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Para atletas profissionais, fama e dor andam juntas

11 fev 2009 - 16h21
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Muito antes de se tornar comentarista da ESPN e ator em uma novela, Mark Schlereth era visto como um milagre da medicina moderna. De alguma maneira, ele havia conseguido jogar 12 temporadas na NFL, durante as quais sofreu 29 cirurgias, 15 das quais no joelho esquerdo. E quantas dessas lesões ele escondeu do time?

"Esconder? Não, não quero dizer que escondi", disse Schlereth. "Mas eu ocasionalmente as ignorava, ou não reportava o quanto algo doía. É parte da profissão".

Parte da vida de um atleta profissional, ele quer dizer - aquelas situações indefinidas em que o jogador pode ser visto como alguém que prefere jogar apesar da dor ou como uma pessoa teimosa que insiste em jogar quando deveria estar repousando.

"Saber como lidar com as dores é parte do nosso trabalho", diz o técnico Dan O'Dowd, do Colorado Rockies, um time de beisebol cujos jogadores estão iniciando os treinamentos para a temporada anual esta semana.

"Quando um jogador disputa 162 partidas anuais e mais o treinamento pré-temporada, é inevitável que se sinta dolorido. Um jogador precisa aprender a fazer esse cálculo, a descobrir que medida de dor ele aguenta sem parar de jogar. Porque, em última análise, ninguém conhece seu corpo melhor do que ele".

No ano passado, O'Dowd acompanhou jogadores como Jeff Francis, Franklin Morales e Todd Helton em sua batalha com a dor. Helton por fim teve de fazer uma cirurgia nas costas, Francis foi afastado para se recuperar e Morales terminou transferido da equipe para um time de segunda divisão, já que o Rockies não estava informado sobre sua lesão nas costas.Francis, por exemplo, tentou continuar arremessando apesar de sofrer de tendinite no ombro esquerdo, porque não queria deixar seus colegas de time descobertos. Ele continuou jogando, apesar dos péssimos resultados, até que terminou afastado por decisão médica.

"Isso certamente influencia", disse Francis. "Se você está ajudando o time, quer estar lá para ele. Mas se está lesionado e jogando mal, e não ajuda de fato o time... é uma distinção difícil de fazer".

Um corpo dolorido é incômodo o bastante, mas enfrentar a dor de uma lesão sem parar de jogar é outra coisa, e a história oferece muitos exemplos.

Sandy Koufax, que continuou jogando beisebol apesar da tendinite de cotovelo que pôs fim à sua carreira. A meia ensanguentada de Curt Schilling. Willis Reed fazendo duas enterradas em um jogo decisivo de finais contra o Lakers, na NBA, apesar de estar mancando, com um ligamento de joelho rompido.

Se os superastros costumam jogar machucados, os jogadores comuns encaram batalha no mínimo tão árdua. E em momentos decisivos dos torneios, a tolerância à dor ganha proporções ainda maiores.

"Alguém devia fazer uma reportagem sobre as injeções de cortisona que os jogadores de futebol americano tomam antes de um Super Bowl", diz Bill Hanzlik, ex-jogador e técnico de basquete do Denver Nuggets, que enfrentou problemas físicos no final de sua carreira.

Ben Roethlisberger, o armador do Pittsburgh Steelers, revelou esta semana, por exemplo, que jogou o Super Bowl deste ano com duas costelas quebradas.

Os jogadores tendem a jogar mesmo machucados e deixar as questões para mais tarde, como Roethlisberger fez. Isso é ainda mais comum em esportes como o hóquei sobre o gelo. Ian Laperriere, do Colorado Avalanche, que jogou os playoffs do ano passado com uma fratura no pé, diz que "se você não consegue jogar machucado, não tem futuro na liga. Os times logo percebem".

E é esse exatamente o ponto: talento pode bastar para levar um jogador ao mundo do esporte profissional de elite, mas ele precisa de dureza para permanecer lá.

Em esportes como o futebol americano e o hóquei profissional, os times e jogadores não gostam de revelar as lesões que enfrentam. E o mesmo se aplica ao beisebol, em menor escala. Vejam o caso de Chase Utley, do Philadelphia Phillies, que negou que estivesse lesionado no final da temporada passada mas depois dela passou por uma cirurgia.

O esforço das equipes para esconder ou banalizar lesões pode se tornar piada. Bill Belichick, técnico do New England Patriots, da NFL, é famoso por desconsiderar informações sobre lesões.

John Elway, antigo armador do Denver Broncos, certa vez sofreu uma fratura de costela, mas a equipe não o classificou como lesionado. Já na NHL, as coisas são extremamente imprecisas, com classificações como "lesão de torso" ou "lesão de pernas".

Quando surgem lesões, logo entram em jogo os interesses do atleta e do time. O dinheiro não pode ser ignorado. Um jogador com contrato de longo prazo e salário garantido pode reagir a uma lesão de forma diferente do que reagiria um estreante. E se o contrato do jogador estiver por acabar, não se surpreenda ao vê-lo em campo ou quadra com qualquer que seja a lesão que sofrer.

O resumo da história? Fica tudo bem para o jogador caso ele tenha um contrato milionário com o New York Yankees ou esteja no começo de um contrato de seis anos com salário garantido. Mas para aqueles que ainda não ganharam muito dinheiro ou não tem o futuro garantido, é necessário encontrar um modo de jogar.

"Há uma coisa que todo mundo sabe sobre a NFL", disse Schlereth. "Se você não puder entrar em campo, eles sempre encontrarão alguém que possa".

The New York Times
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