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Volkswagen é condenada a pagar R$ 2 milhões a ex-funcionários submetidos a trabalho escravo

Decisão em primeira instância beneficia três ex-funcionários submetidos a condições degradantes na década de 1980; montadora alemã informou que não comentará processo em andamento.

22 jun 2026 - 08h00
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A Volkswagen do Brasil terá que pagar R$ 2 milhões a três ex-funcionários submetidos a trabalho escravo na década de 1980. A decisão foi tomada em primeira instância pela Justiça do Trabalho e a fabricante alemã pode recorrer.

A empresa foi procurada pela reportagem do Jornal do Carro e enviou uma nota oficial. Confira seu conteúdo abaixo:

"A Volkswagen do Brasil não se manifestará sobre discussões judiciais em andamento. Adicionalmente, a empresa ressalta que, com um legado de 73 anos, a Volkswagen do Brasil reafirma seu compromisso permanente com o respeito absoluto à Constituição Federal, às leis brasileiras e aos princípios internacionais de direitos humanos que orientam sua atuação como uma das maiores empregadoras do País. A empresa repudia qualquer forma de trabalho forçado, degradante ou análogo à escravidão e reitera sua dedicação histórica à promoção de um ambiente laboral digno, ético e responsável."

As ações foram movidas por Pedro Valdo Pereira Vasconcelos e pelos irmãos Raul e Raimundo Batista de Souza. Nas sentenças, o juiz responsável pelo caso determinou o pagamento de R$ 1 milhão por danos morais e R$ 1 milhão por dano existencial para cada trabalhador. Uma quarta ação, ajuizada pelo ex-lavrador José Ribamar, ainda aguarda julgamento pelo magistrado.

Ao Repórter Brasil, Raul Batista disse que sentiu que a justiça foi feita. "Espero que fique tudo bem, para tirar um pouco do peso de cima da gente", afirma.

Retrato do "peão" Antonio dos Reis um dos fugitivos dos "gatos" da Companhia Vale do Rio Cristalino, Julho de 1983, Santana do Araguaia, PA.
Retrato do "peão" Antonio dos Reis um dos fugitivos dos "gatos" da Companhia Vale do Rio Cristalino, Julho de 1983, Santana do Araguaia, PA.
Foto: Clóvis Cranchi/Estadão / Estadão

Entenda o caso

A proposta de emprego era tentadora: ganhar um bom salário e poder sustentar a família com dignidade. A empresa ajudaria com a viagem, hospedagem, alimentação e até mesmo um adiantamento.

Foi com essa promessa que diversos trabalhadores relataram que foram aliciados a trabalhar na chamada "Fazenda Volkswagen".

Entre os anos 1970 e 1980, durante o regime militar, a montadora alemã foi sócia e administradora da Companhia Vale do Rio Cristalino (CVRC), responsável por uma fazenda de 139 mil hectares no sul do Pará. Com investimento de mais de R$ 500 milhões (em conversão para os dias atuais) realizado com dinheiro público, a área foi dedicada à criação de gado e extração de madeira.

Fazenda Volkswagen recebia incentivos fiscais do governo por meio da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam)
Fazenda Volkswagen recebia incentivos fiscais do governo por meio da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam)
Foto: Acervo/Estadão / Estadão

As pessoas recrutadas deveriam atuar na derrubada da mata, montagem do pasto e demais obras internas. Porém, foram surpreendidas pela chamada "servidão por dívida". Isso quer dizer que a hospedagem, os custos de transporte, a alimentação e até o tal adiantamento se tornaram dívidas assim que colocaram os pés no local de trabalho.

Há relatos, inclusive, de que a cantina que oferecia a alimentação praticava preços altíssimos, o que fazia com que a dívida continuasse a crescer. Vale ressaltar que a cantina também era administrada pela empresa.

Segundo a reportagem do Repórter Brasil, esses trabalhadores foram impedidos de deixar a fazenda até mesmo quando enfrentaram doenças graves, como a malária, e eram vigiados por pessoas armadas, os chamados pistoleiros.

A decisão do magistrado reconhece que as práticas configuram servidão por dívida, jornada exaustiva, restrição da liberdade de locomoção e condições degradantes de trabalho e alojamento.

O que diz a Volkswagen

Ainda de acordo com o Repórter Brasil, no processo, a Volkswagen alegou que não teria responsabilidade sobre os episódios, já que era apenas acionista da empresa, e também que os acordos dos trabalhadores eram feitos por intermediários.

Contudo, documentos anexados ao processo indicam a participação da montadora como gestora, e não apenas acionista. "A própria ata de instalação registra a posse de dirigentes diretamente vinculados à Volkswagen nos principais cargos executivos da CVRC", diz a sentença.

A condenação neste momento não é um caso isolado. A empresa já havia sido condenada a pagar R$ 165 milhões por danos morais coletivos — também no caso da Fazenda Volkswagen. A decisão em 1ª instância foi tomada em agosto de 2025 e, em 2ª instância, em fevereiro de 2026.

Estadão
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