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Estúdio gaúcho Aquiris atinge novo horizonte após aporte da dona de Fortnite

Fundada em 2007, produtora tem conquistas inéditas para uma empresa brasileira; recém-anunciado, investimento da Epic Games mostra selo de qualidade e joga luz para a indústria de desenvolvimento local

22 mai 2022 17h01
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Inspirado no clássico ‘Top Gear’, Horizon Chase colocou a Aquiris no mapa global dos videogames
Inspirado no clássico ‘Top Gear’, Horizon Chase colocou a Aquiris no mapa global dos videogames
Foto: Aquiris/Divulgação / Estadão

Perto de completar quinze anos de existência, o estúdio gaúcho Aquiris já está acostumado a grandes feitos. A produtora de Porto Alegre foi a primeira empresa nacional a ter um game como Escolha dos Editores global na loja de apps da Apple e a lançar um título em formato físico (isto é, com disco, numa caixinha) para o PlayStation 4. Também foi a pioneira do País a ter uma produção no Apple Arcade, serviço de jogos da dona do iPhone. Há um mês, a empresa somou uma nova conquista: passou a ter como investidora a Epic Games, uma das empresas de games mais relevantes da atualidade - entre suas criações, estão as sensações Fortnite, Rocket League e Fall Guys.

Avaliada em US$ 32 bilhões, a Epic é uma empresa cheia de tentáculos: ela tem uma loja de games para PC, uma plataforma de publicação para jogos independentes e é dona do site de música Bandcamp e do motor gráfico Unreal Engine - espécie de "biblioteca de funcionalidades" para criadores de jogos. Nos últimos anos, a Epic cresceu muito em importância, colocando no ar títulos que deram o tom do mercado ou comprando brigas sobre monopólios e taxas de remuneração com gigantes como a Apple. Agora, a companhia americana estará ao lado da Aquiris. "É a tempestade perfeita ter um parceiro com tantas possibilidades", afirma ao Estadão o cofundador Israel Mendes.

Os termos do acordo não foram revelados publicamente, mas a reportagem apurou que a Epic realizou um investimento secundário na Aquiris, comprando as ações de investidores-anjo e também da Companhia Riograndense de Participações (CRP). Ao todo, o negócio deve dar à americana uma cadeira no conselho e cerca de 25% do controle do estúdio gaúcho, que manterá sua autonomia criativa.

Segundo Mendes, o contrato entre as duas companhias prevê ainda um acordo para a publicação de vários jogos nos próximos anos - a primeira parceria deve ser revelada nos próximos meses. "O que dá para dizer é que vai ser um jogo com uma pegada arcade, mais divertida, e para várias idades. São características que estão no nosso DNA", diz ele.

Da publicidade para os consoles

Fundada em 2007, pelos amigos de colégio Amilton Diesel e Maurício Longoni, junto ao parceiro Israel Mendes, a Aquiris não começou exatamente fazendo jogos. Sua primeira atividade era criar projetos em 3D para arquitetura e realidade virtual - numa época em que os óculos de hoje pareciam artefatos alienígenas.

"Nossa origem foi diferente da maioria dos estúdios, que nascem a partir do sonho de fazer um jogo. Nós nascemos com a consciência de que queríamos ter uma empresa sustentável", afirma Mendes. A ligação prévia do executivo com o mundo da publicidade, pouco a pouco, fez a Aquiris perceber que poderia prestar serviços para agências e anunciantes criando jogos online. Num estilo de produção rápido, a empresa era capaz de criar peças em cerca de dois meses, que podiam ser jogadas em qualquer navegador de internet.

"Era um ritmo muito intenso para nós, mas foi uma experiência incrível: fomos pagos para aprender a fazer jogos de todos os tipos, o que nos tornou um estúdio versátil", lembra Mendes. Um desses jogos marcou época: o Super Vôlei Brasil, feito por um time de sete pessoas para a Olympikus em 2008, foi palco da estreia dos uniformes da seleção comandada por Bernardinho - e chegou até a ser pirateado e vendido em bancas de camelô. "Era um contexto diferente: na época, não havia uma oferta tão ampla de jogos gratuitos, algo que o iPhone começou a mudar", diz o executivo.

Aos poucos, as produções da empresa se tornaram mais sofisticadas, abrindo portas para parcerias com empresas como a Globo e o Cartoon Network, além do game de tiro Ballistic. Mas faltava à Aquiris um jogo com a sua própria cara. Para dar conta do esforço, a empresa negociou uma parte de suas ações com a CRP em 2014. Os recursos ajudaram o time a viabilizar Horizon Chase, um jogo de corrida que homenageia títulos do gênero das décadas de 1980 e 1990, como Top Gear, Outrun e Super Mônaco GP 2 - todos, referências de carteirinha dos sócios.

Mendes fundou a Aquiris em 2007 com amigos de escola
Mendes fundou a Aquiris em 2007 com amigos de escola
Foto: Aquiris/Divulgação / Estadão

Foi um grande esforço: de um lado, o time técnico em Porto Alegre, na época já com 70 pessoas, pelejou para criar um jogo que, ao mesmo tempo, era um tributo ao passado sem ter cheiro de naftalina. Do outro, Sandro Manfredini, diretor de negócios da Aquiris, rodava o mundo em feiras de negócios, mostrando o cartão de visitas do estúdio brasileiro e tentando provar que ao sul do Equador também era possível fazer grandes jogos.

Deu certo: logo no lançamento, em agosto de 2015, Horizon foi destaque na loja de apps da Apple, ajudando o game a se pagar em menos de 10 dias. Inicialmente pensado apenas para celular, Horizon Chase acabou também chegando aos consoles - hoje, ele está disponível para PlayStation, Xbox e Nintendo Switch. Sete anos depois de chegar às lojas, o game segue sendo atualizado, uma raridade: em 2021, por exemplo, ganhou uma expansão inspirada na carreira de Ayrton Senna.

"Cheio de referências locais, Horizon Chase é um jogo especial: ele mostra que o Brasil consegue fazer jogos em nível de produção mundial, mas ao mesmo tempo também com um sotaque próprio", afirma André Pase, professor de Comunicação Digital da PUC-RS.

Impacto no setor

Em meio à pandemia, surgiu um porém: após anos de parceria, a Aquiris precisava achar um comprador para as ações de seus investidores, que buscavam o retorno de seu aporte. A Epic, com quem a empresa já havia estreitado relações ao longo dos anos, era uma das opções do topo da lista, mas parecia um sonho distante. No entanto, o namoro acabou dando certo e as duas empresas chegaram ao acordo recém-anunciado.

"Conhecemos a Aquiris há muito tempo e sempre tivemos um ótimo relacionamento. Ficamos muito impressionados com o que eles já fizeram", diz Hector Sanchez, chefe de publicação de parcerias da Epic. "A América Latina é uma parte importante da economia global dos games e essa parceria com a Aquiris é um jeito de cimentar nossa estratégia no Brasil", afirma ainda o executivo, que diz que há possibilidades "infinitas" de integrar a Aquiris aos produtos da empresa.

Na visão de André Pase, da PUC-RS, a expertise da Aquiris também pode servir aos outros estúdios da rede da Epic. "Se uma empresa consegue prosperar e furar a bolha em um mercado tão difícil como o Brasil, ela pode trazer muito conhecimento sobre como vencer em cenários complicados", diz o especialista.

Já para Fernando Chamis, cofundador do estúdio paulistano Webcore e ex-presidente da Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Eletrônicos (Abragames), o movimento joga luz para o mercado local. "Para a indústria, esse movimento de investidores externos vai ser cada vez mais recorrente", diz ele, que acredita que falta conhecimento ao mercado local. "Os fundos de investimento daqui precisam abrir o olho para esse mercado, porque há muitas possibilidades. A saída da CRP mostra que é possível ter retorno, mesmo com o risco que os games oferecem."

Para Manfredini, a expectativa é de que a parceria ajude outros investidores a perderem "o medo de arriscar em países menos tradicionais nos games, como o Brasil". No que diz respeito à Aquiris, ele espera que a parceria amplie ainda mais os horizontes da empresa.

Ao mesmo tempo, ele reconhece as conquistas de sua empresa, hoje com 180 funcionários. "A configuração atual já é algo de sonho, tendo uma empresa que faz o que quer fazer, com suporte de um investidor estratégico, levando nossos jogos para qualquer lugar", diz o executivo, de 46 anos.

Mas é Mendes, de 44 anos e recém-pai, quem define melhor o espírito do momento: o investimento da Epic não é uma linha de chegada, mas sim mais uma etapa em sua corrida. "Somos uma empresa de maratona, e a nossa consistência nos ajudou a chegar até aqui. É uma palavra que define bem a gente, e nada muda nossa forma de enxergar o mercado", afirma. "Nossa meta é ver nossos filhos e nossos netos jogando com a Aquiris."

Estadão
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