Igor Rickli sobre se assumir bissexual: "Livre do que esperam de um homem"
No Dia da Visibilidade Bissexual, ator celebra orientação sexual e comenta casamento aberto com Aline Wirley: "Ela é uma deusa"
Viver uma vida livre de tabus e padrões vem sendo o propósito do ator Igor Rickli, 39 anos, desde que abriu o jogo sobre ser bissexual: "Foi uma virada de chave", afirma. Casado oficialmente desde 2015 com a cantora Aline Wirley, com quem está desde 2010, o artista paranaense conhecido por papéis icônicos na TV como o anjo caído Lúcifer é adepto do relacionamento aberto. Aline também é bi e os dois compartilham uma convivência livre de mentiras e traições.
A liberdade também dá o tom à educação de Antônio, de oito anos, que é criado sem imposição de papéis de gênero. Enquanto planeja aumentar a família com a adoção de uma criança, Igor Rickli está às voltas com o planejamento de um projeto que pretende incentivar os homens a terem uma masculinidade mais saudável.
Em entrevista ao Terra NÓS, o ator revela um pouco mais sobre suas ideias, fala da relação com Aline e sobre os mitos que, infelizmente, ainda cercam a bissexualidade. Confira:
Sua vida particular, seja em relação ao casamento com a Aline ou à criação do Antônio, costuma gerar bastante interesse. Você acredita que as pessoas têm curiosidade em entender como funcionam, digamos, configurações não convencionais de relacionamentos e famílias? Acredita que essa curiosidade tem um viés positivo ou serve mais para que as pessoas alimentem os próprios preconceitos?
Acredito que acaba sendo positivo, sim. Sempre existiu muito tabu nas relações. E é muito bom poder falar de amor livre, novas formas de amor além de qualquer padrão imposto. E no fundo acredito que as pessoas têm curiosidade de entender como funciona um relacionamento livre. Na nossa relação, mentiras e traições não são normalizadas. Usamos transparência total para fazer dar certo.
Em geral, os relacionamentos abertos seguem algumas regras pré-determinadas pelo casal. Quais são as regras do seu casamento com a Aline?
Nossas regras são bem práticas. Começam pelo cuidado mútuo, pelo respeito. Cuidar da verdade do corpo, da mente e da alma, a sua própria e a do outro. Não é sobre sexo. Sempre foi sobre a alma.
O que se assumir bissexual significou para a sua vida?
Significou uma nova fase do "game" e o rompimento com padrões antigos. Foi uma virada de chave, uma grande libertação do fardo pesado dos papéis que esperam que o homem desempenhe: ter que ser viril, forte, másculo, infalível, imbroxável, impetuoso e insensível.
Quais mitos você acredita que as pessoas têm em relação à bissexualidade?
O maior mito é o de que pessoas bissexuais são simplesmente mal resolvidas. Sobre os homens bi, acredito que muita gente pensa que não tiveram coragem de se assumirem gays ou não foram homens "o suficiente".
Pode definir a Aline em uma palavra? Como a relação com ela mudou a sua vida?
A Aline é uma Deusa, grande, nobre, sensível, justa, sensata. Não consigo mensurar em uma palavra. Ela é muita coisa para mim. Ela trouxe vida para a minha vida, trouxe leveza, riso solto, acolhimento e afeto. Sou completamente apaixonado por ela!
Vocês costumam brigar?
Às vezes. Poucas vezes, na verdade, mas não tem nem como não brigar um pouco. A gente é intenso e anda 24 horas grudado para todo lado. Foi terrível ficar três meses longe dela enquanto ela estava confinada no BBB. Mas a gente dialoga muito, o tempo todo, então qualquer briga logo se dissolve e sempre acabamos rindo no final.
Vocês são mais caseiros ou mais festeiros?
Somos muito caseiros. Gostamos de ficar em casa sempre que possível. Teve uma época que a gente não saía para absolutamente nada, até que entendemos que é importante para a nossa carreira circular um pouco.
Como é criar um filho sem imposição de gênero?
O Antônio se entende como menino e gosta de ser menino. Nunca foi uma questão para ele, nem para nós. A gente só não impõe coisas de menino para ele. Quando ele quis pintar a unha, furar a orelha e usar roupa rosa, tratamos com naturalidade para que ele pudesse se sentir livre para usar e fazer o que gosta.
Vocês conversam sobre diversidade e orientação sexual com o Antônio?
A gente só fala sobre amor: explicamos que as pessoas são livres para amar e se relacionar com quem quiserem independentemente de gênero, raça e crença.
Você interpretou Jesus Cristo no teatro e Lúcifer na novela "Gênesis" da Record. O que esses trabalhos lhe ensinaram sobre religião e o que a espiritualidade significa para você?
Me ensinaram sobre a dualidade que está em cada um de nós e como lidamos com nossos medos e demônios. Sou espiritualista. Não sigo nenhuma religião específica, apesar de conhecer e frequentar quase todas. Adoro esse campo mágico da fé! Acredito no amor divino, acredito em energia. Acredito que Deus está em cada um de nós e nós honramos a Ele fazendo nossa vida valer a pena e sendo honestos e verdadeiros.
Quais projetos está tocando no momento?
Estou justamente produzindo um trabalho de comunicação sobre masculinidade saudável. Tem palestra, livro, documentário, podcast. Sinto como um chamado para trazer luz a um assunto que ainda gera tanta falta de entendimento.
Em tempos de masculinidade tóxica e movimentos misóginos como o Red Pill, você já chegou a refletir sobre os próprios comportamentos machistas que teve?
Todo homem tem medo e quanto mais reprime esse medo, maior ele fica. E mais força e mais agressividade acaba usando para afastar esses medos. Já me vi sendo rígido na fala e nas atitudes para provar minha masculinidade. Era um comportamento de defesa, mesmo, que hoje entendo como pura ignorância e repressão da minha parte.
Você já se descreveu como um homem feminino. O que você mais admira nas mulheres?
Gosto de enaltecer o feminino, dentro e fora de mim. O feminino é a sabedoria instintiva pura, é acolhimento e força, um grande agente de transformação nesse planeta em desequilíbrio já sendo restaurado. O feminino tem esse poder de curar, de trazer vida, gerar, nutrir. Amo e honro muito essa força nas mulheres e em todos que se empoderam dela.