Renault vai expandir plataforma de dona da Volvo para outros lançamentos até 2030
Primeiro SUV híbrido, Koleos, é o pioneiro a adotar a arquitetura que equipa modelos da Volvo, Geely e Zeekr; mais modelos serão feitos sobre base da chinesa
A presença crescente da Geely no Brasil (primeiro de forma indireta, agora cada vez mais estrutural) ajuda a explicar o novo capítulo da Renault. O grupo francês anunciou o plano futuREady, estratégia global que pretende consolidar a empresa como "referência europeia" no setor automotivo em um cenário cada vez mais competitivo e marcado pelo avanço de fabricantes chineses.
Por meio de comunicado, a Renault deixou claro que pretende estreitar ainda mais suas relações com a Geely na América do Sul e no Brasil. A fabricante já reorganiza sua estratégia industrial e tecnológica em parceria com a chinesa, numa relação que mistura cooperação industrial, compartilhamento de plataformas e divisão de investimentos em tecnologias de eletrificação.
O futuREady é, na prática, a continuação da Renaulution, estratégia lançada em 2021 que reposicionou a empresa após anos de dificuldades financeiras. Agora, a ambição é transformar aquela recuperação em um crescimento mais robusto.
"futuREady é um passo crucial para o futuro do Renault Group. Em um ambiente cada vez mais competitivo, podemos nos apoiar em fundamentos sólidos: nossas marcas, nossos produtos e nossos resultados financeiros", afirmou o CEO do marca, François Provost.
América do Sul ganha peso estratégico
Entre os mercados globais, a América do Sul aparece explicitamente como um dos polos de crescimento do grupo, ao lado de Índia e Coreia do Sul.
A região deve receber parte relevante da ofensiva internacional da marca, que prevê 36 novos modelos até 2030. Destes, 22, diz a Renault, são exclusivos para a Europa (sendo 16 elétricos) e 14 são destinados a mercados fora do continente.
Além disso, a plataforma elétrica de próxima geração, chamada RGEV Medium 2.0, terá arquitetura de 800 volts, permitindo carregamento ultrarrápido em até 10 minutos em condições ideais até o final da década. É algo similar em termos de tecnologia ao que temos, por exemplo, na BYD e na Tesla.
A meta da Renault é atingir 750 km de autonomia no ciclo WLTP, podendo chegar a 1.400 km em versões com extensor de alcance. Este pode, inclusive, ser um trunfo para futuros modelos eletrificados à venda em nosso país. É uma tecnologia parecida, bom lembrar, com a do Leapmotor C10.
Bom salientar que, para a produção dos 36 novos carros, a Renault lança mão de 10 plataformas. Todas atenderão a objetivos específicos.
A RGMP, por exemplo, plataforma de Kardian e Boreal, segue no jogo. E renderá o primeiro fruto já em 2027: trata-se de modelo que tomará como base o Bridger Concept.
Com menos de quatro metros de comprimento, o veículo antecipa um SUV compacto de proporções ousadas focado em mercados emergentes, como o Brasil. Construído sobre a plataforma RGMP Small, será versátil, prevendo motorizações a combustão, híbridas e elétricas.
No visual, o conceito aposta em linhas angulares*e uma grade frontal imponente que integra o nome da marca aos faróis. Para reforçar o espírito aventureiro, a Renault incluiu um estepe na tampa do porta-malas — estilo clássico do Duster — acompanhado de rodas de 18 polegadas e a exclusiva cor "Beige Dune Satin".
Por dentro, o destaque do Bridger Concept é o aproveitamento inteligente de espaço. O SUV tem posição de dirigir elevada e porta-malas com capacidade para 400 litros.
Desenvolvido inicialmente na Índia, a versão de produção dessa espécie de evolução do Duster com pegada mais aventureira deve ganhar as ruas antes do fim de 2027. Embora siga para outros mercados internacionais, o Bridger não deve ser lançado na Europa, mantendo o foco em regiões onde a demanda por SUVs compactos e robustos é prioridade. Como o Brasil.
Híbridos no jogo e maior eficiência
Apesar do foco crescente em veículos elétricos, a Renault não pretende abandonar os híbridos. A tecnologia E-Tech continuará sendo desenvolvida mesmo depois de 2030, principalmente para mercados internacionais, onde infraestrutura de recarga e custo dos elétricos ainda são obstáculos.
Essa decisão dialoga diretamente com realidades como a brasileira, onde o híbrido ainda aparece como solução intermediária mais viável.
Outro eixo do plano envolve produtividade industrial. A Renault pretende encurtar o ciclo de desenvolvimento de novos carros para apenas dois anos e reduzir o custo de produção dos elétricos em até 40%.
Para isso, o grupo aposta em digitalização das fábricas, uso intensivo de inteligência artificial e um metaverso industrial capaz de monitorar operações em tempo real. Até 350 robôs humanoides poderão ser usados em tarefas pesadas ou repetitivas nas linhas de produção.
Uma nova fase industrial
No pano de fundo, o plano também reflete a reorganização global da indústria automotiva. Enquanto a Renault mantém sua base tecnológica na Europa, o crescimento virá cada vez mais de mercados emergentes e parcerias internacionais.
Ademais, a empresa reforçou seu compromisso com parcerias como Nissan e Mitsubishi. A companhia prevê, inclusive, produzir mais de 300 mil veículos por ano para outras fabricantes, incluindo as japonesas e também Volvo Trucks, Ford e Geely.
Para Provost, essa rede de cooperação será fundamental para enfrentar a nova fase do setor. "Sabemos de onde viemos. Agora sabemos para onde queremos ir, como e com quem", disse o executivo.
Entre eletrificação, software e alianças globais, o plano da Renault reflete a nova realidade da indústria automotiva. É uma disputa que hoje passa tanto pela engenharia europeia quanto pela velocidade de execução que marcas chinesas vêm impondo ao mercado global.