Você nem notou, mas o Citroën Aircross está saindo de linha
Com vendas residuais, versões ignoradas pelas lojas e a sombra de novos lançamentos da Stellantis, SUV vive um estágio 'zumbi' no mercado enquanto aguarda o adeus definitivo
O Citroën Aircross está num limbo muito familiar. O SUV não morreu oficialmente, mas já não vive de verdade. É praticamente um zumbi. Segue lá, firme e forte no configurador da marca, como um produto ativo, mas na prática caminha a passos largos para virar peça de museu.
Segundo apurado pelo Jornal do Carro, o modelo vem tirando seu time de campo de forma tímida, para não assustar ninguém. A configuração de cinco lugares já subiu no telhado, enquanto as opções de sete devem deixar o mercado ainda este ano ou, mais tardar, em 2027.
E os números entregam o roteiro sem muito esforço. Em 2025 o veículo teve 4.550 licenciamentos, o que representa uma acanhada média de quase 380 emplacamentos por mês.
No acumulado de 2026, o Aircross teve apenas 911 unidades comercializadas. O volume é considerado baixo até para padrões de nicho, ainda mais considerando o tamanho da operação da Stellantis no país.
O dado que escancara a situação, porém, está na própria divisão do mix. Apenas 27 unidades da configuração de cinco lugares encontraram dono no acumulado. A Citroën alegou durante o lançamento da linha mais recente que a opção, com preço tabelado a R$ 119.990 para pessoas físicas, passaria a ter como foco as vendas diretas.
O Aircross ficou, inclusive, preso em um meio-termo justamente por isso: não é exatamente barato. As versões de sete lugares partem de R$ 123.790 e vão até R$ 134.790. Isso de acordo com os preços promocionais presentes no configurador.
Citroën Aircross "perdeu o bonde"
O caso do Aircross é curioso porque o modelo foi lançado, em 2023, com discurso claro. Apostava no espaço interno, na versatilidade dos sete lugares e em uma proposta racional para famílias que não queriam (ou não podiam) subir para SUVs médios. Na teoria, fazia sentido. Na prática, encontrou um Brasil que mudou mais rápido do que a Citroën poderia imaginar.
Hoje, o jogo está dominado por SUVs compactos mais modernos, melhor conectados e, sobretudo, com maior apelo de marca. Rivais diretos e indiretos oferecem mais tecnologia embarcada, melhor percepção de acabamento e um pacote mais alinhado ao que o consumidor passou a exigir.
Isso sem contar as opções eletrificadas. Existe até a possibilidade de que o próprio Aircross ganhe sobrevida com a adoção do sistema híbrido leve de 12V presente nos Fiat Pulse e Fastback e nos Peugeot 208 e 2008. No entanto, fontes apontam que nem a tecnologia deve salvar o SUV da ruína.
Interlocutores ouvidos pelo JC também dizem que o Aircross não entrega o refinamento esperado por quem sobe de categoria e também não conversa com o público que busca imagem ou desempenho. Resultado: ficou sem tribo.
A permanência no configurador, nesse contexto, soa mais como inércia industrial do que estratégia comercial. Manter o modelo "vivo" evita ruídos imediatos na rede. Além disso, garante algum giro residual de estoque e prolonga discretamente o ciclo de vida, mas sem mudar o destino.
A opção de cinco lugares, para se ter noção, já é tratada como fora de linha por concessionários. As lojas sequer trabalham com a configuração em suas estratégias de vendas.
Produção do Jeep Avenger e SUV de sete lugares da Fiat
Além das causas que já mencionamos para a breve (e dura) vida do Aircross no Brasil, há ainda outros fatores relevantes que comprometem o SUV. Um deles é a produção do Jeep Avenger em Porto Real (RJ).
A unidade, vale ressaltar, também fabrica o Aircross. Com a chegada do novo SUV, olhará com mais carinho para o Jeep do que para o modelo da Citroën — que deve continuar a ser produzido para abastecer o mercado externo ao menos num primeiro momento.
Ainda há outro ponto importante para garantir o último prego no caixão do Aircross. Trata-se do projeto F2U. O novo SUV de sete lugares da Fiat é derivado justamente do modelo da Citroën.
A novidade será apresentada no Salão de Paris e tem início de produção no Brasil prevista para 2027. O SUV da Fiat, ressaltam fontes, terá muito mais condições de brigar no segmento hoje dominado pela Chevrolet Spin do que o Aircross.
Confira abaixo, na íntegra, o posicionamento oficial da Citroën:
"Ter 7 lugares no B-SUV é uma característica única no segmento e, hoje, somente o Citroën Aircross tem. Sendo assim, é esperado que o maior volume de vendas venha dessas versões, embora a versão de 5 lugares ainda tenha seu público de interesse. A Citroën ressalta que tanto a produção quanto a comercialização da gama Aircross seguem normalmente no país. Vale destacar que além da opção de até 7 lugares, a linha mantém atributos fortes como design imponente, espaço interno, versatilidade dos bancos removíveis e porta-malas com capacidade inigualável do segmento. Somado a isso, apresentou em 2026 a versão XTR, que ocupou o topo da gama do modelo, agregando ainda mais valor à linha atual."