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'A luta pela eficiência é fundamental para clubes se reerguerem', diz economista ao LANCE!

Consultor de gestão e finanças do esporte, Cesar Grafietti analisa cenário do futebol nacional e aponta caminhos para gestores driblarem o amadorismo

9 jul 2020
07h41
atualizado às 09h41
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Clube-empresa e fair-play financeiro entraram em voga na CBF(Foto: Lucas Figueiredo/CBF)
Clube-empresa e fair-play financeiro entraram em voga na CBF(Foto: Lucas Figueiredo/CBF)
Foto: Lance!

A mudança de mentalidade dos dirigentes é essencial para que alguns clubes voltem a se reafirmar no futebol brasileiro. O consultor de gestão e finanças do esporte Cesar Grafietti traça um panorama preocupante sobre agremiações que atualmente têm dificuldades para fechar suas contas e estão parados no tempo em suas gestões.

- Alguns clubes não vão acabar, mas vão virar anões esportivos. Enquanto os demais clubes se fortalecem e pegam uma distância tão grande, outros jamais voltarão a competir com a mesma condição se não se reorganizarem - afirmou.

Na segunda parte de sua entrevista ao LANCE!, o economista avalia como os clubes podem se livrar de gestões ineficientes, opina sobre clube-empresa e abre o leque de opções cruciais para a mudança de panorama das equipes.

Foto: Lance!

LANCE!: Atualmente, o futebol brasileiro traz uma série de problemas de gestões ineficientes, com clubes marcados por dívidas financeiras. De que maneira os dirigentes podem sanar estas dívidas e amenizar esta situação?

Cesar Grafietti: Um ponto interessante é que muitos clubes se tornaram competitivos justamente por isso. O Cruzeiro, por exemplo, chegou a ter R$ 300 milhões de receitas mas gastava como um clube que rendia R$ 450 milhões e era vitorioso. A conta veio depois. De qualquer forma, hoje há alavancas que ajudam a reestruturar as equipes. Porém, há clubes como Botafogo e Cruzeiro que, caso não se reestruturem, deixarão de ser competitivos. Isto deve servir de exemplo para os demais. O Botafogo luta a duras penas para se manter na elite, enquanto o Cruzeiro nem isso conseguiu. Ouvi muito a expressão "cruzeirar", que virou sinônimo de "se você continuar fazendo isto, olha o seu fim". É um sinal de alerta, uma referência. Passará a existir também o fair play financeiro, operação para gerar mais transparência e tentar equilibrar o mercado. Com uma regulação, a indústria se fortalece e faz com que os dirigentes sejam estimulados a deixar suas contas em ordem, com cada clube gastando o quanto tem condições.

L!: Algumas equipes se manifestaram a favor de se tornarem clubes-empresas, assim que o projeto for aprovado no Senado (o projeto do deputado federal Pedro Paulo teve aval na Câmara dos Deputados). Como acredita que esta mudança pode causar impacto em campo?

Em alguns casos a mudança para empresa pode servir como uma alavanca para o crescimento, ao dar margem para a entrada de investimentos. Isto é interessante para clubes que são médios em receitas crescerem. Enquanto isto, outras associações estão recorrendo à empresa como única alternativa de sobrevivência. Há risco de não terem dinheiro para sobreviver sequer em 2021.


L!: A adesão ao clube-empresa pode abrir caminho para clubes voltarem a ter condições de competir com quem tem maiores condições financeiras?

O primeiro passo é que estes clubes entendam que não se aproximarão da mesma capacidade de competição dos maiores se não se reformularem. E mesmo com uma reformulação, será quase impossível um clube de faturamento de R$ 300 milhões competir com um que fatura hoje R$ 1 bilhão. O nível de gastos é diferente.

L!: De que maneira a boa gestão pode fazer um clube evoluir?

Montando uma base eficiente, sendo certeiro nas contratações, buscando alternativas, como conquistas de copas... A Copa do Brasil, por exemplo, é supervalorizada! Caso um clube não consiga competir pelo Brasileiro com rivais de maior investimento, ele vai buscar uma vaga na Libertadores, conquistar a Copa do Brasil, a Sul-Americana também. Isto aumenta a receita e paulatinamente faz com que a equipe se aproxime dos mais rentáveis. A reestruturação dá frutos. A Atalanta é um bom exemplo. É um clube pequeno, numa cidade pequena, que está nas quartas de final da Liga dos Campeões, consegue fazer muito dinheiro com venda de atletas, tem uma estrutura bem montada... Os dirigentes brasileiros têm de olhar com atenção para este clube.

L!: Neste contexto, o analista de desempenho se torna fundamental para os clubes brasileiros?

Acredito que sim. Os clubes têm de trabalhar com eficiência, gastando menos e lutando para obter o melhor resultado. O problema é que muitos gestores esbarram no amadorismo, na dependência constante de outras pessoas. Muitos recorrem a um atleta veterano que não tem vaga em outro time. Aí o contratam com cada clube pagando salário e ele atrasando sua parte. Ou ligam para um empresário dizendo "me dá um zagueiro, qualquer zagueiro". Esse amadorismo leva a inúmeras contratações todo ano. No entanto, não são reforços eficientes, que funcionam em campo. São apenas troca de peças. Por isto, cada vez mais se tornam fundamentais a formação de elenco e da base.


L!: Qual é o caminho para as categorias de base?

O futebol brasileiro é atualmente vendedor, não dá para fugir disto. Mas é preciso formar o atleta de acordo com o parâmetro que o futebol europeu valide. Eles precisam terminar a formação na Europa. Caso chegue com 22 anos ao exterior, terá um monte de defeitos e erros. Por isto, muitos vão com 16, 17 anos, se desenvolvem e com 20 anos está pronto para jogo. Este investimento de formação de elenco será importante.

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Lance!
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