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"Cristo foi mais atrevido", diz médico que faz abortos em vítimas de violência sexual

Antes crítico do ato, Olímpio Moraes Filho, da Rede Médica pelo Direito de Decidir, defende a possibilidade de mulheres abortarem legalmente

28 jun 2022 - 13h12
(atualizado às 14h39)
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Olímpio Moraes é obstetra e ginecologista, membro da Rede Médica pelo Direito de Decidir, que apoia abortos legalizados
Olímpio Moraes é obstetra e ginecologista, membro da Rede Médica pelo Direito de Decidir, que apoia abortos legalizados
Foto: BBC News Brasil / BBC News Brasil

Me formei em agosto de 1986, aqui na Universidade Federal de Pernambuco. Fiz residência em Ginecologia e Obstetrícia, fiz um estágio na USP, em São Paulo, e, quando voltei, comecei a trabalhar na Universidade de Pernambuco, onde estou até hoje.

Apareceu o mestrado e começou a minha transformação, porque eu era objetor de consciência, eu pensava como a maior parte da população pensa, que aborto é crime e que a mulher é criminosa. Não tinha muito questionamento sobre isso

Na faculdade de Medicina não há aprofundamento nas questões humanistas e o que está por trás das leis como do Brasil, que, geralmente, bloqueiam os direitos das mulheres e também as políticas públicas, que não são baseadas nas melhores evidências científicas, mas na crença ou ignorância.

Eu só fui ter noção da coisa quando, no mestrado, depois de oito anos de formado, fui sorteado no tema abortamento, que a princípio eu odiei. Me incomodava muito, mas eu não conseguia coordenar as ideias para saber por que aquilo me incomodava.

As mulheres quando provocavam o aborto eram tratadas como verdadeiras criminosas. Os médicos, nossos mestres, nos orientavam a fazê-las sofrerem, para aprenderem a não repetir esse crime. Eram mulheres vistas como sujas. Isso me incomodava. 

Mas então comecei a ler e acho também que o conhecimento liberta. A ignorância é o que causa o preconceito. Comecei a pensar diferente (...).

Você começa a questionar as coisas que viveu. Mesmo mulheres sendo violentadas, a cultura [machista] é tão grande que elas são as culpadas. Eu comecei a ver isso no estupro também. Porque as mulheres são estupradas e elas começam, lá dentro, a achar que elas são culpadas pela violência que sofreram.

"Eu não conheço mulheres que abortam sem o homem ter abortado primeiro. Ninguém procura saber do homem, tanto que a lei só pune a mulher, não o casal."

[É] como atender uma menina de 19 anos com dente quebrado, boca rasgada. Ela veio me contar a história e me contou que foi o namorado dela. Perguntei se queria denunciar o namorado e ela disse que não, porque amava o namorado. "Você ama ele?", "Sim. Eu que errei. Ele já tinha me avisado que não era para usar batom".

Ela sofre tanta violência e é tão vulnerável no caso do estupro que você vê a barbaridade que acontece, que ela não tem força de denunciar. Ela não consegue achar que foi agredida e procurar [ajuda]. Porque quando chega na instância do próprio Estado que dê garantia a ela, o acolhimento e a justiça, o Estado volta a vitimizá-la. Ela vai procurar ajuda e vai ser revitimizada, vai ser acusada, imputada e vai sofrer novamente outra violência. 

Primeiro atendimento

Eu não estava preparado ainda. Atendi uma militar que havia sido estuprada no exercício de sua profissão. Foi a coisa mais angustiante, que eu não tinha noção. Aquilo ali me balançou muito. Não foi fácil, não. Os médicos se rebelaram, as enfermeiras também. Ninguém queria participar disso. 

Infelizmente, precisa haver essas torturas e essas condutas misóginas e revoltantes para as pessoas pensarem: será que é isso mesmo? Será que isso é uma atitude que deve ser feita? Isso serve para aprender com os erros, para tentar melhorar como sociedade e não voltar para trás.

Foto: Mais Goiás

[Hoje] eu teria tratado com mais carinho, mais compaixão. Teria mais empatia naquele momento. Eu poderia ter procurado ajuda, encaminhado para um psicólogo e tratado de forma mais humana. Mas eu não fui preparado para isso.

O direito de não fazer abortos

É lei desde 1940, mas na faculdade não fala isso. Não treinava a gente para o atendimento. É crime [o estupro], mas não vamos atender uma mulher que fez aborto. Mesmo que não seja crime, ela era a culpada, na cabeça dos homens da Medicina, da Igreja, de tudo. É um assunto que não era tocado. 

Uma coisa que os médicos alegam muito, um direito que o médico tem, é o direito de objeção de consciência. Mas em um sentido amplo, biomédico e universal, nós médicos não poderíamos ter objeção de consciência.

É um direito humano, tudo bem, mas também tem o direito à saúde, outro direito humano. Quando você presta para ser médico, você está valorizando o direito à saúde. Você não foi obrigado a ser médico.

Se você tem objeção de consciência para esses assuntos, vá fazer arquitetura, vá fazer engenharia. Mas você escolheu aquilo ali. E pior: escolheu fazer ginecologia e obstetrícia. Por que não foi fazer dermatologia? 

"Nós, como médicos, precisamos causar beneficência, não maleficência. Justiça e autonomia. Nós não podemos ter um decoro de ética médica para os homens e outro para as mulheres, considerar a palavra do homem e a mulher não ter autonomia."

Eu não tenho nada contra religião, mas se um médico é Testemunha de Jeová, ele não pode fazer Hematologia. Não pode fazer cirurgia cardíaca, nem obstetrícia, porque hemorragia é uma causa de morte. Ele não vai poder alegar que não transferiu sangue porque tem objeção de consciência com a transfusão de sangue. Então, essa objeção de consciência não pode existir na nossa profissão, porque ninguém foi convocado ou obrigado a ser médico (...).

Tem direitos que você não causa danos a terceiros. Se você é médico, trabalha no SUS, recebe salário para promover saúde, sabendo que o abortamento faz parte do rol de competências da sua especialidade, que violência contra a mulher também faz parte do rol ao qual você foi treinado e que existe o Código de Ética Médica, a Justiça do país que dá direito a poucas situações, mas dá, e mesmo quando chega o caso protegido pela Lei, você nega?

Crença x Ciência

Minha família é toda católica, mas não tenho nenhum conflito. Quando atendo uma mulher que é vítima de violência, eu me sinto médico, fazendo o correto. Me sinto plenamente médico. Eu sei que estou do lado certo.

Não sou religioso praticante, mas estudo. O homem histórico Cristo, sou fã dele. Ele foi revolucionário e foi morto por causa disso, por proteger mulheres, os fracos, contra o poder dominante. [Era] contra o Antigo Testamento, que é extremamente machista. Defendia que mulheres adúlteras não mereciam ser apedrejadas.

O que eu faço aqui é muito menos do que Cristo fez. É claro que eu não tenho pretensão de me comparar, mas Cristo foi muito mais atrevido que eu.

A mulher quando provoca um aborto é a pior coisa do mundo, causa um dano terrível para a saúde mental dela, mas o pior ainda é ela não ter esse direito de escolha. É obrigá-la a ter uma gravidez contra a vontade dela. O dano psicológico disso é muito maior e pode causar suicídio.

A maior causa de suicídio na adolescência é gravidez forçada. Ela está querendo ajuda, quer um método contraceptivo, quer educação para se proteger. Quem é que vai tirar ela da violência? Quando ela tem medo, ela é criminalizada, ela resolve sozinha: ou morrendo, ou de forma insegura. Esse segredo é guardado com ela, ela continua na vulnerabilidade e logo está grávida novamente.

O mundo mostra quando você trata esse assunto como saúde pública. Onde se torna lei, é [onde] o número de aborto vai diminuindo.

O relato foi concedido à jornalista Juliana Steil, na última segunda-feira, 27, por telefone.

*Com edição de Estela Marques.

Fonte: Redação Terra
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