A ilusão da objetividade: por que a "queda" das universidades brasileiras no ranking CWUR não é real
O suposto "mau desempenho" das universidades brasileiras no ranking CWUR, muito alardeado pela imprensa, pode ser explicado pelas métricas por ele adotadas, inadequadas para o contexto
A imprensa brasileira reagiu em uníssono ao resultado do mais recente ranking do Center for World University Rankings (CWUR 2026) com um alerta geral. A grande mídia publicou manchetes pessimistas, como "45 de 52 universidades brasileiras caem em ranking internacional", e "Baixo investimento e barreiras à internacionalização explicariam queda de universidades brasileiras em ranking mundial". Na bolha da extrema direita, buscou-se atribuir o declínio à "mediocridade no ensino".
Em resposta, o MEC distribuiu uma nota argumentando que editais recentes devem fortalecer as universidades federais e reverter a situação. Aqui no The Conversation, um artigo de pesquisadores da UFRJ, UnB, UNicamp e UFRGS propôs, acertadamente, a extensão do intervalo de análise do desempenho das instituições de um para cinco anos.
O próprio CEO da CWUR, Nadim Mahassem, apontou causas estruturais para o retrocesso: "O declínio das universidades brasileiras reflete anos de financiamento inadequado e a desvalorização da ciência e da educação como bens públicos", disse ele.
Embora especialistas apontem diversas causas para o mau desempenho, eu proponho neste artigo uma reflexão diferente: o resultado deste ranking é realmente confiável? Será que o ensino superior brasileiro piorou drasticamente em apenas um ano? Para entender isso, precisamos examinar como o CWUR mede o desempenho acadêmico, as limitações e incertezas dos parâmetros utilizados, e se eles se adequam à realidade brasileira.
Como funcionam os rankings
Os rankings ganharam força em 2003, quando a Universidade Jiao Tong, de Xangai, propôs indicadores para medir o desempenho de instituições de ensino superior de "classe mundial". Hoje, existem vários rankings com objetivos distintos, mas nem sempre transparentes. O CWUR, especificamente, é uma consultoria privada sediada nos Emirados Árabes Unidos que avalia as 2.000 melhores universidades do mundo. Sua metodologia atribui pontos de 0 a 100 em quatro áreas principais:
● Educação (25%): medida pelo sucesso acadêmico de ex-alunos.
● Empregabilidade (25%): calculada pelo número de ex-alunos em cargos de destaque nas 2.000 maiores empresas públicas do mundo.
● Corpo docente (10%): medido pelo número de professores laureados com prêmios de alto prestígio.
● Pesquisa (40%): dividida entre volume de publicações (10%), artigos em periódicos de alto impacto (10%), influência (10%) e citações (10%).
O ítem "Educação" tem um nome enganoso. Em lugar da qualidade da educação oferecida, ele avalia o prestígio dos ex-alunos contando quantos receberam algum prêmio de alto prestígio acadêmico.
Esse ítem é tão elitista que somente quatro das 52 universidades brasileiras desse ranking apresentam alguma pontuação. Portanto, atribuir o suposto mau desempenho a um "ensino medíocre" significa que quem apontou essa causa não entendeu o que significa "Educação" no CWUR.
O mesmo se aplica ao ítem "Corpo Docente". Somente três das 52 instituições brasileiras que aparecem no ranking pontuam nesse item. Uma curiosidade: até 2024 a UFRJ não pontuava. A partir de 2025 passou a pontuar, o que rendeu um salto de 70 posições no ranking global. É difícil acreditar que um docente premiado faça com que uma universidade fique melhor que outras 69 de um ano para outro.
O ítem "Empregabilidade" também é bastante enganoso. Em lugar de medir quantos ex-alunos estão empregados ou em atividade econômica, ele conta quantos ex-alunos estão em posições de direção numa lista não divulgada das "2000 maiores empresas públicas do mundo, em relação ao tamanho da instituição".
A única lista pública similar a essa descrição, a Forbes Global 2000, inclui empresas públicas e privadas. Essa lista contém 27 empresas brasileiras, quase todas com sede em grandes centros financeiros como SP ou Rio.
Isso certamente privilegia escolas de negócios e também universidades e universidades localizadas nessas cidades. Mais da metade das instituições brasileiras não pontua nesse item.
Em outras palavras, 60% da pontuação adotada pelo CWUR ou é irrelevante para o Brasil ou é extremamente enviesada.
Sobre a performance das pesquisas
O ítem "Pesquisa", que acaba sendo o mais relevante para as instituições brasileiras, merece uma análise mais cuidadosa. Ele é o único no qual todas, exceto três, pontuam. Aliás, essa é a razão principal pela qual, das 52 instituições brasileiras ranqueadas pelo CWUR, somente quatro são privadas.
Ele se divide em quatro subitens:
● "Volume de publicações" em algum dos 13209 periódicos de uma lista, durante os últimos 10 anos. Esse critério é estável e transparente.
● "Publicações em periódicos de alto impacto": este critério envolve definir o que são periódicos de alto impacto. Grosso modo, são escolhidos os periódicos que estão no quartil superior de citações por artigo para cada uma de 23 áreas do conhecimento. Infelizmente essa lista de periódicos não é divulgada e certamente muda a cada ano, introduzindo flutuações na pontuação.
● "Influência": este é essencialmente igual ao anterior, só que considera apenas os 5% mais citados de cada área. Como o número de periódicos é menor, pequenas mudanças na lista podem trazer efeitos importantes na pontuação final.
● "Citações": essa mensuração é obtida pela contagem de artigos entre os 1% mais citados de cada área nos últimos 10 anos. Esse critério favorece fortemente artigos de alto impacto. A lista de artigos que atendem esse critério também muda a cada ano.
Flutuações anuais
Embora esses critérios pareçam objetivos, a maioria está sujeita a flutuações anuais que podem fazer a pontuação (score) variar alguns décimos, independentemente de qualquer mudança real na qualidade da pesquisa. Para entender como essa variação microscópica cria uma falsa impressão de declínio para as universidades brasileiras, podemos pensar no ranking como uma grande maratona.
O CWUR avalia as instituições com notas de 0 a 100. Na medida em que a nota aumenta, o espaçamento entre as universidades também aumenta. No topo do ranking, o 'pelotão de elite', uma pequena oscilação na pontuação não altera a posição final da instituição. É como os primeiros colocados da corrida, que cruzam a linha de chegada com minutos de diferença entre si: um tropeço de um ou dois segundos não faz o líder perder a medalha.
No entanto, na região de notas mais baixas, o cenário é outro. É o equivalente ao grande pelotão concentrado no meio da prova. Nessa faixa, onde estão nossas universidades, os competidores correm espremidos. Uma variação minúscula na nota, um simples tropeço estatístico gerado pela mudança na lista de revistas avaliadas em "Alto impacto", "Influência" ou "Citações" pelo ranking, por exemplo, significa ser ultrapassado por dezenas de pessoas de uma só vez.
Isso pode ser quantificado: para uma instituição na 1000ª posição, uma margem de incerteza comum do ranking pode significar uma queda artificial de 30 posições. Ou seja, quando a imprensa noticia que dezenas de universidades caíram no ranking de um ano para o outro, ela está, na verdade, narrando o efeito de um pelotão espremido tropeçando nos próprios décimos de uma ferramenta instável para o nosso contexto.
Na medida em que o score no ranking aumenta, o espaçamento entre as instituições também aumenta. Entre as instituições com score mais alto, uma pequena flutuação no score não altera a posição no ranking. No entanto, na região de score mais baixo, uma pequena variação no score pode significar uma variação de muitas posições no ranking:
Imagine uma maratona. O primeiro e o segundo colocados chegam com minutos de diferença. Mas no pelotão do meio, onde estão milhares de corredores, tropeçar e perder um único segundo significa ser ultrapassado por dezenas, talvez centenas de pessoas de uma vez. Esse efeito pode ser quantificado no ranking.
A pontuação geral de cada instituição (score) é divulgada com uma resolução de 0,1 ponto numa escala de zero a 100. Isso significa que cada score tem uma incerteza de ±0,1. Essa precisão é provavelmente exagerada, tendo em vista a variabilidade intrínseca dos parâmetros, mas para fins práticos vamos considerar essa incerteza nos resultados. Incerteza nesse contexto significa que variações até ±0,1 no score podem ser devidas não a mudanças no desempenho das instituições mas a instabilidades do instrumento de medida.
No gráfico abaixo, pode-se ver a incerteza correspondente em número de instituições, em função da posição no ranking. Até a posição 10 no ranking, a incerteza é de menos que uma instituição, ou seja, uma variação de até um ponto no score não tem impacto sobre a ordem no ranking.
O importante é notar que nas posições onde se encontram as instituições brasileiras a incerteza varia entre cerca de 5 na 100ª posição onde a USP se encontra, até cerca de 64 perto da 2000ª, a posição do ITA.
Ranking elitista
Dessa maneira, o ranking CWUR funciona muito bem para as universidades ultraelitistas de países ricos que estão no topo. Isso ocorre porque os indicadores escolhidos para comparar instituições apresentam boa variabilidade e estabilidade ao longo do tempo.
Universidades do sul global nem sempre pontuam em critérios com "Educação", "Empregabilidade" e "Corpo Docente" e ficam muito sujeitas a pequenas instabilidades numéricas no score, que são muito amplificadas quando traduzidas em posição no ranking.
Uma análise mais aprofundada das fontes de incerteza é impossibilitada pela falta de transparência nos dados brutos usados pelo CWUR. Ao contrário de outros rankings universitários internacionais, como o QS, o ARWU e THE, ou mesmo o brasileiro RUF, que divulgam as pontuações para cada item considerado, o CWUR só divulga o ranking de cada item e o score geral.
Em suma, o suposto "mau desempenho" das universidades brasileiras pode ser explicado majoritariamente por instabilidades de uma ferramenta de avaliação inadequada.
Se consideramos as limitações e incertezas do instrumento de avaliação, não é possível afirmar que o ensino superior brasileiro piorou no último ano. Consequentemente não há o que falar de crise institucional, de financiamento ou qualquer fator relacionado ao ensino.
Embora rankings possam ser instrumentos úteis para expor deficiências e apontar direções, é preciso ter certeza de que as métricas adotadas sejam capazes de avaliar acuradamente seu desempenho. O CWUR certamente consegue identificar instituições intensivas em pesquisa. Ele é bastante adequado para comparar as instituições classificadas em seu topo. No entanto, revela-se uma ferramenta que não permite uma análise fina das instituições de ensino superior brasileiras e de outros países do sul global que não contam com universidades entre as top 20.
Leandro R. Tessler recebe financiamento da FAPESP. Ele é afiliado à Unicamp. É membro do QS Global Rankings Advisory Board.
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