Juiz brasileiro prevê "loucura" com nova regra de tempo da ATP
A nova regra implementada pela Associação dos Tenistas Profissionais (ATP) com o intuito de diminuir a duração dos jogos pode criar uma "loucura" em 2013. A opinião é do brasileiro Carlos Bernardes, integrante do gold badge, grupo de elite dos árbitros de cadeira da entidade.
"Regra do vôlei" divide tenistas e promete confusão em 2013
Em 12 de setembro de 2012, a ATP anunciou que a partir de 2013 os tenistas que demorarem mais de 25 s para sacar serão punidos a princípio com uma advertência, como já ocorre. Em caso de reincidência, a segunda punição passará a ser uma falta (perda do primeiro serviço) e só então ocorrerá a perda automática do ponto - atualmente a segunda penalização já acarreta a perda do ponto, punição considerada muito drástica e que muitas vezes inibe o juiz de cadeira de agir. Na hora de devolver o serviço, o regulamento para quem ultrapassar o limite de tempo dos 25 s segue o mesmo da última temporada: primeiro uma advertência e depois a perda de um ponto.
Segundo Bernardes, que concedeu entrevista ao Terra durante a turnê de exibições do suíço Roger Federer por São Paulo, a recomendação da ATP é implementar uma política de "tolerância zero". Um jogador, assim, seria punido se demorasse 26 s ou mais entre a finalização de um ponto e o início do seguinte, sem importar se a torcida está fazendo muito barulho ou se o ponto anterior demorou "dez segundos ou dez minutos".
"Também ninguém poderá dizer que o pegador de bola demorou para trazer a toalha", afirma o árbitro, dizendo que essa função não é obrigatoriamente do boleiro. O juiz prevê problemas para os tenistas respeitarem o tempo porque a nova regra "altera a rotina" dos atletas.
De acordo com o brasileiro, a adaptação dos jogadores será ainda mais dificultada porque os primeiros torneios disputados sob o novo regulamento são marcados pelo "forte calor": são eles os ATPs 250 de Brisbane, Doha, Chennai, Sydney e Auckland (organizados entre 31 de dezembro de 2012 e 12 de janeiro de 2013).
O árbitro ainda projeta uma "loucura" devido à diferença nas regras. A ATP só implementará a novidade nos torneios organizados por ela, os ATPs 250 e 500, os Masters 1000 e os challengers. Nos Grand Slams e na Copa Davis, regidos pela Federação Internacional de Tênis (ITF), o regulamento continua o de 2012: são 20 s de limite entre um ponto e outro, mas existe o "bom senso", nas palavras de Bernardes, o que acarreta as poucas punições vistas atualmente. A nova regra também não será adotada pela Associação de Tênis Feminino (WTA), que coordena a modalidade entre as mulheres.
Número 19 do ranking mundial de duplas, Bruno Soares classifica a alteração como "muito interessante", acreditando que isso vá "deixar o jogo mais dinâmico" e "muito bacana" para a televisão. "O pessoal vai ter a oportunidade de assistir a mais tênis e menos tempo parado. Acho que as partidas estão muito longas em função do tempo que os jogadores demoram para começar cada ponto. Cobrando essa regra, isso vai exigir que os jogadores assumam riscos maiores e tentem jogar mais rapidamente", afirma ele, que não vê muitas dificuldades de adaptação para os duplistas: "meu tempo raramente passa de 25 s".
Já Thomaz Bellucci, número 1 do Brasil em simples e número 33 do mundo, tem dúvidas quanto ao novo sistema. "Às vezes tem pontos muito longos, às vezes tem muitas trocas de bola, jogamos cinco sets, quatro ou cinco horas, e com pouco descanso fica muito puxado. Não sei se estou muito de acordo com isso. Pode prejudicar muito o jogador por causa de lesões e não dar muito retorno", opina.
O "retorno" esperado pela ATP é diminuir o tempo das partidas. Conforme ressalta Bernardes, uma pesquisa mostrou que a final do Aberto da Austrália de 2012 teve apenas cerca de "uma hora e meia de jogo efetivo", com a bola em quadra, sendo que a duração total da partida foi de cinco horas e 53 minutos. Na ocasião, o sérvio Novak Djokovic venceu o espanhol Rafael Nadal por 3 sets a 2, com parciais de 5/7, 6/4, 6/2, 6/7 (5-7) e 7/5, na decisão mais longa da história dos Grand Slams.
Quando anunciou a novidade, o australiano Brad Drewett, presidente da ATP, justificou-a afirmando que "houve muita discussão sobre a quantidade de tempo tomada entre os pontos. Acreditamos que essa modificação dará aos árbitros uma ferramenta útil para aplicar a regra atual de violação de tempo".
Também para aumentar a fluidez do esporte, a entidade anunciou que testará durante os três primeiros meses de 2013 a regra de "no let" nos torneios challengers, de segundo escalão no circuito. Durante o experimento, não haverá repetição do serviço quando a bola tocar a fita e cair na linha do T correspondente, na quadra do adversário.