The Adventures of Elliot resgata o espírito dos RPGs de ação clássicos
Novo projeto da Square Enix combina visual HD-2D, ação em tempo real e uma jornada que parece saída da era de ouro dos RPGs japoneses
Desde que Octopath Traveler inaugurou o conceito de HD-2D em 2018, a Square Enix encontrou a galinha dos ovos de ouro da nostalgia. A mistura de pixel art clássica com profundidade tridimensional e iluminação moderna virou sinônimo de RPGs de turno estratégicos e cadenciados. Mas todo porto seguro corre o risco de virar comodismo. É justamente quebrando essa expectativa que a Team Asano e a Claytechworks entregam The Adventures of Elliot: The Millennium Tales, uma jornada que troca a calmaria dos menus pela correria da ação em tempo real.
O título, que desembarca esta semana nos consoles e PC, deixa de lado as heranças de Bravely Default e Octopath Traveler para mirar em outra mina de ouro dos anos 90: os RPGs de ação isométricos. O resultado é uma experiência que evoca imediatamente o espírito de clássicos como The Legend of Zelda: A Link to the Past, a franquia Mana, e relíquias que o jogador veterano vai lembrar na hora, como Landstalker (Mega Drive) e Alundra (PlayStation).
Confira a seguir aqui no Terra Game On o que esperar dessa nova aposta da Square Enix.
O charme dos RPGs de antigamente
A trama de The Adventures of Elliot usa um artifício clássico, mas muito bem executado: a viagem no tempo. No papel do jovem aventureiro Elliot, exploramos o continente medieval de Philabieldia em quatro eras distintas ao longo de mil anos para salvar a Princesa Heuria de uma maldição.
Mudar o passado altera o presente, e é aí que o level design do jogo brilha. Uma estrutura destruída em determinada época pode estar intacta em outra; uma passagem bloqueada no presente talvez possa ser aberta séculos antes; um item necessário para progredir na aventura só pode ser acessado em determinada era. É um conceito antigo, mas utilizado aqui de maneira inteligente para tornar a exploração constantemente interessante.
O protagonista não é um herói lendário destinado a salvar o mundo desde o nascimento. Pelo menos à primeira vista, ele parece ser apenas mais um aventureiro que acaba envolvido em acontecimentos muito maiores do que imaginava. É uma premissa simples, mas que funciona justamente por deixar espaço para a construção gradual da narrativa.
Ao lado de Elliot está a fada Faie — uma companheira de viagem tagarela que ajuda ativamente nos combates e na exploração (e sim, felizmente há uma opção para desligar o falatório dela se você perder a paciência).
O HD-2D em sua melhor forma
Se Octopath Traveler apresentou o potencial do HD-2D, The Adventures of Elliot mostra o quanto essa tecnologia evoluiu desde então.
Os cenários exibem um nível impressionante de riqueza visual, combinando pixel art detalhada com iluminação volumétrica, efeitos climáticos e profundidade de campo. O resultado lembra um diorama vivo, onde cada floresta, ruína ou cidade parece cuidadosamente construída para despertar curiosidade.
O mais interessante é que os gráficos nunca parecem existir apenas para impressionar. A direção de arte trabalha em conjunto com a atmosfera da aventura, reforçando constantemente aquele sentimento de estar explorando um mundo antigo repleto de histórias esquecidas - existe um prazer genuíno em explorar esse universo, encontrar caminhos alternativos e descobrir segredos escondidos.
Menos menus, mais aventura
O maior diferencial em relação aos trabalhos anteriores da Team Asano está no sistema de combate. Enquanto Bravely Default e Octopath Traveler ficaram conhecidos por suas batalhas estratégicas por turnos, Elliot aposta em ação direta e imediata.
O jogador controla cada movimento do protagonista, desviando de ataques e alternando armas em tempo real durante os confrontos. A mudança torna a experiência muito mais dinâmica e acessível. Não há dezenas de sistemas complexos para administrar ou longos períodos navegando por menus e tabelas. O foco está na ação e na experimentação.
O arsenal disponível contribui bastante para isso. Elliot pode utilizar sete diferentes categorias de armas e alternar entre duas delas instantaneamente durante os combates. Essa liberdade cria situações interessantes e incentiva o jogador a desenvolver seu próprio estilo de jogo.
Além disso, o sistema de Magicite amplia ainda mais essas possibilidades. Ao equipar cristais especiais, as armas recebem novas propriedades e comportamentos, permitindo criar combinações bastante criativas sem tornar a jogabilidade excessivamente complicada.
Toda essa dinâmica pode ser compartilhada no modo cooperativo, onde um segundo jogador assume o controle de Faie e suas cinco magias de suporte. Jogando sozinho, o jogador precisa controlar a fada com o analógico direito, um exercício de coordenação motora que cobra seu preço nas lutas mais caóticas contra chefes colossais.
A apresentação sonora é outro ponto que merece destaque. A belíssima trilha sonora orquestrada ajuda a transmitir o senso de descoberta e aventura que permeia toda a jornada, remetendo aos grandes RPGs clássicos da Square Enix sem abrir mão de uma identidade própria. Somando-se a isso, as dublagens em inglês entregam performances bastante convincentes, dando vida aos personagens principais e fortalecendo o envolvimento do jogador com a narrativa. É um pacote técnico que demonstra o alto valor de produção investido na jornada.
Mas nem tudo são flores na Philabieldia da Square Enix. O ponto mais crítico do lançamento é a completa ausência de localização para o português brasileiro. Com menus, textos e legendas exclusivamente em inglês, um jogo que depende tanto de viagens temporais e diálogos pode se tornar inacessível para boa parte do nosso público. É um desfalque pesado para uma campanha principal que dura cerca de 30 horas — e que passa facilmente das 50 horas se você decidir caçar os segredos de todas as eras.
Por fim, vale destacar que os jogadores já podem experimentar o game por meio de uma demo gratuita disponível em todas as plataformas. O conteúdo testado não será perdido, já que o progresso poderá ser transferido integralmente para a versão completa do RPG.
Considerações
The Adventures of Elliot: The Millennium Tales cumpre o que promete com louvor. Ao sair da zona de conforto dos RPGs de turnos e abraçar a simplicidade direta da ação noventista, a Square Enix entrega um jogo focado em exploração pura e respeito às suas influências, mas com identidade própria.
Para quem sente falta daquela sensação de partir rumo ao desconhecido em um mundo repleto de mistérios, mas com aquela pegada nostálgica dos jogos clássicos da geração 16 bits, as aventuras de Elliot e da sua companheira fada Faie são simplesmente imperdíveis.
The Adventures of Elliot: The Millennium Tales será lançado em 18 de junho para PC, PlayStation 5, Switch 2 e Xbox Series.
Esta análise foi feita no PlayStation 5, com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela Square Enix.
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