Busca por corpo perfeito gera pressão e afasta jovens das academias
Estudo mostra que 74% não treinam, mas desejam começar; redes sociais e padrões estéticos viram barreiras para a saúde mental
O desejo de cuidar da saúde esbarra no medo do julgamento. Nas redes sociais, a cultura do "shape ideal" dita as regras e impulsiona a busca por procedimentos estéticos. Fora das telas, a realidade mostra uma geração que quer se exercitar, mas se sente travada pela insegurança e pela pressão estética. O cenário levanta o questionamento: cuidar do corpo hoje é liberdade ou obrigação?
O dilema da geração e o medo de começar
Um levantamento exclusivo do Terra Insights, focado no mercado de academias, revela o tamanho desse dilema. Embora 74,6% dos entrevistados tenham até 34 anos, apenas 34,3% da amostra total pratica alguma atividade física. O sedentarismo, no entanto, não ocorre por falta de vontade: 74,3% dos não-praticantes afirmam ter interesse em começar a treinar.
O que impede essa transição são barreiras emocionais e sociais. O estudo aponta que 13,5% das pessoas não se sentem bem no ambiente das academias e 12,3% têm vontade de treinar, mas sentem vergonha por não saberem usar os aparelhos. A sensação de não pertencimento afasta justamente o público que busca iniciar uma rotina de bem-estar.
A pressão das redes sociais
A insegurança com o próprio corpo é alimentada pela comparação constante no ambiente digital. Uma pesquisa da État Pur em parceria com o Instituto Plano de Menina mostra que 93% das jovens brasileiras entre 18 e 24 anos já tiveram vontade de realizar algum procedimento estético, como rinoplastia ou lipoaspiração.
O estudo indica que 71% dessas jovens admitem se comparar frequentemente com o que veem nas telas. Como consequência, 30% relatam sentir insegurança e 23% apontam frustração. A cirurgiã plástica Abdulay Ezequiel alerta que o uso rotineiro de filtros nas redes sociais distorce a percepção da própria imagem, direcionando os usuários a buscarem intervenções para alcançar padrões irreais.
A psicóloga Letícia Souza explica que os parâmetros estéticos estabelecidos socialmente são incompatíveis com a pluralidade de corpos. Segundo a especialista, essa pressão gera adoecimento mental, resultando em sentimentos de autodepreciação e redução da autoestima. O impacto atinge até mesmo atletas de alto rendimento, como a ginasta Simone Biles, que já relatou crises de ansiedade devido à cobrança extrema por perfeição e desempenho.
Gênero e exclusão no ambiente fitness
A forma como a pressão estética e a busca por exercícios se manifestam varia entre os gêneros. Os dados do Terra Insights mostram que os homens tendem a focar na musculação e em lutas, atividades frequentemente associadas à performance e à força. Já as mulheres demonstram maior interesse por aulas coletivas e dança.
As mulheres também são as que mais sofrem com o desconforto nos espaços de treino: 15,3% delas relatam não se sentir bem no ambiente das academias, contra 12,2% dos homens. A percepção de que a aparência vale mais do que o bem-estar reforça a exclusão de quem não se encaixa no padrão vigente.
Saúde ou validação?
A linha entre buscar saúde e buscar validação externa tornou-se tênue. A dermatologista Paula de Rezende Salomão ressalta que cuidar da aparência deve ser uma escolha consciente para promover bem-estar, e não uma imposição social. Quando a autoestima é colocada nas mãos do julgamento externo, o indivíduo se torna refém de uma exigência inalcançável.
Para que os jovens consigam transformar a intenção de treino em hábito, o mercado e a sociedade precisam focar na saúde mental e na qualidade de vida. A criação de ambientes mais inclusivos e o acolhimento aos iniciantes surgem como caminhos necessários para desmistificar a cultura fitness e reduzir o peso do corpo perfeito.
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