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Como aprender inglês com jogos?

É mesmo possível aprender inglês com jogos? Se sim, até qual nível a pessoa pode chegar usando essa tática?

29 nov 2021 18h24
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Foto: Depositphotos

Muitos de nós temos aquele amigo que afirma ter aprendido inglês com jogos digitais. Às vezes, nós mesmos somos esse amigo. O interessante é que essa jornada normalmente começa quando somos crianças e entramos em contato com o vasto mundo dos games pela primeira vez; aos poucos, para compreender melhor determinada fase ou instrução, ainda mais nas últimas duas décadas, em que traduções para PT-BR não eram tão comuns, era necessário fazer malabarismos linguísticos para entender outro idioma.

Esse método, é claro, funciona quando você é exposto a horas ininterruptas de jogos ao longo dos anos. Entretanto, ainda seria possível averiguar uma progressão do gênero em pessoas mais velhas, por exemplo? Sem entrar no mérito acadêmico e recheado de teorias pedagógicas em si — que são interessantes, mas não cabem numa matéria como essa (desculpem-me, Piaget, Vygotsky, Freire, Gramsci e tantos outros) —, é mesmo possível responder à pergunta sobre como aprender inglês com jogos? Bem, vamos tentar.

Aquisição de linguagem e psicolinguística

Do modo mais breve possível, a aquisição de linguagem é um dos processos mais interessantes que nós, seres humanos, somos capazes de fazer. Imagine, por exemplo, que sua sobrinha nasceu há pouco tempo e está crescendo; você consegue, durante esse desenvolvimento, perceber como ela compreende e reutiliza a linguagem de modo semelhante às pessoas que frequentam o ambiente em que ela está inserida, ao mesmo tempo em que experimenta novas formas de comunicação por meio de interações com objetos e outras pessoas.

O simpático linguista Noam Chomsky.
O simpático linguista Noam Chomsky.
Foto: The Intercept

Não é de se surpreender, portanto, que crianças com envolvimento maior em jogos digitais, apresentados em outra língua, comecem a fazer ligações, ainda que básicas, ao que estão vendo. Nesse sentido, praticamente qualquer jogo seria útil na aprendizagem, seja um de esporte, menos complexo e mais direto, ou algum de aventura, com mais instruções e indicações do que está acontecendo ou quais objetivos completar.

Isso está relacionado, também, ao estudo da Psicolinguística — que, muitas vezes, é atrelado ao campo da Linguística Gerativa de Noam Chomsky, o que não é obrigatório. De todo modo, esses nomes todos servem para que os mais curiosos, caso assim desejem, se aprofundem nesse vasto mundo semântico. Além, lógico, de prover uma base ok para a matéria.

Tá, mas como aprender inglês com jogos?

Lembra dele? Um dos maiores responsáveis por ajudar na conversação em outro idioma de quem nasceu nos anos 80 e 90.
Lembra dele? Um dos maiores responsáveis por ajudar na conversação em outro idioma de quem nasceu nos anos 80 e 90.
Foto: Depositphotos

Se você já é um pouco mais velho, só ficar na frente do computador ou televisão sendo bombardeado por palavras caóticas em outra língua a todo instante não vai surtir tanto efeito. Isso significa que, de modo geral, você precisa começar a compreender, pelo menos, o contexto em que essas palavras aparecem. Começar com jogos mais simples, como os de esporte, caso você seja um fã assíduo de determinada modalidade, ajuda bastante.

O ideal, entretanto, é se dispor a jogar títulos com mais história e buscar compreendê-los o máximo possível. Sem dúvidas, uma boa história auxilia bastante nessa tarefa. Talvez você esteja se perguntando onde encontrar isso, correto? Bom, um dos mais vastos gêneros do mundo dos games é justamente o dos RPGs.

Versão remasterizada de Dragon Quest III, clássico dos anos 90.
Versão remasterizada de Dragon Quest III, clássico dos anos 90.
Foto: Nintendo

Histórias cativantes, personagens bem desenvolvidos (na maioria das vezes), enredo bem amarrado e missões coerentes ajudam bastante na hora da compreensão, desde que, claro, tudo funcione bem. Algumas pessoas também já relataram aprendizagem com outros tipos de games, como os de ritmo, tal qual Guitar Hero.

Jogos me ajudaram a aprender, precisamente aos oito anos. Jogos mais casuais (Crash e Mario 64) não me motivavam em nada a aprender, pela simplicidade dos objetivos, por exemplo. Foi só com Kingdom Hearts II (de 2005, peguei pouco depois do lançamento) que eu precisava entender as palavras e supor o significado pelo contexto. Com RPG sempre tive essa percepção: se eu não entendo, não posso progredir e não me divirto. Então aprendi inglês básico por "necessidade". Logo depois, isso foi aperfeiçoado com Guitar Hero (inglês pela música) e Grand Theft Auto (gírias e palavrões).
Allan Francisco, jornalista e músico

Acredito que aos 10 anos que eu comecei a pegar palavras soltas. Grande parte foi em RPGs, iniciando na parte da leitura; jogos com traduções também me ajudaram um pouco, pois eu fazia a assimilação ao objeto/palavra na voz do narrador ou personagem. Ou seja, tudo que era muito story driven me ajudou bastante.
Ricardo Lucas, designer e confeiteiro

Estudo e imersão

Uma das necessidades cruciais de quando você estuda uma língua estrangeira é entrar em contato com a cultura da língua escolhida. Isso envolve assistir a filmes, séries e animações, ouvir músicas, ler e jogar, tudo no idioma de destino. Ao combinar os estudos gramaticais e interpretativos a essa imersão, pode ter certeza que o resultado vai ser muito interessante. No caso dos jogos isso é especialmente verdadeiro porque, além de tudo, envolve também o elemento interativo.

O modelo de excelência, claro, é buscar anotar o que você não compreendeu em determinada frase no game para sanar futuramente, mas é compreensível não desejar fazê-lo por estar focado demais na gameplay. Celulares podem servir para esse propósito também, tirando foto daquela determinada parte para estudo e exemplo mais tarde. Buscar outros contextos em que determinada expressão ou gíria aparece também se mostra bastante produtivo, principalmente para uma língua como o inglês, falada no mundo inteiro por pessoas de todos os estilos.

Foto: Final Fantasy XIV/Steam

E, por falar no mundo inteiro, os MMORPG (Massively Multiplayer Online Role-Playing Game, ou seja, aqueles jogos de RPG gigantes e online) também fazem sua parte nessa jornada de aprendizado. Tente entrar em servidores que não são dedicados aos brasileiros para praticar a conversação escrita. Quem sabe você faz alguns amigos e passa a conversar com eles pelo Discord? Essa prática ajuda bastante a acostumar o ouvido aos sons específicos do inglês, por exemplo, além de já te deixar preparado para eventuais necessidades em outra língua.

Como o mundo mobile está bastante em alta atualmente, outra técnica interessante é colocar o smartphone em inglês, de modo a mudar, também, o idioma dos jogos favoritos. Esse método parece básico, mas é muito mais fácil compreender e relacionar determinadas palavras quando você está acostumado a uma interface conhecida. Imagina só o seu Wild Rift ou o Free Fire de cada dia, mas em inglês? No começo pode parecer desafiador, mas, com o tempo, fica mais fácil.

Auxílio de aplicativos e jogos específicos

Outra maneira de aliar os jogos ao estudo é usando aplicativos. Às vezes, um app que você já tem no celular e usa com outra finalidade pode se transformar num grande parceiro de aprendizado. O Replika, por exemplo, funciona mais ou menos como jogo: ele permite ao usuário criar um parceiro ou parceira de inteligência artificial (cuidado, amantes de Her) e conversar com ele, de modo a discutir uma variedade quase infinita de tópicos. Isso pelo smartphone ou pelo navegador da web, o que for mais cômodo.

Praticamente qualquer aplicativo de palavras-cruzadas em outro idioma já é uma baita ajuda, dado que ele coloca seu cérebro para funcionar ao invés de só decorar os sintagmas, ainda mais se forem palavras-cruzadas naquele estilo de você ter algumas letras e precisar construir as palavras, não só posicioná-las aleatoriamente num tabuleiro de qualidade duvidosa. Aos interessados, uma busca por Scrabble (nome em inglês desse joguete específico de montar e não só posicionar) deve render bons resultados.

Steins;Gate é uma das melhores Visual Novels por aí para ajudar no treino do inglês.
Steins;Gate é uma das melhores Visual Novels por aí para ajudar no treino do inglês.
Foto: Steam

Voltando mais especificamente ao mundo dos jogos digitais, há uma categoria bastante promissora para ajudar na aquisição de outro idioma. São as Visual Novel, ou romances visuais, de origem majoritariamente japonesa. Pense neles como livros interativos em que o jogador vai, aos poucos, descobrindo pedaços da história por meio de diálogos escritos, com direito a romance, brigas e afins. É um dos melhores gêneros para aprender inglês com jogos.

Não é necessário ir tão longe também! Talvez você ainda se lembre daqueles jogos flash, de sites como ArmorGames, Newgrounds, Miniclip e afins. Em endereços como estes, você pode encontrar games mais simples que já ajudam bastante a fixar o vocabulário ou a entender como determinadas frases são construídas e em quais ocasiões são usadas.

No fim, vou conseguir aprender?

Como praticamente nada desse mundo é uma resposta certa, depende. Apostar exclusivamente em jogos quando você já é mais velho não vai te servir de muita coisa, ainda mais sem material de apoio. Fazer aulas de inglês é, muito provavelmente, o caminho mais certeiro; o que você pode fazer, caso se encontre nessa situação, é complementar seus estudos com jogos e afins, de modo a corroborar o que você aprendeu em classe com o que é real.

Foto: Depositphotos

Uso “mais velho” aqui também de modo arbitrário, afinal, a única pessoa que pode discernir a agilidade do próprio cérebro é você mesmo. De qualquer forma, é importante, também, reconhecer que, seja por falta de tempo ou outros motivos fora de nosso controle, o aprendizado não vai acontecer da noite para o dia, independente da idade daquele que se dispõe a aprender. Entender isso é a chave para evitar frustrações e decepções. Leve tudo no seu tempo!

Se você tiver um filho, por exemplo, tente passar um tempo com ele, vendo os jogos que ele joga, e, caso estejam em inglês, tente explicar algumas coisas, perguntar o que ele não entendeu e o que você pode fazer para ajudar. Caso o jovem jogue em português, sugira, por exemplo, mudar o idioma do jogo para inglês e ir aprendendo gradualmente, com a sua ajuda, se for necessário. Isso, inclusive, já ajuda a desmistificar aquela clássica máxima de que jogos são violentos e não servem para mais nada.

Resumindo: desde que você compreenda que jogos nem sempre vão fazer mil maravilhas sozinhos e os utilize como complemento, vai ficar tudo bem. Lembrando, ainda, que achamos muitas vezes que o nosso nível é superior ao que é de verdade por causa disso, mas basta pegar uma prova IELTS ou Cambridge para avaliar de fato a competência em língua inglesa.

Mais sugestões ou afins? Comente abaixo!

Fonte: Game On
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