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A taça do mundo é nossa

8 nov 2018
19h20
atualizado às 19h50
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Ele tinha o maior cuidado com aquela taça. Sempre que ia passar o pano para tirar a poeira, vinha um filme inesquecível na cabeça. Gol de Guerrero, festa do bando de loucos no outro lado do mundo e a muralha Cássio levantando com o orgulho o símbolo do bicampeonato. O primeiro com a Libertadores a tiracolo, só para acabar de vez com a zoeira dos rivais.

A rotina incluía uma foto tirada todo santo dia, ao final do expediente, desde que conseguiu o emprego dos sonhos, em janeiro de 2013, na sala de troféus do Timão. Vicente (que ganhou o nome em homenagem ao folclórico presidente Vicente Matheus) fazia selfies, posava do lado esquerdo da taça, do lado direito, sentava, ficava em pé. E sempre aproveitava a presença de algum jogador ou ex-jogador por lá para saírem juntos ao lado do troféu.

O goleiro Cássio e o jogador peruano Paolo Guerrero, do Corinthians, participam do evento Jogos Eternos, em homenagem pela conquista do Campeonato Mundial de Clubes da FIFA 2012, quando o Timão venceu o Chelsea, da Inglaterra, por 1 a 0, no Estádio Internacional de Yokohama no Japão.
O goleiro Cássio e o jogador peruano Paolo Guerrero, do Corinthians, participam do evento Jogos Eternos, em homenagem pela conquista do Campeonato Mundial de Clubes da FIFA 2012, quando o Timão venceu o Chelsea, da Inglaterra, por 1 a 0, no Estádio Internacional de Yokohama no Japão.
Foto: Fernando Dantas / Gazeta Press

Só que a fase corintiana não estava ajudando e os adversário não perdoavam. Genaro, o palmeirense mais chato do bairro, estava insuportável e já estava na contagem regressiva para o deca brasileiro. Logo que viu Vicente adentrar no seu bar, não perdeu a chance de provocar: “Aqui não tem fiado pra corintiano não. Vocês não pagam marmita, boleto de faculdade. Só deixo você tomar uma, se trouxer a taça penhorada”, disse, soltando uma gargalhada.

“Genaro, pra tirarem a taça de lá vão ter que passar por cima do meu cadáver. Nosso Mundial não é pinga não e a gente não ganha título por fax, igual a vocês. Olha só quem passou por lá hoje, o Cássio. Mas vou seguir seu conselho e procurar um lugar melhor para frequentar. Até mais!”

No dia seguinte, Vicente estranhou quando uma viatura policial deixou a sede corintiana em alta velocidade, mas achou que podia ser por causa de alguma manifestação da torcida já que o time, atual campeão brasileiro, brigava apenas para não cair.

Doce ilusão. Ao entrar na sala de troféus, notou que o local onde a taça ficava guardada estava vazio. Perguntou ao companheiro de trabalho o que havia acontecido. “Levaram a nossa taça, levaram a nossa taça, Vicente. Foi uma vergonha. Torcedores chorando, imprensa fotografando, filmando, e o Andrés insistindo em dizer que tudo não passava de uma ação midiática. Eu sei lá o que isso quer dizer.”

Vicente entrou em desespero. Aquela taça significava tudo pra ele. O salário era baixo, mas dava pra viver sem grandes luxos, tomar umas com os amigos e contar vantagem, afinal já eram mais de mil fotos ao lado dela, a taça do mundo dos corintianos. Nem os craques que estiveram em campo naquela decisão tinham esse privilégio: ver a taça dia sim e dia não também.

E num gesto de loucura e de paixão, imprimiu as milhares de fotos e saiu espalhando pelo clube, gritando a plenos pulmões: “A taça do mundo é nossa, a taça do mundo é nossa.”

 

Paradinha Esportiva
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