Poluição e obras: legado da Olimpíada de 2008 é questionável
Se o Brasil quiser organizar uma Olimpíada que deixe um grande legado ao País, não deve se espelhar na China. O país asiático gastou uma fortuna (mais de R$ 60 bilhões), mas não conseguiu deixar uma boa herança para a população após Pequim 2008. Muitas medidas foram provisórias, como o controle da poluição, e outras simplesmente não foram colocadas em prática, como o aproveitamento de obras faraônicas, como o Cubo d'Água. Todos esses problemas têm sido perceptíveis durante a passagem da Seleção Brasileira por Pequim, onde acontecerá o amistoso contra a Argentina, neste sábado, pelo Superclássico das Américas.
O que mais chama atenção e afeta os jogadores é a poluição em Pequim. A cidade tem uma espessa camada de fumaça e poeira que cria um ambiente intragável para qualquer cidadão. Ao olhar para cima, é difícil até enxergar prédios que estão a uma quadra de distância. Existem dois fatores que causam isso: as indústrias e os carros.
A China tomou atitudes radicais contra eles por causa da Olimpíada e conseguiu melhorar ligeiramente esse cenário. Mas atualmente o quadro está até pior que em 2008. Em 2014, o índice de Qualidade do Ar de Pequim atingiu 755 pontos. O limite razoável da medição é no máximo 500, patamar aproximado da época da Olimpíada.
Para os atletas isso é terrível, afinal eles precisam mais de oxigênio do que as pessoas comuns. Mas eles têm um preparo prévio e muitas orientações da comissão técnica. A principal medida é a hidratação, o que aumentou o número de intervalos nos treinos, que agora acontecem a cada 15 minutos ou menos.
E mesmo assim a poluição tem incomodado demais: "para respirar é complicado. Parece que você está perto de uma fogueira e ficar respirando fumaça é complicado. Mas não tem como driblar e não podemos dar desculpa, porque vão dizer que jogador ganha bem para isso", comentou o atacante Robinho, em entrevista nesta quinta-feira.
Aliás, a Seleção Brasileira vai jogar em um local que é símbolo de outro problema do legado olímpico chinês: o Estádio Ninho de Pássaro é uma das obras que não conseguiu ter um bom aproveitamento depois da Olimpíada.
Pequim tem apenas um time na primeira divisão chinesa, o Beijing Guoan, que prefere mandar as partidas no Estádio dos Trabalhadores, principalmente por causa da localização. Então o Ninho depende de outros eventos alternativos para se sustentar e já recebeu partidas de jogadores veteranos e até um rodeio, em 2011.
Mas o problema não é só o estádio. Ele fica em uma região chamada de Parque Olímpico, onde também estão localizados o Cubo d'Água e a torre Ling Long Pagoda. O primeiro tem vários canteiros de obra até hoje e não se consolidou como um local para treinos ou competições. Virou um atrativo como parque aquático, cheio de brinquedos curiosos, que atrai muitos turistas no verão. Já a torre recebia estúdios de televisão, que ficavam alocadas em diferentes andares. Mas agora é sede de eventos esporadicamente e dificilmente é usado com 100% da capacidade.
Outro benefício questionável da Olimpíada foi a abertura do país a estrangeiros. A cultura chinesa sempre foi mais fechada, mas isso começou a mudar por causa dos Jogos, pois os chineses aprenderam a receber milhares de pessoas no país. Mas é algo questionável porque ainda é raro encontrar pessoas que falem inglês, por exemplo, o que causa muitos problemas para quem não entende mandarim, a língua local.
Pontos positivos
Para não dizer que não falei das flores: Pequim melhorou em quatro pontos de forma realmente satisfatória. O primeiro impressiona turistas logo na chegada, pois o aeroporto internacional é muito grande, moderno e bem organizado, um dos melhores do mundo.
A diminuição do trânsito também aconteceu graças a medidas adotadas antes da Olimpíada 2008. A rede de metrô expandiu de forma incrível e também aumentaram as ciclovias na cidade, criando novas alternativas de transporte e desafogando o movimento dos carros.
Os outros dois pontos positivos têm alguma ressalva, mas merecem a celebração: o número e qualidade dos hotéis aumentaram bastante, ainda que muitos quartos fiquem vazios em alguns períodos do ano; e os comércios têm crescido de forma incrível, mas esse é um processo que já acontecia mesmo antes da Olimpíada, pois a China resolveu se abrir para o mundo em prol de melhorias na economia. São apenas esses pequenos pontos postivos que o Brasil pode observar para fazer uma Olimpíada com ótimo legado em 2016.