Videogames nunca foram tão importantes quanto na quarentena
Em meio à pandemia de coronavírus, jogos são a melhor maneira de aliviar a tensão diária e driblar uma realidade traiçoeira
A memória mais bonita e afetiva que tenho com videogames vêm da infância. Eu devia ter menos de 10 anos de idade, e jogava no quarto dos meus pais, com as luzes apagadas e a janela fechada, sentado na cama, olhando para um televisor de tubo de 14 polegadas suspenso na parede. Numa época, enquanto morávamos em Eldorado do Sul (RS), na região metropolitana de Porto Alegre, minha mãe trabalhou como cuidadora de crianças para aumentar a renda da família, e eu me entretia viajando o mundo com Crash Bandicoot: Warped no meu PlayStation 1. O caixote cinza mesmo, que costumava travar com os jogos mais modernos da época.
Esse marsupial da Austrália geneticamente modificado foi o herói mais importante da minha criancice. Ele parecia muito mais humano e real do que qualquer super-herói com superpoderes. Eu e minha irmã, no maior estilo “morre e passa o controle”, jogávamos o primeiro jogo da série — o mais difícil da franquia, aliás —, revezando o joystick inúmeras vezes tentando passar pela fase da pedra, em que um pedregulho nos perseguia sem parar à la Indiana Jones. A câmera, ao invés de ficar posicionada atrás do personagem, desta vez ficava à frente dele. Nós precisávamos prever os botões que precisaríamos apertar para girar em caixas, pular buracos ou desviar de estacas de madeira.
Olhando os álbuns de fotos da família, tem até uma foto minha, da qual não me orgulho, atrapalhando a festa caseira de bodas de casamento dos meus pais. Eles posam para o fotógrafo enquanto eu puxo o vestido da minha mãe porque o disco de Grand Theft Auto (GTA) parou de funcionar. Nem parecia que eu tinha um porta discos com dezenas de outros jogos para passar o tempo, mas não. Interrompi todo o momento do clique por causa do maldito disco. Culpa do caixote cinza.
Sinto um pouco de dor ao lembrar que os jogos foram minha melhor companhia durante anos, já que nunca fui de grandes amigos, brincadeiras ou esportes. É uma dor parecida com a de, novamente, ter os jogos como a companhia mais próxima, enquanto vivencio o mundo inteiro de portas fechadas, à espreita de um vírus. O isolamento dói, machuca e somos obrigados a nos agarrar a qualquer coisa que traga um pouco de alegria verdadeira, que acalenta nosso coração. Precisamos ficar em casa, mesmo que contra nossa vontade.
Por isso, videogames, mais do que nunca, se tornaram uma das ferramentas mais eficazes e preciosas para mantermos a nossa sanidade mental em meio à pandemia de coronavírus. Arrisco dizer que esses caixotes, hoje na cor preta, são ainda mais competentes que filmes ou lives de artistas no Instagram: enquanto que nessas outras somos meros espectadores, receptores passivos, nos videogames quem tiver o controle na mão detém o poder. Temos a liberdade de tomar nossas próprias decisões e sermos livres de novo, ao mesmo tempo em que sentimos as consequências disso. Liberdade que nos foi tomada, mesmo que temporariamente.
É importante nos mantermos informados, mas, às vezes, é mais importante ainda desativar as notificações do celular e trocar de canal na televisão. Nossa cabeça pede isso.
Chega a ser deveras curioso que, seja aos meus 10 anos ou nos meus 20, meus refúgios sejam os mesmos: uma televisão e um joystick. Refúgios, aliás, criados para todas as idades, então não me venha com a balela de que videogames são coisa de criança. Esse pensamento foi esquecido no século passado.
A imersão e as infinitas possibilidades que os jogos proporcionam servem para aliviar a tensão e a monotonia tanto de crianças solitárias quanto a de adultos isolados. Os jogos estão lá, apenas esperando que você desligue as luzes do cômodo e aperte um botão. Eles podem não apenas lhe mostrar, mas também lhe inserir em histórias dramáticas, aterrorizantes ou cheias de ação. E graças a essa tal de internet, que parece que veio para ficar, os videogames podem te conectar a outros jogadores, sejam eles seus amigos ou não, que estão (ou deveriam estar) tão isolados quanto você.
Não é maravilhoso, por exemplo, chamar seus contatos para montar um time de Fortnite, entrar em um ônibus voador, cair de paraquedas em uma ilha e lutar para serem os últimos sobreviventes? Tudo isso formulando estratégias, conversando em tempo real e sentindo todas as emoções possíveis, como se todos vocês estivessem reunidos em um só lugar. Mas cada um na sua casa. Se você não tiver um console em casa, pode se divertir com o celular, independentemente do modelo ou do ano de lançamento, e ter uma experiência semelhante com o gratuito Free Fire, por exemplo.
É surpreendente a quantidade de pessoas, culturas e sotaques aos quais fui confrontado em cada partida. É como se um país continental diminuísse de tamanho e coubesse na palma da mão.
Quer uma sugestão tão bizarra quanto nossa realidade? Então você deveria experimentar Death Stranding. Quando o jogo foi lançado, fui um dos primeiros as esquisitices da megalomaníaca cabeça de Hideo Kojima. O mundo inteiro sob uma ameaça mortal e invisível que obriga a população a viver isolada, em bunkers. Os heróis neste mundo são os entregadores, que precisam ir de lá para cá transportando caixas e caixas de mercadorias e suprimentos. Um jogo que requer muita paciência e determinação; de fato, não é para qualquer um. Coincidência. Quem sabe eu consiga terminá-lo quanto essa pandemia passar.
No início do mês, aproveitei para jogar um dos games mais esperados do ano: o remake de Resident Evil 3: Nemesis. Só Deus sabe o quanto esse jogo me assustou quando piá (como são chamadas as crianças no interior do RS). Agora, mais velho, estar na pele de uma super policial chamada Jill Valentine, que precisa sobreviver a uma cidade largada ao caos, com monstros e zumbis, enquanto descobre os podres das empresas e dos gananciosos, me faz pensar que qualquer um pode passar por esse momento nefasto da história.
Levemos tudo isso como uma complexa fase de videogame. Vai ser difícil, mas o gosto da vitória no final vai fazer tudo isso valer a pena. Podemos cair e ser derrotados, mas jamais desistiremos. Vamos começar tudo de novo, e de novo, e de novo. O necessário para passarmos por essa situação juntos, cada um com suas armas. Eu já escolhi as minhas.