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Primeiro autista a integrar o Conselhão da Presidência, Ergon Cugler luta por inclusão e soberania digital

Filho de agente comunitária, pesquisador superou a fome, recebeu diagnóstico tardio de autismo e leva ao Planalto pautas sobre big techs

18 ago 2025 - 04h59
(atualizado às 11h36)
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Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação

O pesquisador e cientista de dados Ergon Cugler, de 26 anos, se tornou o primeiro autista a ocupar uma cadeira no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República, o Conselhão. Criado para ser um espaço de aconselhamento estratégico ao presidente, o colegiado reúne lideranças empresariais, acadêmicas e sociais para debater os rumos do país.

A chegada de Ergon ao Planalto carrega um duplo significado. Representa, de um lado, o reconhecimento de sua trajetória acadêmica e profissional no combate à desinformação e no estudo da regulação das plataformas digitais. De outro, é um marco simbólico: a inclusão de uma voz autista em um dos principais fóruns de decisão do governo federal.

“Rompe com a invisibilidade histórica das pessoas neurodivergentes em cargos estratégicos e envia uma mensagem clara de que podemos e devemos estar onde as decisões que afetam nossas vidas são tomadas”, afirma.

Infância marcada por desigualdade e inspiração materna

Nascido em Praia Grande, no litoral paulista, Ergon cresceu sob o exemplo da mãe, Vânia Cristina de Moraes, agente comunitária de saúde. Acompanhava de perto a rotina de visitas às casas, de orientações sobre prevenção de doenças e de cuidado com os mais vulneráveis.

“Ela me ensinou que servir à comunidade é um valor, não apenas uma profissão”, lembra. A infância foi atravessada por dificuldades financeiras, mas também pela noção de que pequenas ações podem gerar mudanças coletivas. Ainda no ensino médio, ingressou no movimento estudantil e passou a lutar por direitos em sua escola e no bairro.

Fome e resistência

Aos 18 anos, Ergon se mudou para São Paulo para estudar Gestão de Políticas Públicas na Universidade de São Paulo (USP). O início foi marcado por privações: chegou a morar de favor, passou fome e pediu moedas no metrô para poder assistir às aulas.

Foto: Arquivo Pessoal

“Sou fruto de políticas públicas de permanência estudantil. Foi o restaurante universitário que me garantiu as três refeições do dia e as bolsas de pesquisa que me permitiram não evadir. Nunca mais passei fome. A educação colocou comida no meu prato e me deu dignidade”, relata.

Na universidade, encontrou espaço para unir militância e pesquisa. Participou da elaboração de relatórios que chegaram a audiências públicas no Congresso, coordenou uma cooperação internacional para apoiar municípios durante a pandemia e mapeou milhares de iniciativas científicas contra a covid-19.

Diagnóstico tardio 

Foi já na vida adulta que recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista, associado a altas habilidades. O processo, conta, foi libertador.

Foto: Arquivo Pessoal

“Foi como encontrar a explicação objetiva para características minhas que sempre estiveram ali. Entender meu neurodesenvolvimento me permitiu reorganizar expectativas e potencializar minhas possibilidades”, explica.

A partir dessa descoberta, passou a se engajar diretamente na defesa da neurodiversidade. Hoje, atua também na Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas, ajudando a articular políticas e a derrubar barreiras invisíveis em espaços acadêmicos e profissionais.

“Nenhuma ciência é neutra”

Sua militância começou cedo, nas ocupações de escolas em 2015, contra o fechamento de unidades no estado de São Paulo. Mais tarde, percebeu que poderia ampliar sua atuação na arena acadêmica. “Sempre acreditei que nenhuma ciência é neutra. Produzir conhecimento também é um ato político”, afirma.

Ao longo da graduação, MBA, mestrado na FGV e especializações no exterior, direcionou seus estudos para entender como desinformações impactam políticas públicas. Pesquisou desde teorias conspiratórias em comunidades digitais até estratégias de agentes comunitários de saúde para enfrentar boatos sobre vacinas.

O resultado foi uma produção intensa: mais de 700 trabalhos publicados entre artigos, cartilhas e colaborações em projetos no Brasil e fora. Uma parte marcante desse percurso foi a participação no comitê contra desinformação do Plano Nacional de Imunizações, onde ajudou a estruturar respostas a boatos sobre vacinas.

“Aprendi que combater fake news não é só corrigir boatos. É uma disputa política e econômica contra interesses que lucram explorando o medo das pessoas”, diz.

Uma cadeira no Planalto

O convite para o Conselhão veio após anos de colaboração com ministérios e organizações nacionais e internacionais. Ergon foi indicado como especialista em soberania digital e desinformação. “Soube da confirmação apenas depois que o presidente Lula aprovou a lista de conselheiros. Receber a notícia foi uma surpresa e uma enorme responsabilidade”, conta.

Agora, ele pretende levar ao Planalto duas agendas principais: a defesa da regulação democrática das plataformas digitais e as demandas da comunidade autista.

“Quero que minha presença abra caminho para que outras pessoas neurodivergentes possam também ocupar lugares de poder, não como exceção, mas como parte natural da sociedade”, afirma.

A trajetória de Ergon é, em grande parte, sobre transformar experiências pessoais em ação pública. Da infância marcada pelo trabalho da mãe à fome enfrentada como estudante em São Paulo, do diagnóstico tardio de autismo à nomeação inédita no Conselhão, sua história revela como percursos individuais podem se tornar coletivos.

“Estar nesse espaço é uma oportunidade de transformar dados e evidências em ferramentas concretas para impactar políticas públicas e fortalecer a democracia. É isso que me move”, resume.

Fonte: Terra Content Solutions
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