Valor Mortis entrega boa experiência soulslike em primeira pessoa
Jogo se destaca em seu combate que mistura espadas, armas de fogo e magias, aliado com exploração no estilo parkour
Após nos surpreender positivamente com a franquia Ghostrunner, a desenvolvedora One More Level decidiu apostar em algo mais arriscado com Valor Mortis, com ele sendo um jogo soulslike com jogabilidade em primeira pessoa.
Embora isso pareça um tanto fora do comum, levando em conta que esse gênero é mais conhecido por ser jogado em terceira pessoa, a experiência vista aqui é bastante satisfatória na maior parte do tempo.
Vive la France!
Em Valor Mortis você joga como William, um soldado do exército de Napoleão Bonaparte que foi trazido de volta à vida e é guiado pelo próprio Napoleão no campo de batalha, que se tornou um palco de carnificina devastado por uma praga grotesca e misteriosa, que transformou os membros do exército e cidadãos em criaturas monstruosas. Essa mesma corrupção afetou William, lhe dando vida novamente mas, por algum motivo, mantendo sua sanidade.
A narrativa, que ocorre numa versão alternativa do século XIX, vai evoluindo à medida que você progride no game e também encontra documentos colecionáveis e miragens de eventos que já ocorreram. Também lhe são introduzidos alguns aliados após as primeiras horas de jogo, James e Louis, juntamente com um personagem misterioso chamado Lucjan, que nitidamente sabe mais do que está disposto a falar.
Além deles, em um dado momento você começa a escutar a voz de uma mulher que atende pelo nome de Picanço e ela é claramente uma oponente de Napoleão, com ambos falando na mente de William para tentar convencê-lo do que deve ou não ser feito.
Há ocasiões em que você precisa escolher o que responder a certas perguntas, mas isso pouco influencia na trama como um todo. Aliás, embora ela comece bem, acaba se perdendo um pouco depois de algumas horas, voltando a se encontrar somente perto do fim do jogo.
O destaque de Valor Mortis é a jogabilidade, provando que é possível fazer um soulslike de qualidade em primeira pessoa. Depois que você se acostuma a aparar os ataques inimigos e desviar dos golpes indefensáveis, os combates fluem de forma muito natural. Aparar os golpes enche uma barra no oponente, permitindo executar um ataque crítico poderoso quando ela fica totalmente cheia, fundamental em diversas situações. Essa barra também enche com ataques bem-sucedidos, mas de forma mais lenta do que aparando as investidas inimigas.
Defender-se também é possível, mas isso faz você perder vida, que pode ser recuperada se você atingir o inimigo rapidamente após se defender. No entanto, se tomar um golpe, perderá vida de forma definitiva, com ela podendo ser recuperada apenas com o Frasco de Ferrofluido, o qual pode ser melhorado com mais doses e potência, desde que você ache os itens necessários para isso.
Você também pode usar armas de fogo, no caso Pistola, Mosquetão e Bacamarte, para acertar pontos fracos dos oponentes. A pistola será sua companheira nessas ocasiões quase o tempo todo, enquanto que o bacamarte serve para disparar a queima roupa e o mosquetão para acertar alvos distantes.
Falando das espadas, temos o Sabre, com o qual você começa, o Florete, que foca mais em aparar ataques, e a Claymore, que causa muito dano, mas não permite aparar. Essa última espada, aliás, embora tenha poderes especiais, acaba não sendo muito prática já que você não tem como se desvencilhar dos ataques com ela, apenas defendê-los, o que custa vida e não faz sentido numa jogabilidade onde aparar ataques é tão essencial. Na prática, você pode ficar com o sabre do começo ao fim do jogo sem nunca trocar para uma das outras espadas, que conseguirá passar por todos os desafios sem maiores dificuldades.
O jogo também apresenta magias, chamadas de Transmutações, sendo a do Fogo, Stasis e Escudo. O Fogo, como o próprio nome diz, serve para incendiar os inimigos. O Stasis paralisa os oponentes, permitindo que você lhes dê um golpe crítico quando estiverem com essa condição. Já o Escudo, obtido apenas perto do fim do jogo, serve para se defender de projéteis e se proteger de locais com veneno.
Todas armas e magias podem ser aprimoradas com itens encontrados pelos muitos locais do game. William em si também sobe de nível e obtém novas habilidades com uso de Catalisadores, que todo inimigo fornece ao ser derrotado. Eles também podem ser obtidos fazendo missões secundárias, que existem aos montes pelo jogo. Algumas são bem elaboradas, mas outras nem tanto. Além disso, quanto maior o nível de William, maior a quantidade de itens do tipo Âmbar ele pode equipar, concedendo a ele melhorias passivas significativas.
Na exploração, há momentos em que você precisa fazer uso de sua pistola ou magias específicas para poder seguir adiante ou achar passagens escondidas, seja explodindo uma pústula gigante, queimando uma barreira e assim por diante. No começo não há muito o que se explorar, mas isso vai mudando gradativamente à medida que você obtém mais formas de navegação, dando um ar de parkour em toda a experiência envolvendo a exploração, se pendurando em galhos, usando plataformas retráteis, andando em paredes específicas e usando uma corda espectral azul que sai de dentro do seu braço esquerdo para chegar em locais distantes.
As áreas de Valor Mortis são divididas em capítulos, com você podendo usar as Lamparinas para descansar, além de repor seus itens e munição. Elas agem como as fogueiras de Dark Souls, inclusive revivendo todos os inimigos derrotados. Depois que você chega na igreja, que é a sua base de operações, por assim dizer, lhe é concedida a possibilidade de usar as Lamparinas para realizar viagens rápidas, o que ajuda muito para aqueles que quiserem explorar todos os locais do jogo por completo.
Há alguns momentos, é verdade, em que a câmera em primeira pessoa atrapalha um pouco nos combates e navegação, mas na maior parte do tempo isso não acontece. Na verdade, o que me incomodou mais foi a pouca variedade de inimigos, armas e magias, além da baixa quantidade de chefes. Também senti falta do New Game+, mas a desenvolvedora ao menos já confirmou que implementará isso ainda em 2026 com uma atualização gratuita.
Falando mais dos chefes, há alguns bem legais, como o General Lothaire, que você enfrenta logo no começo do jogo e ganha uma revanche mais tarde contra ele após ser derrotado na primeira luta. Gostei também de um que parece uma versão monstruosa da esfinge e também de outro que tem a forma de um moinho de vento (sim), que me fez lembrar da história de Dom Quixote. O problema é que a maioria dos chefes não são assim. O chefão final, em especial, achei decepcionante e fácil demais.
Graficamente o jogo entrega aquilo que se espera de um título feito na Unreal Engine 5, sem mais, nem menos. Chama a atenção a possibilidade de desmembrar quase todos os inimigos com os quais você se depara, cortando a cabeça, braços, pernas e até partindo-os ao meio.
Eu joguei Valor Mortis um pouco após o lançamento, quando já haviam sido disponibilizadas algumas atualizações para ele, então acabei não me deparando com alguns problemas técnicos relatados por outros jogadores e análises publicadas no momento em que o jogo saiu. No meu caso, vi poucos bugs e não tive nenhum problema de desempenho. Além disso, não notei engasgadas, algo positivo em um jogo feito no motor gráfico da Epic Games, que costuma ter esse problema em muitas situações.
Considerações
Valor Mortis prova que é possível fazer um soulslike de qualidade em primeira pessoa, com combates e exploração satisfatórios que te seguram no game até os créditos começarem a rolar, compensando a história que acaba se perdendo após as primeiras horas e também a pouca variedade de armas, magias e inimigos. No final das contas, trata-se de uma experiência gratificante, com mais acertos do que erros.
É possível jogar Valor Mortis em versões para PC, PlayStation 5 e Xbox Series.
Esta análise foi feita no PC (Steam), com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela Lyrical Games.
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