Opinião: indústria automotiva ocidental tem poucos anos para reagir ao avanço chinês
Custos menores, ciclos de desenvolvimento mais curtos e tecnologia superior ameaçam fabricantes tradicionais, que precisam rever escala, receitas e alianças
Quando a pandemia de Covid chegou ao fim e as restrições foram suspensas, executivos ocidentais da indústria automotiva levaram o maior susto de suas carreiras. A China não havia apenas acompanhado o ritmo: tinha dado um salto gigantesco.
Agora, as vendas estão desacelerando, os custos das tarifas começam a pesar e a guerra pressiona os preços dos combustíveis. Qualquer um desses obstáculos já seria suficiente para causar preocupação. Mas o que realmente tira o sono dos executivos é a China.
As Três Grandes de Detroit (Ford, General Motors e Stellantis, via Chrysler) perderam 16 pontos percentuais de participação no mercado global nos últimos 20 anos. No mesmo período, as fabricantes chinesas saíram de menos de 1% para 12% do mercado mundial.
As montadoras ocidentais costumavam obter lucros substanciais na China, mas esses ganhos estão desaparecendo à medida que as empresas locais dominam seu próprio mercado e avançam agressivamente em outras regiões.
Essas empresas também produzem com custos de materiais 30% menores e investimentos de capital igualmente 30% inferiores.
E aqui está a parte mais difícil de admitir: às vezes, o concorrente não é apenas mais barato — também é melhor.
Em software, conectividade, recursos de condução automatizada e autonomia, os veículos chineses frequentemente estão à frente dos equivalentes ocidentais. A ideia de que as fabricantes chinesas competem somente pelo preço já não corresponde à realidade.
Recuperar escala — e padronizar para chegar lá
A geopolítica levou a indústria a adotar uma estrutura cada vez mais baseada na produção local para atender ao mercado local. A proliferação dos diferentes tipos de motorização também tornou a cadeia de fornecedores muito mais fragmentada.
O bolo — ou seja, as vendas de veículos novos — não cresceu muito, mas agora precisa ser dividido em um número bem maior de fatias. As montadoras precisam recuperar escala por meio de parcerias na produção e do compartilhamento de plataformas, conjuntos de propulsão e desenvolvimento.
Os gastos com incentivos comerciais, uma das maiores e menos transparentes linhas de custos das empresas, podem ser otimizados com o uso de IA. A distância entre o potencial dessa tecnologia e seu impacto atual representa uma das maiores oportunidades ainda inexploradas pela indústria.
Gerar novas receitas durante toda a vida útil do veículo e em setores adjacentes
Os volumes de vendas nos Estados Unidos e na Europa estão estagnados. A participação de mercado das fabricantes ocidentais na China está diminuindo. De onde poderão vir novas receitas?
Primeiro, da geração de receita durante todo o ciclo de vida do automóvel, por meio da retenção dos clientes nas concessionárias e de serviços por assinatura.
Segundo, da atuação em mercados próximos, como robótica, defesa e sistemas de armazenamento de energia — e até mesmo das oportunidades abertas pela expansão dos data centers.
Competir como um ecossistema
Faça um exercício de imaginação. Pense em um veículo ocidental desenvolvido não por uma única empresa, mas por uma aliança coordenada que reúna as melhores capacidades do Ocidente: software de condução autônoma do Vale do Silício; semicondutores de última geração; química de baterias revolucionária criada por startups apoiadas por fundos de venture capital; um conjunto de propulsão elétrico de referência e uma produção altamente eficiente em Detroit; além do lendário design da Costa Oeste.
Esse veículo não apenas conseguiria competir com os melhores modelos chineses. Ele poderia superá-los.
A urgência dessa visão vai muito além da atual guerra de preços. Outra conclusão da pesquisa Consumer Pulse deveria alarmar todas as montadoras tradicionais: dentro de dez anos, os atributos que definem uma marca premium deverão mudar de maneira decisiva.
Qualidade, tradição e conforto perderão espaço para tecnologias de assistência à condução, inovação nos sistemas de propulsão e sustentabilidade — exatamente os terrenos nos quais as fabricantes chinesas avançam com maior velocidade.
As marcas que não se movimentarem agora não perderão apenas participação de mercado. Elas colocarão em risco o próprio significado de suas marcas.
A China não esperou por um consenso. Não pediu permissão. Simplesmente construiu — de maneira mais rápida, mais barata e melhor do que qualquer empresa ocidental havia previsto.
A questão para Detroit e para todas as montadoras ocidentais é saber se elas ainda são capazes de fazer o mesmo. A resposta depende do reconhecimento de que já não estão competindo apenas contra empresas individuais, mas contra um ecossistema automotivo que opera com velocidade e escala sem precedentes.
A indústria que definiu o século passado não vencerá o próximo se continuar operando da mesma maneira.
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