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Figueroa sugere troca na Fifa, pede respeito a Falcão e diz: eu pararia Messi

13 mai 2011 - 10h00
(atualizado às 15h26)
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O chileno Elias Figueroa sempre foi uma exceção. Quando criança, sofreu com asma e problemas cardíacos. Aos 15 anos, já curado, marcou Didi em um jogo treino contra a Seleção Brasileira durante a Copa do Mundo do Chile-1962. Um dos melhores zagueiros da história, aliava técnica e raça em detrimento da violência. Jogou os Mundiais de 1966, 1974 e 1982, mas nunca conseguiu ganhar uma partida. Fã de Pablo Neruda e Gabriela Mistral, costumava escrever poemas enquanto seus companheiros jogavam baralho.

Figueroa, autor do "gol iluminado" contra o Cruzeiro na final do Brasileiro de 1975, mantém uma rotina incomum para ex-jogadores atualmente. Aos 64 anos, ele tem uma conta no Twitter e um site oficial. Admirador do vinho, exporta para o Brasil o rótulo Don Elias e administra um posto de gasolina com bandeira de Petrobras em Viña del Mar. O cotidiano do antigo zagueiro é dividido por palestras motivacionais em empresas e trabalhos beneficentes em seu país.

Convidado para participar das próximas eleições presidenciais na Fifa, Figueroa recusou para se dedicar a projetos pessoais. Ainda assim, ele sugere mudanças na entidade, presidida pelo suíço Joseph Blatter desde 1998 e abalada por denúncias de corrupção. Hexacampeão gaúcho e bi brasileiro pelo Inter, o chileno acompanha a empreitada do ex-companheiro Paulo Roberto Falcão como técnico e pede respeito ao ídolo colorado, eliminado da Copa Libertadores e em desvantagem na final do Estadual.

Na semana do Gre-Nal que decidirá o título gaúcho, Figueroa veio a São Paulo para participar de um evento promocional da vinícola Concha y Toro. Além de apostar que o time colorado da década de 1970 poderia vencer o Barcelona de Guardiola, ele disse que conseguiria parar o argentino Lionel Messi. "Eu já marquei até o Pelé!", afirmou, sorrindo. Com pesar, lembrou da farsa do goleiro Rojas em 1989 e da queda do presidente Salvador Allende em 1973.

Presidência da Fifa

"Estive em uma reunião com um grupo formado por dirigentes, ex-jogadores e gente ligada ao futebol em Londres. Depois, eles me convidaram para participar das eleições da Fifa. Eu pedi um tempo para pensar. Nesse período, foi impressionante a quantidade de pessoas que entraram em contato comigo de todas as partes do mundo pedindo para aceitar a proposta, mas no final recusei. Eu casei com 15 anos e comecei a jogar nessa idade. Por isso, sempre fiquei afastado da minha família. Se fosse candidato, precisaria viajar muito. Nunca fiquei louco nem com a fama nem com o poder. Teria sido lindo, mas preferi ficar em casa. Disputar as eleições da Fifa não é um dos meus objetivos principais para o futuro".

Troca de comando na Fifa

Antes de ser presidente, é importante lembrar que o Joseph Blatter foi secretário do João Havelange por muitos anos. Ele está há muitos anos dentro da Fifa. As mudanças sempre são boas. Agora, o Mohammed Bin Hamaan será candidato, mas o Catar já ganhou um Mundial de 2022 . Então, é difícil que tenha essa briga. Espero que as coisas sejam bem feitas e que se pense no bem do futebol. Não apenas no jogador profissional, mas também nos garotos das divisões inferiores, que são o futuro do esporte. Sempre existem coisas novas para se fazer e espero que façam, pelo bem do futebol mundial".

Paulo Roberto Falcão

"Acho que o Falcão tem condições, conhece futebol e, como trabalhou como comentarista nos últimos anos, viu muito futebol. Eu só peço para a torcida colorada que tenha respeito por ele, porque é um risco assumir um clube como técnico sendo tão ídolo. Se você perde três ou quatro partidas, as pessoas já ficam contra. Eu peço à torcida paciência e respeito. Ele acabou de perder um Gre-Nal e você sabe o que isso significa. Mas eu confio nele. É uma grande pessoa e desejo muita sorte, sobretudo no Internacional, que eu gosto tanto.

Experiência própria

"Fui técnico do Inter por casualidade, nunca quis ser técnico (sucedeu Nelsinho Baptista no Brasileiro de 1996). Eu era gerente de futebol do Inter e o time estava em crise, estávamos no 18º lugar. Eles despediram o técnico e o presidente me pediu para assumir, porque não queria contratar um novo técnico por três meses. Eu não queria assumir, mas acho que fui bem, porque tive mais de 80% de aproveitamento. Não me arrependo. Depois, recebi propostas até da Espanha para seguir como treinador. Atualmente, ainda aparecem ofertas no meu país, mas não quero. Tudo o que fiz como jogador pode ser apagado de uma hora para outra se eu for técnico".

Brasileiro de 1975

"Foi a primeira vez que um time do Sul ganhou o título brasileiro. Atualmente, eu tenho uma fundação no Chile que se chama Gol Iluminado justamente em homenagem ao gol que provou a todo o Brasil que as equipes do Sul também podiam vencer. Depois, veio o Grêmio. Aquele Inter foi um dos melhores times que passei, porque também joguei no Peñarol com Mazurkiewicz, Spencer, Pedro Rocha, Joya. Cheguei no Uruguai com 18 anos e para mim foi muito importante jogar nessa grande equipe, mas o Inter dos anos 1970 também foi uma exceção. Foi um dos melhores times da década".

Com moral

"Eu estava chegando do Uruguai e sempre falava muito em campo. Alguns diziam que eu apitava o jogo. Na verdade, eu organizava. Logo na minha estreia pelo Inter, contra o Vasco, teve dois companheiros que não gostaram muito e reclamaram no final do primeiro tempo: "filho de não sei quem! Não vem gritar comigo assim". Me insultaram dentro do vestiário. Eu agarrei os dois, empurrei e parti pra cima deles para brigar. Então, o técnico Dino Sani me pediu calma. Ele me conhecia e sabia que eu falava em campo pelo bem da equipe. Eu era a voz do técnico dentro de campo. Desde então, virei o capitão do time. Não posso falar quem foram os jogadores, tenho que respeitá-los (risos)".

Barcelona entre os melhores

"Acho que já podemos colocar esse Barcelona entre as melhores equipes da história, porque eles têm uma mecânica muito definida. Vendo eles jogarem, você já sabe o que vão fazer antes, mas não chega à altura, por exemplo, do Real Madrid do Alfredo Di Stéfano, um jogador que fazia a diferença. São jogadores que fazem com que sua equipe seja diferente das demais. O Santos do Pelé é um caso à parte. O Santos tinha jogadores muito bons, mas o Pelé foi extraordinário. Ele não é comparável. Eu enfrentei Platini, Charlton, Cruyff, Maradona... O Maradona foi um grande jogador e o respeito muito, mas o Pelé foi extraordinário e fazia a diferença".

Barcelona x Inter dos anos 1970

"Não acho que eles (do Barcelona) ganhariam de nós e digo isso com sinceridade, não é por presunção. Nós tínhamos time para enfrentar o Barcelona ou qualquer outro adversário. A gente tinha Carpegiani, Falcão, Manga no gol, Valdomiro. Tínhamos jogadores que decidiam. Às vezes, entrava um ou outro jogador, mas a base era sempre a mesma. Poderíamos enfrentar qualquer time da atualidade tranquilamente. Na época, a gente corria tanto, que pensavam que usávamos doping. Tínhamos uma preparação física incrível. Eu acho que eu conseguiria marcar o Messi. Já marquei o Pelé (risos)! Que tal? O Messi é extraordinário, mas acho que poderíamos ganhar do Barcelona".

Barcelona x Manchester United

"O Barcelona vem muito bem, mas essa final da Liga dos Campeões será bastante difícil pela impetuosidade do futebol inglês, sobretudo do Manchester. Acho que vai ser muito equilibrado. O Barcelona tem toda uma mecânica e o Manchester é mais impetuoso. O Barcelona é favorito, mas não está nada definido, porque o Manchester tem bons jogadores. É um futebol mais rápido e isso às vezes incomoda um pouco os times espanhóis".

Inter ou Peñarol

"Foi muito difícil ver esse jogo na Libertadores (o time uruguaio eliminou os gaúchos nas oitavas de final). Tenho um carinho enorme pelo Peñarol, porque o clube acreditou em mim com 18 anos. Tenho a convicção de que, se eu não passasse pelo Peñarol, não teria alcançado o sucesso que alcancei no futebol mundial. Essa passagem pelo Uruguai me fez amadurecer. Quando fui contratado pelo Inter, já tinha a experiência de cinco anos no Uruguai. No fundo, eu torci pelo Inter (risos). Tenho um carinho enorme pela torcida. Meus filhos se alfabetizaram em português, minha família se deu muito bem no Brasil. Fiquei dividido, mas senti que a torcida pelo Inter era mais forte. Pelo Peñarol, é agradecimento. Pelo Inter, é carinho. São duas coisas diferentes".

Grêmio eliminado pela Universidade Católica-CHI

Foto: AFP

"Não me surpreendeu tanto. Antes da partida, as rádios de Porto Alegre me ligaram e eu disse: "cuidado com a Católica". Acho que o Grêmio pensou que seria muito fácil, eles entraram com confiança excessiva. A Católica lidera o Campeonato Chileno e fez um time bem armado, com uns argentinos e chilenos misturados. Eles surpreenderam o Grêmio em Porto Alegre e depois ficou difícil para os brasileiros no Chile. É incrível que quase todos os times brasileiros estejam eliminados (apenas o Santos permanece no torneio). Meus amigos me perguntam o que aconteceu, porque sabem que sou meio brasileiro (risos)".

Torcida

"Contra o Grêmio, eu torci pela Católica (risos). Nisso, sou sincero. Fui mais Católica, apesar de que meu time de coração no Chile é o Santiago Wanderers. Na época que eu jogava, a rivalidade entre Peñarol e Nacional era maior do que a rivalidade no Rio Grande do Sul. Mas com o tempo a rivalidade entre Grêmio e Inter ultrapassou. Agora, é uma loucura".

Copa América na Argentina-2011

"Na Copa América, os principais candidatos são o Brasil e a Argentina. A Argentina não ganha nada há muito tempo e vai estar em casa. O Brasil sempre vai lutar pelo titulo. O Chile chega com uma geração muito boa de jogadores. Nunca houve tantos atletas jogando em ligas tão fortes, como Itália, Espanha, Alemanha, Brasil, Argentina. Acho que o Chile vai jogar muito bem. Espero que seja assim. Vamos estar do lado de casa, Mendoza está só a 350 quilômetros e muita gente vai atravessar a montanha (a Cordilheira dos Andes divide os dois países). Nossos jogadores vão se sentir em casa e isso é bom".

Três empates e seis derrotas nas Copas

"Isso é uma frustração grande. Eu era jovem em 1966 e fui capitão em 1982, mas em 1974 não quis ser, porque estava jogando fora do país e considerava que seria uma falta de respeito com os jogadores que atuavam no Chile. Em 1974, mesmo sem ter passado da primeira fase, formei a seleção do mundo ao lado do Beckenbauer na zaga. Imagina: jogar pelo Chile, não ganhar um jogo e terminar como melhor zagueiro da Copa do Mundo! Foi algo grande. Se você está no time campeão, é mais fácil. Mas em um time que nem passou da primeira fase, é uma alegria imensa".

A farsa de Rojas nas Eliminatórias da Copa de 1990

"Eu estava no Maracanã como comentarista de uma emissora chilena. Depois, desci no vestiário para ver como o Rojas estava (o goleiro cortou o próprio rosto com uma lâmina escondida na luva e simulou ter sido atingido por fogos de artifício no gramado). Tinha gente comemorando, achando que mudariam o local do jogo, mas o Brasil, aqui ou em qualquer lugar, é sempre Brasil (os chilenos queriam remarcar a partida em campo neutro). Na hora, os próprios jogadores chilenos me contaram a verdade. Depois, quando a imprensa brasileira me entrevistou, eu tive que dizer que não sabia o que tinha acontecido. Foi uma tristeza, uma frustração muito grande. Mas acho que o Roberto Rojas já está consciente. Foi uma ideia geral, não foi só dele, mas acontece que foi ele que fez. Depois, os demais se esconderam. Sempre fui muito leal e acho que o esporte, principalmente o futebol, nos dá valores".

Jogo treino contra o Brasil na Copa de 1962

Para mim, foi uma partida. Para o Brasil, um treinamento. Foi uma loucura para mim, me marcou muito. Eu vivia em Quilpué, perto de onde o Brasil estava concentrado, e joguei pelo Santiago Wanderers contra eles. Apesar de ter 15 anos, já jogava no primeiro time. De noite, pulava o muro do hotel para pedir autógrafos dos jogadores brasileiros. Imagina o que foi jogar contra eles... Nem me lembro o placar do jogo. Na época, eu jogava de volante e, com 15 anos, marquei o Didi".

Aposta

"Eu tinha feito uma aposta com meus amigos: tinha que dar uma caneta em algum brasileiro, mas não consegui cumprir. Todo mundo do bairro foi ver o jogo (risos). Enfrentar os campões do mundo com 15 anos foi inesquecível. Depois, fiquei amigo deles, do Didi, do Pelé. Quando eu os encontrava, pensava que jamais se lembrariam de mim. Nunca comentei nada sobre isso com eles. Eu vi todos os jogos do Brasil no Estádio Sausalito na Copa de 1962 junto com meu pai".

Chile terceiro colocado na Copa 1962

"Eu lembro bem dessa campanha da seleção chilena. No Mundial seguinte, atuei com todos aqueles jogadores. Com 16 anos, comecei na seleção juvenil. Com 17, fui o único que passou para a seleção adulta. Em 1966, joguei com todos eles. Eram quase os mesmos de 1962. Eu torcia por eles e, anos depois, estava treinando e jogado com eles. São as coisas bonitas da vida".

Alberto Spencer

"Jogamos juntos no Peñarol. Ele era extraordinário, de nível mundial, com 54 gols é o maior artilheiro da Copa Libertadores. Alto, cabeceava bem, rápido, hábil. Fez muitos gols, tinha faro de gol. O Spencer morreu em 2006 e tive a chance de conversar com ele por telefone quando estava hospitalizado nos Estados Unidos. Falei com ele e com o filho. O Spencer já estava muito debilitado e morreu pouco tempo depois. Uma grande pessoa, um grande jogador".

Golpe Militar no Chile em 1973

"Eu lembro muito bem desse dia. Em 11 de setembro, com apoio dos Estados Unidos, a sede do governo chileno foi bombardeada e o presidente Salvador Allende morreu no local. Liguei e falei por telefone com meu pai. Todo o povo sofreu e ficamos muito preocupados. Teve gente que ficou a favor e outros, contra. Na época, não se sabia que teríamos tantos problemas no futuro. Aconteceram muitas coisas e depois, com o tempo, todos ficamos sabendo que o governo do general Augusto Pinochet entre 1973 e 1990 foi marcado por muitas mortes e desaparecimentos".

Salvador Allende

"Eu conheci o Allende. No terremoto de 1970, estava no Peñarol e armei uma seleção uruguaia para enfrentar uma seleção chilena em um jogo beneficente para as vítimas do terremoto. Consegui passagens aéreas, os jogadores foram de graça para Santiago e lotamos o Estádio Nacional, usado pelos militares anos depois como centro de detenção e tortura. Todo o dinheiro que arrecadamos, entreguei ao Allende: "Presidente, isso é para os afetados pelo terremoto". O Allende foi uma grande pessoa, muito boa gente, muito humano".

Volta ao Chile em 1977 com Pinochet no poder

"Foi difícil me acostumar, porque eles (da ditadura chilena) sempre queriam te envolver. Estive sempre com o Allende (1970-1973), Frei (1964-1970), Alessandri (1958-1964), sempre participei com os presidentes. Recentemente, com a Bachellet (2006-2010) e com o Piñeira atual presidente , também.

O Iluminado

"Eu tinha tudo para não ter sido jogador de futebol. Tive difteria quando criança e me fizeram uma traqueostomia. Sofri com problemas de asma e no coração. O médico disse que eu nunca seria uma criança normal, que não poderia fazer atividade física. Nasci em Valparaíso e, quando tinha três anos, meus pais se mudaram para Quilpué em busca de um clima melhor. Nessa época, se eu corria, também vinham os ataques de asma. De um dia para o outro, isso parou e comecei a jogar futebol com sete anos. Aos 11, tive poliomelite e passei um ano na cama. Aprendi a andar com muletas e com a ajuda dos meus irmãos. Aos 15 anos, estava estreando na Primeira Divisão. Sou um agradecido à vida".

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