thomas Jefferson - para os americanos, uma figura histórica monumental. Seu rosto também foi esculpido na rocha do famoso Monte Rushmore, no estado da Dakota do Sul, ao lado de outros três presidentes, George Washington, Abraham Lincoln e Theodore Roosevelt.

Thomas Jefferson e Tadeusz Kościuszko são os protagonistas do episódio que hoje divide historiadores
Thomas Jefferson e Tadeusz Kościuszko são os protagonistas do episódio que hoje divide historiadores
Foto: DW / Deutsche Welle

Como autor da Declaração de Independência, Jefferson tornou-se um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos. Ele foi jurista, proprietário de plantações e político. Atuou como o primeiro secretário de Estado da jovem república e segundo vice-presidente antes de ocupar a Presidência.

O seu mandato presidencial ficou sobretudo marcado pela Compra da Louisiana: com a aquisição de um vasto território da França, a jovem nação praticamente dobrou seu território. Porém, como quase todo ícone histórico, Jefferson também tinha um lado sombrio, que só passou a ser abordado abertamente há algumas décadas: sua relação com a escravidão. Ao longo da sua vida, Jefferson (1743-1826) foi o senhor de mais de 600 escravizados.

Um dos aspectos desse lado obscuro de sua biografia está intimamente ligado a Tadeusz Kościuszko. O oficial polonês é uma das figuras mais importantes da Guerra de Independência dos Estados Unidos. Muitas ruas, praças e pontes nos EUA hoje levam seu nome, difícil de pronunciar para os americanos. O mesmo ocorre na Polônia: ali ele é venerado sobretudo como líder da fracassada revolta de 1794 contra a Rússia czarista.

Humanista e proprietário de escravizados

Jefferson encontrou Kościuszko pela primeira vez em 1780, durante a Guerra de Independência dos Estados Unidos. O futuro presidente Jefferson era então governador da Virgínia. O oficial polonês Kościuszko já havia se destacado na Armada Continental como engenheiro militar extraordinariamente talentoso.

Uma amizade mais estreita entre os dois, porém, só surgiu em 1797. Após sua libertação do cativeiro russo, Kościuszko chegou à Filadélfia, então capital dos Estados Unidos. Na Europa e na América, ele já era considerado um símbolo da luta pela liberdade de duas nações.

Kościuszko, marcado por ferimentos e pelas consequências da prisão russa, encontrava-se regularmente durante sua estadia com Jefferson, que naquela época era vice-presidente dos Estados Unidos.

Em uma carta ao general Horatio Gates, Jefferson escreveu: "Eu o vejo frequentemente, com grande alegria, misturada com compaixão. Ele é o filho mais puro da liberdade que já conheci — liberdade para todos, e não apenas para alguns ou para os ricos."

Quando Kościuszko, na primavera de 1798, decidiu deixar definitivamente os EUA, pediu a Jefferson um favor extraordinário. Ele deixou sua fortuna adquirida no país e determinou que, após sua morte, ela fosse usada para comprar a liberdade e financiar a educação dos escravizados de Jefferson.

Kościuszko era um firme opositor da servidão e da escravidão. Não foi por acaso que, como oficial do exército americano, escolheu ostensivamente um soldado negro como ajudante de ordens. Teria o testamento sido uma tentativa de constranger seu amigo americano? Ou Kościuszko queria lembrar os Estados Unidos dos ideais pelos quais havia arriscado sua vida?

A hora da verdade

Dois anos após a morte de Kościuszko, em maio de 1819, Thomas Jefferson compareceu ao tribunal do condado de Albemarle, na Virgínia, e apresentou o testamento. Declarou que não era capaz de cumprir a última vontade de seu amigo. Pediu ao tribunal que nomeasse outro executor testamentário.

Ainda em fevereiro de 1810, Jefferson havia assegurado a Kościuszko em uma carta: "Se algo lhe acontecer, o uso beneficente do capital por você determinado não será adiado."

Por sua vez, Kościuszko lembrou Jefferson, em sua última carta a ele, apenas algumas semanas antes da sua morte em outubro de 1817, do destino da fortuna. Ainda assim, sua vontade jamais foi cumprida.

Após décadas de disputas judiciais, em 1852, a Suprema Corte dos Estados Unidos concedeu a fortuna aos herdeiros europeus de Kościuszko.

Hipócrita ou realista?

A história da promessa não cumprida do autor da Declaração de Independência ocupa historiadores americanos até hoje. Após a descoberta de uma relação sexual de anos entre Jefferson e sua escravizada Sally Hemmings, este é o segundo grande abalo na legenda monumental do Pai Fundador dos Estados Unidos.

"O texto do testamento de Kościuszko me comove profundamente", afirma Henry Wiencek, autor de uma biografia crítica de Jefferson. Para ele, é claro: ao contrário de George Washington, Jefferson não quis libertar escravizados, "porque eles eram mais valiosos para ele do que o dinheiro do testamento do general polonês". A execução desse testamento teria destruído seu estilo de vida luxuoso e sua posição entre a elite econômica do estado escravocrata, avalia o historiador norte-americano.

A historiadora e jurista de Harvard Annette Gordon-Reed vê a questão de outra forma. Em sua opinião, os críticos subestimam as dificuldades jurídicas. Ela observa que, após deixar os EUA, Kościuszko havia redigido outros testamentos na Europa. Na sua visão, o ex-presidente, como jurista experiente, reconheceu que longos processos judiciais seriam inevitáveis.

"Ele tinha cerca de 75 anos na época. Já era um homem idoso e não queria carregar problemas adicionais. Por isso, transferiu a tarefa a outra pessoa", afirma Gordon-Reed.

O biógrafo de Kościuszko, Alex Storozynski, por sua vez, está convencido de que a existência de outros testamentos forneceu sobretudo uma desculpa conveniente para Jefferson. A execução do legado de Kościuszko teria, de fato, colocado-o na liderança do nascente movimento abolicionista. O ex-presidente teria recuado diante disso.

O monumento em frente à Casa Branca

Kościuszko hoje observa a Casa Branca do alto de um pedestal. Ele é retratado com o uniforme de um oficial americano, com os planos das fortificações de Saratoga nas mãos.

Foram suas habilidades de engenharia que contribuíram de forma decisiva para a vitória americana em uma das batalhas decisivas da Guerra de Independência.

O primeiro ocupante da Casa Branca foi Jefferson. A ele, Kościuszko escreveu certa vez: "Eu te amo, você é a única esperança da humanidade, e gostaria que você fosse um modelo para os séculos vindouros."

No rosto da estátua há seriedade. Henry Wiencek está convencido de que há nisso uma ironia histórica: medido por sua fidelidade intransigente aos ideais de liberdade e igualdade, Kościuszko acabou sendo um americano maior do que o próprio Thomas Jefferson.

O autor agradece ao International Center for Jefferson Studies em Monticello (EUA) pelo apoio na pesquisa.

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