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Arthur Nory convive com ódio nas redes sociais na Olimpíada

Ginasta volta a ser hostilizado após 5 anos do caso em que fez injúrias raciais contra o colega, pede desculpas de novo, mas não é perdoado

22 jul 2021 03h02
| atualizado às 03h14
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O ginasta Arthur Nory vive momentos opostos e angustiantes antes da estreia nos Jogos Olímpicos de Tóquio. O atleta do Esporte Clube Pinheiros voltou a ser atacado nas redes sociais por causa do vazamento de um vídeo em que ele e outros ginastas cometem injúrias raciais contra o colega Angelo Assumpção em 2015. Ele está em Tóquio. Aos 27 anos, vive um novo patamar e inédito na carreira. Dono da medalha de bronze no solo nos Jogos do Rio-2016 e campeão mundial na barra fixa 2019, Nory é um dos ginastas a serem batidos na Olimpíada do Japão.

Arthur Nory, mesmo pedindo desculpas, segue sendo hostilizado nesta Olimpíada (Divulgação/CBG)
Arthur Nory, mesmo pedindo desculpas, segue sendo hostilizado nesta Olimpíada (Divulgação/CBG)
Foto: LANCE!

Duas cenas recentes ilustram o amor e o ódio que cercam a preparação final do atleta - sua estreia será no dia 24, às 2h30 (de Brasília). A primeira delas foi uma discussão nas redes sociais com a cantora Valeska Popozuda. Nesta terça-feira, dia 20, o ginasta reclamou do "ódio" no Twitter. "É normal tanto xingamento, ódio e desejar o mal aqui no Twitter?", desabafou. Ela rebateu. "Não é. Mas quando a gente erra, é melhor assumir o erro e pedir desculpas. Porque aqui no Twitter ninguém passa pano mais não", escreveu a cantora.

Arthur deu sua réplica. "Eu errei e eu assumi. Paguei por ele e, até hoje, pago por isso! Nunca escondi meu erro e sempre busquei conhecimento para me tornar uma pessoa melhor. Eu não sou o mesmo de cinco anos atrás", disse se referindo à data do problema com Ângelo. Logo depois da conversa com a cantora, a conta do ginasta saiu do ar. A assessoria de imprensa de Nory informou que ela passou por momentos de instabilidade, mas que voltou ao ar normalmente.

Vale relembrar o episódio que é o pano de fundo do bate-boca. Em 2015, Arthur postou um vídeo nas redes sociais em que ele fazia comentários racistas contra Assumpção, o único negro na seleção brasileira de ginástica na época. Fellipe Arakawa e Henrique Flores também estavam presentes. Com a repercussão negativa, Nory teve sua conta no Snapchat suspensa. A Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) afastou os atletas, que admitiram o erro e gravaram um vídeo com um pedido de perdão ao lado de Ângelo Assunção.

Em setembro de 2020, cinco anos depois, Nory revelou um longo processo de desconstrução, onde conta ter estudado sobre racismo estrutural e racismo recreativo. Não queria mais cometer o mesmo erro. "Entendo que cometi um erro, um erro inaceitável, e fui atrás para entender o que é o racismo, o que é um racismo estrutural, o que é o racismo recreativo que é mascarado em piada", diz.

Após a discussão, vários internautas afirmaram que pretendem torcer contra o ginasta, uma das grandes esperanças de medalha do Brasil, por causa do episódio de injúria racial.

Arthur Nory é bastante ativo nas redes sociais. Com 1,2 milhão de seguidores no Instagram, ele foi o atleta mais "influente" do Time Brasil nos Jogos Pan-Americanos de 2019, em Lima, como o Estadão mostrou. Em Tóquio, ele já retomou o hábito com publicações com os companheiros de ginástica e também com representantes de outras modalidades, como Ygor Coelho, do badminton.

Admiração

A segunda cena que ajuda a entender o momento atual de Arthur Nory, diametralmente oposta aos ataques nas redes sociais, mostra como o ginasta evoluiu como atleta. Após um treino no Esporte Clube Pinheiros em maio, o ginasta Arthur Nory foi surpreendido por um colega mais novo que se aproximou para mostrar um vídeo no celular. As cenas eram de uma série que o medalhista olímpico havia feito no dia anterior. Era por ali que o novato estava treinando.

Questionado pelo Estadão como é chegar à Olimpíada como campeão mundial, o ginasta reconhece as diferenças. "É novo e diferente. Eu sonhei muito com a medalha mundial. Agora, como campeão mundial é bastante diferente até a relação com as pessoas. Venho trabalhando bastante nisso", afirmou o atleta patrocinado pela Ajinomoto.

Depois da medalha nos Jogos do Rio e do título mundial, Nory evita cravar uma meta em Tóquio. "A ideia é buscar o maior número de finais. A gente costuma não pensar no resultado em si. A medalha é consequência do trabalho diário", diz o ginasta. A trajetória de cinco anos entre o Rio e Tóquio foi marcada por outras dores também, agora físicas. Nory colecionou cirurgias no período, entre elas, no tornozelo direito, no dedo indicador da mão esquerda e no olho direito e duas cirurgias nos ombros também.

Após ser diagnosticado com um desgaste crônico no joelho esquerdo, o ginasta passou a focar na barra fixa, que exige menos esforço na região e que sempre foi o seu aparelho favorito. Com esse direcionamento, Nory cresceu. Nos Jogos Pan-Americanos, ajudou a equipe de ginástica artística a conquistar a medalha de ouro e ainda levou a prata no individual geral e na barra fixa.

"Depois das cirurgias, a gente não volta igual. É preciso paciência para respeitar o corpo. A gente vai ficando mais velho e isso se soma a toda a carga de treinos. Minha última competição individual geral, que exige bastante fisicamente, foi nos Jogos Pan-Americanos. Ali, eu exigi muito do meu ombro. Eu sabia que poderia comprometer o desempenho na barra, que era meu melhor aparelho", disse.

"A dor faz parte da vida do atleta. A gente salta, repete e força. Existe uma equipe multidisciplinar que cuida do esforço físico e mental e também da recuperação. Somos atletas mais velhos. Estamos na estrada há bastante tempo."

Estadão
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