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"Cripface levanta questão sobre representatividade e oportunidades"

5 set 2026 - 10h25
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Resumo
Laís Vitral, idealizadora do festival Acessa BH, critica a prática do "cripface" — escalação de atores sem deficiência para papéis com deficiência —, apontando a perda de oportunidades profissionais e o risco de estereótipos. Ela defende que a questão central é a equidade no setor cultural, ressaltando que artistas com deficiência enfrentam barreiras capacitistas e devem ter espaço para interpretar quaisquer papéis, e não apenas personagens definidos unicamente por suas limitações físicas.

Laís Vitral é curadora e idealizadora do Acessa BH (4 a 27 de setembro), um dos maiores festivais de arte e cultura DEF do Brasil. A convite do blog Vencer Limites (Estadão), ela fala sobre a presença e participação de artistas com deficiência em produções culturais. "É preciso distinguir as exigências reais de um papel e as suposições sobre o que uma pessoa com deficiência seria capaz de fazer", diz.

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O blog Vencer Limites (Estadão) convidou gente com e sem deficiência que atua no setor cultural para opinar sobre o Cripface, prática de escalar atores ou modelos sem deficiência para interpretar personagens com deficiência em filmes, séries, peças ou propagandas.

A primeira a responder é Laís Vitral, curadora e uma das idealizadoras, com Daniel Vitral, do Acessa BH, um dos maiores festivais de arte e cultura DEF do Brasil, que começa nesta sexta-feira, 4, vai até o dia 27/9 em Belo Horizonte (MG) e tem mais de 30 atividades entre teatro, dança, cinema, oficinas e literatura.

blog Vencer Limites (Estadão) - Qual é a sua opinião sobre a prática do cripface, quando personagens que têm deficiência são vivenciadas por artistas que não são pessoas com deficiência, mas simulam as deficiências da personagem no palco, no cinema, na TV?

Laís Vitral (Acessa BH) - O debate sobre o cripface levanta uma questão legítima de representatividade e acesso a oportunidades. Não é comum vermos as pessoas com deficiência em posição de destaque e, no caso das artes, isso é muito claro. Raramente um personagem com deficiência é representado por pessoas com deficiência na dramaturgia, seja em novelas, filmes ou espetáculos.

Na maioria das vezes, o papel é representado por alguém que não tem deficiência, quando, na verdade, existem vários atores que vivenciam essa realidade e poderiam fazer aquela interpretação. Por que chamar um ator vidente, para interpretar um personagem cego? Ou um "bípede" para interpretar um personagem em cadeira de rodas? As pessoas com deficiência historicamente enfrentam barreiras para entrar no mercado audiovisual e teatral. Quando um dos poucos personagens com deficiência é interpretado por alguém sem deficiência, perde-se uma oportunidade importante de inclusão profissional.

Também há o receio de que atores sem deficiência acabem reproduzindo estereótipos ou versões simplificadas da experiência da deficiência, especialmente quando a produção não envolve consultores ou artistas com deficiência no processo criativo. Há quem defenda que atores podem e devem interpretar quaisquer papéis, e isso validaria um ator sem deficiência a interpretar um personagem com deficiência. Mas pra mim, o cripface é menos como uma questão de quem tem permissão para atuar e mais uma discussão sobre equidade de oportunidades, autenticidade e poder de representação.

blog Vencer Limites (Estadão) - Atrizes e atores que são pessoas com deficiência podem ser chamados para viver personagens que têm deficiência ou isso mantém e fortalece um estereótipo? Escalar atrizes e atores com deficiência apenas para personagens que, necessariamente, não seriam pessoas com deficiência é uma maneira de quebrar estereótipos ou isso é um capacitismo? Essa escolha tem que ser da atriz e do ator ou de quem escala o elenco?

Laís Vitral (Acessa BH) - Os artistas com deficiência podem e devem ser chamados para interpretar personagens com deficiência, mas não deve-se limitar as oportunidades desses artistas a interpretarem somente esses papéis. A deficiência é mais uma característica dentre tantas outras que cada pessoa possui. Sendo assim, atores e atrizes com deficiência podem e devem também interpretar papéis onde a deficiência não seja o foco e contar quaisquer histórias, sendo protagonistas, vilões, heróis, profissionais, pais, mães etc.

Se uma atriz cadeirante só é considerada para personagens cadeirantes ou um ator autista apenas para personagens autistas, a deficiência passa a definir toda a carreira artística daquela pessoa. Isso também é uma forma de exclusão. A mídia e as artes têm o poder de criar hábitos e tendências, difundir e propagar um pensamento. Então, é muito importante abraçar a diversidade de corpos e representá-la nas telas e nos palcos.

blog Vencer Limites (Estadão) - É válido o argumento de que artistas com deficiência não podem vivenciar determinadas personagens porque as características físicas desse artista causadas pela deficiência não permitem a performance exigida? Por exemplo, cantar em um espetáculo musical no teatro?

Laís Vitral (Acessa BH) - Esse argumento pode ser válido em algumas situações específicas, mas se torna problemático quando é usado como justificativa geral para excluir artistas com deficiência. É preciso distinguir as exigências reais de um papel e as suposições sobre o que uma pessoa com deficiência seria capaz de fazer.

Historicamente, muitos diretores e produtores presumiram incapacidade antes mesmo da audição, deixando claro o capacitismo. Pesquisadores e artistas com deficiência relatam que frequentemente não recebem a oportunidade de demonstrar suas habilidades porque a deficiência é vista como um obstáculo automático frente ao corpo normativo.

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O festival Acessa BH ocupa seis espaços culturais da capital mineira: Funarte MG, Centro Cultural Unimed-BH Minas, Cine Theatro Brasil, Praça da Liberdade, Teatro Raul Belém Machado e Palácio das Artes). A programação reúne 18 apresentações, duas sessões de cinema comentadas, três oficinas/vivências, duas rodas de conversa, três bate-papos após espetáculos, dois lançamentos de livros e um dia especial de atividades em parceria com o Memorial Minas Gerais Vale.

Detalhes e a programação completa estão em acessabh.com.br.

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Laís Vitral é curadora do festival Acessa BH.
Laís Vitral é curadora do festival Acessa BH.
Foto: Divulgação / Marlon de Paula. / Estadão
Estadão
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