Hyundai quer que seu próximo carro seja feito por robôs humanoides — inclusive no Brasil
Grupo sul-coreano quer substituir a lógica da automação rígida pela colaboração homem-máquina com o Atlas; Piracicaba (SP) está na rota
A Hyundai decidiu levar ao pé da letra a promessa de um futuro colaborativo. Na CES 2026 (Consumer Electronics Show), a marca apresentou uma estratégia com ambição de manifesto: menos robôs como ferramentas obedientes, mais robôs como colegas de trabalho. Um parceiro de fábrica, de armazém e, a médio prazo, da vida cotidiana.
A fabricante confirmou durante a feira que passará a usar robôs humanoides em suas unidades a partir de 2028. E apresentou seu novo "funcionário" ao mundo: o Atlas, desenvolvido pela Boston Dynamics.
Na CES, a montadora sul-coreana deixou claro que pretende integrar o Atlas em todas as suas fábricas espalhadas pelo mundo. Ou seja, adotará o robô humanoide inclusive em sua unidade de Piracicaba (SP), em operação desde 2012.
O Atlas foi concebido para trabalhar ao lado de humanos e é capaz de operar máquinas de forma autônoma.
O Atlas, da Hyundai, vai roubar empregos?
A pergunta é inevitável e complexa. A Hyundai afirmou em Las Vegas que o humanoide realizará as atividades mais pesadas dentro das fábricas, mitigando o esforço físico dos colaboradores.
Jaehoon Chang, vice-presidente do Hyundai Motor Group, diz compreender a apreensão dos funcionários, mas sinaliza uma "terceira via": humanos terão de treinar e supervisionar os robôs. Em suma, teremos menos suor e mais cérebro em campo.
Robô nas fábricas não é de hoje
Essa narrativa não surgiu do nada. Em 2022, a Hyundai já falava em "expandir o alcance humano". Agora, troca o hardware puro pela abordagem de robôs guiados por Inteligência Artificial, capazes de aprender e adaptar-se. É o conceito de "human-centered AI robotics", que tenta domesticar o medo ancestral das máquinas ao colocá-las, ao menos em tese, a serviço das pessoas.
Para sustentar a promessa, o grupo estrutura sua estratégia sobre três pilares:
1- Colaboração real
O primeiro pilar é quase óbvio: robôs trabalhando lado a lado com humanos, começando pelos ambientes industriais e pelas tarefas que ninguém sente saudade de fazer. São aquelas repetitivas, ingratas ou, como mencionamos anteriormente, perigosas.
2- Escala industrial
O segundo passa por aprofundar o casamento com a Boston Dynamics, combinando o cérebro robótico da empresa com sua escala industrial e a musculatura fabril.
3- Ecossistema digital
O terceiro amplia o tabuleiro, por meio de parcerias com líderes globais de IA para acelerar um ecossistema que vai muito além da linha de montagem.
O pano de fundo dessa história atende pelo nome de Physical AI. A IA física, em tradução livre, não vive apenas em um mundinho. Ela coleta dados no mundo real, toma decisões próprias e aprende com os próprios erros. É, inclusive, a cola conceitual que une robôs, fábricas inteligentes e direção autônoma num mesmo sistema nervoso digital.
Do mundo das ideias para a prática
A Boston Dynamics deixa de ser apenas uma geradora de vídeos virais. Seu cão robótico Spot, presente em mais de 40 países, virou funcionário padrão para inspeções industriais e marcou presença na CES para demonstrar tal força.
E ainda temos o Atlas, claro. Com juntas totalmente rotativas e mãos com sensibilidade tátil, ele promete executar desde o sequenciamento de peças até a montagem complexa.
Tecnicamente, o discurso impressiona: o Atlas aprende tarefas em menos de um dia, opera de forma autônoma, troca a própria bateria e levanta até 50 kg. Além disso, resiste à água, encara lavagens industriais e trabalha em temperaturas que fariam muito operário pedir atestado.
A implementação será gradual. A partir de 2028, o robô fará tarefas de logística; em 2030, passará a montar componentes e, posteriormente, atuará em operações pesadas. É uma visão ambiciosa — e talvez otimista demais. No entanto, se metade do que foi prometido sair do papel, o chão de fábrica ganhará contornos belos e, ao mesmo tempo, assustadores de ficção científica.