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Cissé supera tragédia familiar e pede mais técnicos negros

Senegalês é o único técnico negro na Copa do Mundo da Rússia, e ele sonha com mais oportunidades para treinadores africanos no futebol

20 jun 2018
10h37
atualizado às 11h20
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Dentre os 32 comandantes desta Copa do Mundo de 2018, o senegalês Aliou Cissé foi quem mais chamou atenção nesta primeira rodada do Mundial. Dreads, gestos que já viraram memes e uma história de superação que o coloca num importante papel de representatividade em um meio que ainda possui uma enorme soberania branca.

De todas as 32 seleções desta Copa, somente Senegal é comandando por um negro. O ex-capitão da seleção senegalesa, que fez história como jogador na Coreia do Sul e no Japão, em 2002, também possui o menor salário dentre os técnicos deste mundial. Segundo publicação do jornal inglês The Guardian, o técnico de Senegal ganha 175 mil libras por ano, o que daria cerca de R$ 900 mil, menos que qualquer técnico da Série A do Brasileirão.

Em nível de comparação, o técnico Tite, da Seleção Brasileira, terceiro maior salário da Copa, recebe 16 vezes mais que o comandante da seleção de Sadio Mané.

Aliou Cissé perdeu 11 familiares em um naufrágio na África em 2002 (Foto: AFP)
Aliou Cissé perdeu 11 familiares em um naufrágio na África em 2002 (Foto: AFP)
Foto: Lance!


Cissé defendeu Senegal até 2005 dentro de campo e após ser auxiliar técnico em 2013, comandou o Sub-23 de Senegal por dois anos, até receber o convite para comandar a seleção principal do seu país.

Aos 42 anos, o técnico mais jovem da Copa entende a dificuldade dos países africanos em bater de frente com as potências europeias e sul-americanas, mas acredita que o primeiro passo para o fortalecimento do futebol no continente, é a consolidação dos jovens técnicos africanos.

"Estou certo de que um dia um país africano vencerá a Copa do Mundo. Há cerca de 25 anos atrás, os países africanos vinham regularmente para fazer parte da Copa do Mundo. Eu acho que as coisas se desenvolveram, mas é mais complicado em nosso continente - temos realidades que não são evidentes em outros continentes. Confiamos no nosso futebol, não temos complexos, temos grandes jogadores, agora precisamos de treinadores africanos para o nosso futebol ir em frente", afirmou o técnico, em entrevista coletiva na Rússia.

"Sou o único treinador negro neste torneio. É uma realidade dolorosa que me incomoda. Acredito que o futebol é universal e que a cor da pele tem pouca importância no jogo", acrescentou Cissé.

Tanto no futebol brasileiro quanto no Mundial é raro ver técnicos negros nos bancos de reservas. Assim como em diversos outros setores da nossa sociedade, não há espaço para a consolidação de negros em cargos que modificam e confrontam o padrão.

Até as outras três seleções africanas na Copa (Nigéria, Marrocos e Egito) são comandadas por técnicos nascidos na Alemanha, França e Argentina, respectivamente.

Em entrevista aos jornalistas antes do confronto de estreia diante da Polônia, Cissé fez questão de lembrar do amigo Florent Ibenge, técnico negro que não conseguiu classificar Congo para a Copa, mas que deu o título da Copa Africana de Nações à República em 2016.

"Além de sermos bons jogadores, somos muito bons em nossas táticas e temos o direito de fazer parte dos principais jogos internacionais. Eu represento uma nova geração que gostaria de ter o seu lugar no futebol africano e mundial", finalizou o técnico.

Cissé perdeu 11 familiares na tragédia da balsa Le Joola, naquele que foi um dos maiores desastres navais da história. A embarcação, superlotada, afundou ao longo da rota Ziguinchor, em Casamance, rumo à capital senegalesa, Dacar. Pelo menos 1.893 africanos morreram em setembro de 2002, dois meses após a campanha histórica de Senegal na Copa.

O técnico transformou a tristeza em força e após o desastre, organizou um jogo de caridade entre Senegal e Nigéria em homenagem as vítimas do naufrágio. Cissé ainda doou cinco mil libras para ajudar as famílias mais prejudicadas com a tragédia.

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