A história da internet: da utopia de uma rede cidadã ao surgimento das redes antissociais
Mais de 30 anos após o início da sua popularização, a internet derivou de esperança de democratização do acesso à informação para ferramenta digital de controle social. Mas tudo ainda pode mudar
A internet nasceu cercada pela expectativa de que promoveria a democratização, participação e descentralização da comunicação. Isso se apoiava na percepção de que a internet rompia com a centralização dos meios tradicionais, permitindo a produção e a difusão de informação sem intermediação e valorizando a participação democrática. Porém, ao longo do tempo, foi capturada por interesses econômicos e se transformou em um sistema de controle, monetização e isolamento social.
A expansão do mundo digital, a partir dos anos 2000, foi acompanhada da ideia de que a comunicação descentralizada poderia ampliar a participação e tornar as trocas mais horizontais. A "Rede de cidadãos" era uma utopia ancorada em um ambiente intelectual que via o virtual como campo de potência, ampliando trocas humanas e a produção compartilhada de sentido.
A virtualização não era percebida como controle, mas como abertura, com a expectativa de integrar o digital à vida social como espaço de circulação, encontro e participação. Nesse sentido, o ano de 2001 pode ser considerado um marco de passagem, quando o digital começava a se tornar parte ativa e definitiva da vida social, em todos os espaços, ao mesmo tempo em que o mundo ainda carregava fortemente a experiência analógica. Havia mais tempo de vida analógica do que digital.
Essa transição ocorreu em meio a rupturas: após o Bug do Milênio, que não se confirmou, vieram os atentados de 11 de setembro de 2001 e, depois, a invasão do Iraque pelos EUA, redefinindo a política global. O avanço do digital acompanhava esse cenário de transformação e expansão do capitalismo global.
O nascimento das redes
A ideia de rede surge no passado, nas lutas de culturas tradicionais, povos indígenas e pequenos produtores contra o avanço capitalista. No sul do México, esse conflito ganhou força em 1994 com os zapatistas, organizados pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), tendo como principal porta-voz o Subcomandante Marcos, e inspirados na figura histórica de Emiliano Zapata.
A experiência de Chiapas tornou-se emblemática: diante da ameaça de extermínio, indígenas e camponeses organizaram uma resistência que rapidamente ultrapassou o plano local. Esse alcance foi possibilitado pelo uso das tecnologias digitais disponíveis à época — especialmente e-mails, listas de discussão (mailing lists), fóruns como o Usenet e páginas web rudimentares — que permitiram a circulação internacional de comunicados, denúncias e manifestos do movimento.
Por meio dessas redes ainda incipientes, ativistas, organizações e pesquisadores de diferentes países passaram a difundir e traduzir os textos zapatistas, ampliando sua visibilidade e gerando pressão internacional sobre o governo mexicano. O recuo do exército mexicano passou, então, a ser interpretado como evidência do potencial de mobilização política descentralizada, posteriormente associado por Antonio Negri à ideia de "multidão".
Assim, a rede emergia não como plataforma, mas como forma de articulação política, cultural e comunicacional: um efeito descentralizado de mobilização coletiva — quase um "enxame" — baseado em abertura, solidariedade e participação.
Potencial em debate
No Brasil, esse contexto repercutiu nas universidades, onde se discutia o potencial das redes como espaços de sociabilidade, participação e expressão em escala global. Foi nesse horizonte — mais idealizado do que efetivamente consolidado — que desenvolvi, na Universidade de São Paulo, sob orientação da cientista política Maria Victoria Benevides, a tese da "Rede dos cidadãos".
Essa percepção também se materializou em um experimento de votação digital em 2001. Inicialmente testado com um grupo restrito e depois ampliado por meio de um site, o projeto reuniu votos simbólicos e sugestões de aprimoramento, indicando o potencial da rede como instrumento de manifestação cidadã. Embora tenha sido interrompido por um ataque hacker, a hipótese permaneceu.
Vista de 2026, a expectativa se inverteu: a conexão global não ampliou necessariamente a convivência nem fortaleceu a esfera pública. Ganharam centralidade a monetização, o controle social e a condução algorítmica do comportamento.
Em vez de um espaço aberto de trocas, tomaram forma ambientes voltados à captura de atenção, à reprodução do consumo e ao confinamento em bolhas. A promessa de abertura deu lugar ao fechamento e ao controle — um traço central do capitalismo digital.
Consolidou-se, assim, a passagem da rede como promessa de sociabilidade para aquilo que se pode chamar de redes antissociais: uma conexão permanente que convive com formas intensas de isolamento. A comunicação continua, mas perde amplitude; a infraestrutura se expande, enquanto a experiência do outro se estreita. No lugar da utopia de uma cidadania em rede, emergem bolhas, dinâmicas de cancelamento e dispositivos de controle — próximos do que Gilles Deleuze definiu como "sociedade de controle".
O deslocamento da utopia
O contraste entre 2001 e 2026 se evidencia nesse deslocamento. Se antes a rede aparecia como horizonte de cibercultura, circulação aberta do conhecimento e diálogo ampliado — como propunha Pierre Lévy —, hoje essa promessa é tensionada e em parte corroída por dinâmicas econômicas que reorganizaram o ambiente digital em torno da captura, da previsibilidade e do controle. Ainda assim, começam a surgir iniciativas que buscam reabrir esse campo, com redes menos dependentes de mediação algorítmica.
São plataformas que priorizam o feed cronológico, mostrando conteúdos na ordem em que foram publicados, sem interferência para aumentar engajamento. Poosting, Damus e Mastodon são iniciativas que priorizam a privacidade, sem o controle econômico e que podem se popularizar: a luta antirracista e antifascista encontra espaço aberto, sem a censura prévia do X (antigo Twitter), por exemplo. A tendência surge porque muitas pessoas estão cansadas de conteúdos manipulados e preferem ver apenas o que realmente escolheram acompanhar - sem o direcionamento comercial e ideológico dos algoritmos.
São nichos ainda, porém nada impede que expandam suas experiências, sem os habituais discursos neofascistas movidos pelas hegemônicas redes antissociais. Essa possibilidade de Utopia da rede está repaginada, mas sem esquecer que do outro lado do front está depositado o poder de trilhões de dólares.
Vinício Carrilho Martinez não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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