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"Cripface naturaliza e reforça a ideia de que pessoas com deficiência não são capazes de atuar"

5 set 2026 - 11h34
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Resumo
Em debate promovido pelo blog Vencer Limites, a artista Fernanda Maciel critica o *cripface* — escalação de atores sem deficiência para papéis com deficiência —, classificando a prática como capacitista. Segundo ela, o ato reforça estereótipos, retira oportunidades de profissionais da área e reflete a corponormatividade estrutural. Maciel defende uma dramaturgia inclusiva, na qual artistas com deficiência atuem em papéis diversos, superando padrões hegemônicos e garantindo representatividade real.

Fernanda Maciel é artista DEF da Kinesis Cia de Dança e participa do festival Acessa BH com o espetáculo 'Entre Ellas', que chama o público a refletir sobre o limite que define um corpo "normal" ou "deficiente". A convite do blog Vencer Limites (Estadão), ela fala sobre a presença e participação de artistas com deficiência em produções culturais.

Fernanda Maciel, após uma lesão medular, reinventou sua relação com a dança e com o corpo.
Fernanda Maciel, após uma lesão medular, reinventou sua relação com a dança e com o corpo.
Foto: Divulgação / Gilberto Goullart / Acessa BH. / Estadão

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O blog Vencer Limites (Estadão) procurou representantes do setor cultural, gente com e sem deficiência, e pediu opiniões a respeito do cripface, prática de escalar atores ou modelos sem deficiência para interpretar personagens com deficiência em filmes, séries, peças ou propagandas.

Paulo Fabião, jornalista e escritor, com três livros publicados, além de ativista e palestrante, afirma que o cripface "é mais uma prática capacitista normalizada".

Laís Vitral, curadora e idealizadora do Acessa BH, diz que "o debate sobre o cripface levanta uma questão legítima de representatividade e acesso a oportunidades".

Quem também opina é Fernanda Maciel, artista DEF da Kinesis Cia de Dança, mestre em Saúde Pública que atua na formação de trabalhadores do SUS na Escola de Saúde Pública de Minas Gerais. "Estou agora finalizando o doutorado na UFMG, em que relaciono a prática de improvisação em dança com o campo de estudos da deficiência e com as noções de corpo e de saúde". Ela participa do festival Acessa BH com o espetáculo 'Entre Ellas', que "convida o público a refletir sobre: O que pode um corpo? O que define que um corpo seja 'normal' ou 'deficiente'? Esse limite existe?".

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blog Vencer Limites (Estadão)Qual é a sua opinião sobre a prática do cripface, quando personagens que têm deficiência são vivenciadas por artistas que não são pessoas com deficiência, mas simulam as deficiências da personagem no palco, no cinema, na TV?

Fernanda Maciel (Kinesis Cia de Dança) - A prática do cripface é uma forma de naturalizar e reforçar a ideia de que pessoas com deficiência não podem, não devem ou não são capazes de atuar em determinados espaços no cinema, na TV ou no teatro.

Pare para pensar, qual ou quais atrizes e atores com deficiência você conhece? Para mim, o cripface nada mais é do que uma das manifestações do capacitismo e acaba sendo uma prática que retira a oportunidade de profissionais com deficiência atuarem na cena e que objetifica a deficiência, tornando-a quase como um "adereço" a ser vestido.

Se atores e atrizes com deficiência estivessem tendo oportunidades nas diversas produções do cinema e do teatro, seria ainda necessário recorrer ao cripface? É por isso que entendo que esse tipo de prática é a ponta do iceberg de um problema estrutural que é o de segregar pessoas porque elas não atendem aos padrões de corponormatividade (ou seja, porque elas não são tão "normais" assim).

Para pensar mais sobre isso, talvez seja importante nos questionarmos: por que atrizes e atores com deficiência não são convidados a interpretarem personagens com deficiência? Comparativamente, não seria o mesmo que chamar uma pessoa branca para interpretar um personagem negro?

blog Vencer Limites (Estadão)Atrizes e atores que são pessoas com deficiência podem ser chamados para viver personagens que têm deficiência ou isso mantém e fortalece um estereótipo? Escalar atrizes e atores com deficiência apenas para personagens que, necessariamente, não seriam pessoas com deficiência é uma maneira de quebrar estereótipos ou isso é um capacitismo? Essa escolha tem que ser da atriz e do ator ou de quem escala o elenco?

Fernanda Maciel (Kinesis Cia de Dança) - Eu acho que chamar atrizes e atores sem deficiência para interpretarem a deficiência fortalece estereótipos porque, sim, há um saber (que hoje é chamado de cripistemologia) que é produzido pela própria experiência da deficiência. Não raro quando a prática de cripface acontece em um filme ou em uma novela, costuma-se caricaturar e reforçar certas ideias estereotipadas da deficiência.

Por outro lado, convidar atores e atrizes com deficiência, exclusivamente, para interpretarem personagens cujo traço principal ou cuja história circula em torno da questão da deficiência seria minimizar as possibilidades deste ator ou desta atriz. Afinal de contas ele/ela também é mais que sua condição de ator ou atriz com deficiência.

Pensemos. Na vida comum, ainda que exista muita segregação e exclusão, tem pessoas com deficiência existindo de diversas formas: estudando, trabalhando, se relacionado com outras pessoas, tendo filhos, fazendo amizades, ficando doentes, estando saudáveis, sendo felizes, tristes, enfim, vivendo a vida como a vida é. Na dramaturgia não deveria ser assim também? A questão, como disse antes, é que o cinema, o teatro e as séries e novelas de TV continuam higienizando nossa presença. Nós não estamos lá não apenas como profissionais atuando (o que é um problema), mas também não estamos lá na própria história que está sendo contada. É como se não existíssemos, entende? Por isso que, na minha opinião, a escolha de ter um ator/atriz com deficiência (encenando ou não um personagem cuja história principal é a própria deficiência) passa por várias etapas: pela concepção da dramaturgia, do roteiro e pela composição dos personagens.

Hoje, na TV brasileira, há muitas pessoas negras ocupando a cena, seja em uma favela, seja em uma grande empresa. O mesmo deveria ser feito em relação a nós. Talvez se isso acontecesse, não seria tão naturalizado o cripface como ainda é até hoje no Brasil.

blog Vencer Limites (Estadão)É válido o argumento de que artistas com deficiência não podem vivenciar determinadas personagens porque as características físicas desse artista causadas pela deficiência não permitem a performance exigida? Por exemplo, cantar em um espetáculo musical no teatro?

Fernanda Maciel (Kinesis Cia de Dança) - Se você entende que há apenas um modo de cantar em um musical e que esse modo depende de um corpo "normal", sim, pessoas com deficiência não poderiam interpretar um cantor de um muscial. Mas se isso fosse verdadeiro não haveria tantos artistas def fazendo música, literatura, teatro, dança e cinema por aí.

Claro que não iremos fazer a nossa arte como uma pessoa corponormativa. Mas fazemos arte. A questão é se a obra (em que há um personagem de um cantor de musical) pretende ampliar sua estética para além da estética padrão e hegemônica.

Quem concebe e dirige a obra entende que a arte DEF é uma possibilidade para ser retratada na dramaturgia?

Existe um conceito que é o de capacidade corporal compulsória que entende que há um sistema estrutural que está nos impondo (a todos nós, pessoas com e sem deficiência) a necessidade, reiteradamente, que performemos a normalidade e as capacidades corporais plenas. Esse sistema está atuando em todos os lugares e em todas as pessoas, inclusive, no cinema, no teatro, nos/nas diretores/as e dramaturgos/as de tais obras. Questionar e ir contra isso é fazer um teatro em que simplesmente há um ator cadeirante fazendo, por exemplo, o homem ridículo de Dostoiévski, sem ter que dar explicação nenhuma.

Por que, afinal de contas, aquele homem da história não poderia ser uma pessoa que usa cadeira de rodas?

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"As muletas são extensão do corpo, ferramenta de criação, elemento simbólico. Elas dançam, participam, confundem-se com o corpo. Não são apenas instrumentos de apoio, mas objetos poéticos que abrem outras interpretações para o corpo e suas potências".
"As muletas são extensão do corpo, ferramenta de criação, elemento simbólico. Elas dançam, participam, confundem-se com o corpo. Não são apenas instrumentos de apoio, mas objetos poéticos que abrem outras interpretações para o corpo e suas potências".
Foto: Divulgação / Gilberto Goullart / Acessa BH. / Estadão
Fernanda Maciel, após uma lesão medular, reinventou sua relação com a dança e com o corpo.
Fernanda Maciel, após uma lesão medular, reinventou sua relação com a dança e com o corpo.
Foto: Divulgação / Gilberto Goullart / Acessa BH. / Estadão
Estadão
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