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“Esquecem que somos pessoas”, diz bailarina cadeirante

Há 15 anos no ballet, Gabriela Amorim é a única bailarina que usa cadeira de rodas em Alagoas

16 mai 2022 05h00
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As cortinas do teatro pareciam que nunca iriam se abrir. Só pareciam. Foram várias as tentativas de seus pais e familiares em busca de uma oportunidade para realizar o sonho da filha. No caminho, muitas promessas de algumas escolas e academias de dança em Alagoas, que nunca se concretizaram. Tentaram contrariar o princípio de que a arte, antes de tudo, é inclusão e resistência. E, no auge da infância, Gabriela Amorim não ia desistir com o primeiro, segundo ou terceiro não que recebia.

No ballet, Bibi se sente feliz e realizada
No ballet, Bibi se sente feliz e realizada
Foto: Reprodução/Instagram

A jovem, atualmente com 25 anos, nasceu com mielomeningocele, uma má formação na coluna, que a deixou sem o movimento das pernas. Há 15 anos, ela se encantou pelo ballet após assistir a uma apresentação de sua atual escola de dança. O evento acabou e já não havia mais como tentar esquecer a primeira vez que viu o reverence — momento no qual o bailarino agradece os aplausos e a presença do público. Após inúmeras portas fechadas e desinteresse em dar oportunidade para uma pessoa com deficiência aprender uma nova atividade, Bibi, como é carinhosamente chamada pelos amigos, encontrou um espaço que verdadeiramente representa a arte italiana.

“Abraçaram meu sonho. A Jeane e a Isabelle Rocha foram as únicas que embarcaram nessa comigo. Por estarmos numa cadeira de rodas, as pessoas nos subestimam. Acham que somos frágeis por estarmos ‘presos’. Mas esquecem que antes de sermos pessoas com deficiência, nós somos pessoas”, ressalta Amorim.

Gabriela Amorim nos primeiros anos que começou na arte do ballet
Gabriela Amorim nos primeiros anos que começou na arte do ballet
Foto: Divulgação

Como em qualquer nova empreitada, os primeiros momentos com o ballet não foram fáceis. Ela teve que aprender a dançar - do estilo contemporâneo ao clássico —, a ser artista, a ter disciplina e coragem, para enfrentar a plateia e os olhares, muitas vezes curiosos e surpresos pela presença de uma pessoa que usa a cadeira de rodas em destaque. Já nos bastidores, todos os integrantes da academia proporcionaram — desde o início de sua chegada à companhia de dança — um ambiente de acolhimento e respeito mútuo. 

Em sua trajetória no palco, o ballet fez com que Bibi percorresse os quatro cantos do Brasil: Recife, Belém, Fortaleza e Aracaju e até mesmo uma apresentação no Senado Federal, em Brasília. Momentos tão marcantes e importantes quanto o dia em que a jovem caiu no palco durante apresentação. Era noite de plateia lotada.

“Eu amo esse dia e essa história. Costumo dizer que foi o dia que eu me tornei bailarina de verdade, porque toda bailarina cai, porque eu não poderia cair?”, argumenta Amorim.

Bibi já é parte da história ao ser a primeira cadeirante a dançar ballet em Alagoas. Apesar do feito relevante, sua luta e desejo é para que outras pessoas com deficiência também ocupem os teatros, palcos e outros espaços que são delas, por direito. Para o futuro, ela projeta continuar a viver da dança e se profissionalizar ainda mais.

“Infelizmente, não conheço outras pessoas que usam cadeira de rodas e fazem ballet. Acredito também que muita gente se esconde e acredita que é incapaz. Espero muito ver isso mudar com o tempo. Digo isso porque o ballet me possibilitou ir mais longe do que eu acreditava que poderia. Foi onde eu me encontrei, e onde me sinto feliz e posso ser 100% eu. O palco é o meu lugar”, afirma a dançarina.

 Gabriela Amorim em dos seus espetáculos
Gabriela Amorim em dos seus espetáculos
Foto: Divulgação

Rede de apoio

A bailarina Jeane Rocha, proprietária da escola de dança que Gabriela frequenta, lembra que os caminhos de crescimento profissional  e pessoal entre as duas se cruzaram. Foi justamente na primeira década dos anos 2000 que sua academia de dança foi fundada.

"Confesso que foi um grande impacto porque até então não tínhamos experiência, mas algo me impulsionou, sabe? E eu disse à Isabelle, minha irmã, que íamos enfrentar esse novo desafio. Isso se tornou um presente e uma grande amizade. Eu fico feliz com a nossa coragem. É uma grande aprendizagem”, ressalta Rocha.

Para a bailarina, não há como elencar os principais momentos da trajetória de Gabriela nos palcos, uma vez que todas as apresentações são únicas e possuem seus próprios detalhes e referências.

“As apresentações, aulas, festivas sempre foram importantes porque há desafios. Sempre a desafiamos porque ao fazer isso também estávamos nos desafiando. Por exemplo: interagir no palco com alunos que não são cadeirantes, usar determinado tipo de figurino, viajar para outros lugares, etc. A trajetória e os 15 anos dela na dança já são marcantes, por si só”, explana.

Com experiência em Artes Plásticas, História da Arte e Comunicação Visual, a arquiteta e arte educadora há 30 anos, Socorro Lamenha comenta que a arte dá ao sujeito a possibilidade de entender e instigar sentidos, imaginação, pensamentos, criações e ações.

“A linguagem artística é universal e por si só inclusiva, já que não respeita nenhum tipo de barreira. Oficialmente ou não, a arte sempre foi instrumento de inclusão, propiciando a sensação de pertencimento. Isso nem precisa mais ser comprovado. Exemplos em todas as modalidades artísticas são encontrados em todo o mundo. A sensação de produzir, participar e se expressar é uma poderosa ferramenta de inclusão, sem sombra de dúvida”, explica a profissional.

A professora, que possui mais de três décadas em sala de aula, já ministrou inúmeras aulas para alunos que possuem algum tipo de deficiência. Ela acredita que os pais e familiares de pessoas com deficiência precisam estar atentos, respeitar e incentivar as manifestações artísticas dos filhos.

“Já transmiti conteúdos basicamente visuais para quem não enxerga, por exemplo. Tudo isso é feito com pesquisa e criatividade e assim conseguimos ótimos resultados. Os pais precisam entender que se manifestar artisticamente faz com que a pessoa sinta que é capaz, que não existem limites para a expressão e que fazer parte de algo é salutar, terapêutico e uma fonte inesgotável de prazer e realização. A arte é libertadora”, expõe Lamenha.

 

Fonte: Redação Nós
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