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São Paulo estaria melhor com Olimpíada 2012 do que com Copa 2014

9 mar 2012
10h07
Danilo Vital
Flávio C. D'Almeida

Há 10 anos, São Paulo lançou a pré-candidatura a sede da Olimpíada de 2012 com um projeto que propunha reestruturar os principais eixos da cidade sem desalojar grandes espaços, com aumento das estruturas que mantêm a metrópole em funcionamento - principalmente o transporte público. Uma análise feita pelos principais envolvidos no projeto indica que São Paulo estaria melhor com a Olimpíada do que com a Copa do Mundo de 2014.

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A conclusão é essa principalmente porque, cinco anos depois de o Brasil ter sido eleito a sede do Mundial e a apenas dois anos de sua realização, a cidade ainda tem graves problemas. Esteve ameaçada de perder a partida de abertura e ficou fora da Copa das Confederações, que será realizada em 2013. A estrutura aeroportuária segue como maior preocupação do Comitê Organizador. A boa notícia é que as obras no estádio do Corinthians seguem o cronograma.

Se tivesse vencido o Rio de Janeiro, sido indicada pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) como candidata e eleita pelo Comitê Olímpico Internacional (Londres saiu vitoriosa), São Paulo começaria em 2004 sua preparação para os Jogos. Seriam oito anos para colocar em prática o projeto do renomado arquiteto Paulo Mendes da Rocha, que previa a distribuição de núcleos olímpicos em espaços estratégicos ao longo dos rios Tietê e Pínheiros, que seriam revitalizados.

São Paulo 2012 não teria um parque olímpico, distribuindo as competições pela cidade e obrigando melhorias na estrutura do transporte público e em carências específicas - a região da Água Branca, por exemplo, receberia um dos núcleos e contaria com obras de saneamento para acabar com as inundações recorrentes. Ainda que muitas vezes o que está escrito no papel não seja colocado em prática no Brasil, os envolvidos entendem que São Paulo estaria melhor do que às vésperas da Copa do Mundo.

"Tenho a impressão de que, fundamentalmente, poderíamos ter enfrentado os problemas muito bem, inclusive porque o plano tem em sua essência uma revisão crítica sobre as tolices que se anda fazendo", disse Paulo Mendes da Rocha ao Terra. Quando perguntado sobre quais erros os últimos governos municipais cometeram, ele foi sucinto na resposta: "insistir em uma cidade absolutamente desarticulada".

Nádia Campeão, presidente estadual do PCdoB, foi secretária municipal de esportes na época, sob o governo de Marta Suplicy (PT). Ela também aceitou o desafio de imaginar São Paulo como sede da Olimpíada de 2012: "é difícil de ter uma ideia, acho que essas coisas que estão sendo planejadas para a Copa do Mundo já existiriam aqui, como a reestruturação dos aeroportos, novas linhas de metrô e de trem, uma ocupação do esporte como prioridade".

Lars Grael, ex-secretário de Estado da Juventude, Esporte e Lazer de São Paulo e membro ativo do comitê paulistano em 2002, foi mais cético na análise. "São eventos diferentes em momentos diferentes", afirmou, antes de ressaltar: "naquele momento, tínhamos uma sintonia muito grande entre prefeitura e estado, embora fossem de partidos opostos na conjuntura nacional (PT e PSDB). Com certeza, teríamos deflagrado uma companha com planejamento muito maior".

Mais união e benefícios espalhados

Em vez de disputas clubísticas para definir qual estádio receberia os jogos da Copa do Mundo, com o Morumbi do São Paulo e a futura arena do Corinthians brigando nos bastidores, enquanto a Arena Palestra do Palmeiras corria por fora, a cidade provavelmente estaria mais unida politicamente. "Acho que haveria uma empolgação geral em todos os segmentos da cidade", opinou Nádia Campeão, que esteve cotada para trabalhar com a organização do Mundial na gestão de Gilberto Kassab (PSD).

"Afinal, estariam todos envolvidos na Olimpíada. Isso geraria uma força organizativa. E São Paulo estaria bastante agitada", complementou a ex-secretária de esportes. Ela vê uma influência positiva dos esforços de candidatura aos Jogos de 2012 em relação à Copa do Mundo. "Aquela candidatura foi precursora de tudo isso", disse, ao reconhecer os problemas que a cidade tem em relação aos esportes.

"São Paulo é um estado carente de instalações esportivas modernas. São Paulo tem algumas das maiores torcidas de futebol do mundo, então o torcedor tem direito a estádios modernos. A cidade meio que parou no tempo em relação a isso. Em esportes olímpicos nós também temos bastante carência", disse Nádia Campeão. Para Lars Grael, ocorreu uma mudança de foco após a derrota para o Rio de Janeiro no pleito realizado pelo COB.

"Nos últimos 10 anos, São Paulo recebeu outros eventos importantes, mas acho que à medida em que ficou clara a vocação olímpica do Rio de Janeiro, São Paulo percebeu que sua vocação era outra. Esse assunto saiu um pouco de voga na parte municipal e estadual. A cidade entrou lenta demais nesse processo da Copa do Mundo, e nos esportes olímpicos ainda sedia eventos, mas está aquém do que esperamos", apontou.

Aos poucos esses problemas têm se aproximado de uma solução por conta da Copa de 2014. No entanto, Corinthians e Palmeiras afirmam que teriam estádios novos em 2014 independentemente da realização ou de sua utilização no Mundial da Fifa. E o São Paulo, mesmo fora da competição, anunciou reformas no Morumbi para modernizá-lo, incluindo a cobertura total das arquibancadas. As mudanças para o futebol viriam mesmo sem a Copa. Com a Olimpíada, esse processo seria muito mais amplo para esportistas e para a população em geral.

Presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, conversa com Marta Suplicy e Nádia Campeão durante evento da pré-candidatura
Presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, conversa com Marta Suplicy e Nádia Campeão durante evento da pré-candidatura
Foto: Marcelo Ferrelli / Gazeta Press
Fonte: Terra

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