O adeus da lenda que contrariou quem dizia que nunca pisaria no Camp Nou
Um dos divertimentos mais comuns entre os frequentadores do Miniestadi - estádio usado pelo time B do Barcelona - é fazer apostas sobre os jovens jogadores do clube. A expressão "esse jogador chegará ao Camp Nou" tornou-se clássica entre os poucos torcedores que assistem aos jogos da "filial".
Polivalente jogador do Barcelona B na temporada 1998/1999, Carles Puyol Saforcada, nascido no município de La Pobla de Segur, em 1978, não era o mais talentoso de um time que contava com jóias do centro de treinamentos de La Masía como Gabri, Luis García ou Xavi Hernández.
O zagueiro, que começou como atacante e passou pelo meio de campo antes de se firmar na defesa, chamava a atenção mais pelo vigor físico do que pela técnica. Poucos podiam imaginar que, quinze anos depois, ele seria o segundo jogador que mais defendeu o clube - só perde para Xavi.
Em seu início profissional, Puyol não tinha a aprovação da direção esportiva. No meio de 1999, o então diretor técnico Llorenç Serra Ferrer acertou seu empréstimo para o Málaga, que tinha acabado de subir para a primeira divisão. Porém, o técnico Louis Van Gaal impediu a transação em cima da hora.
No dia 2 de outubro daquele ano, o treinador deu a primeira oportunidade na equipe principal ao zagueiro. Na base do esforço e da vontade, características que mostra até hoje, Puyol aproveitou bem a chance. Atuando como zagueiro ou até como lateral-direito, ele começou a se destacar, coincidindo com o adeus do presidente José Luis Núñez e a chegada de Joan Gaspart, em uma dos períodos mais obscuros da história recente do clube catalão.
Na falta de títulos, Puyol era o exemplo no gramado do que o Barça queria, mas não conseguia ser. Sua figura se sobressaia na época para levantar os aplausos de um Camp Nou acostumado então a viver frustrações a cada fim de semana.
Os primeiros capítulos de sua história começaram a ser escritos com a marcação impecável ao meia Luis Figo em seu retorno ao Camp Nou como jogador do Real Madrid ou no gol que salvou com o peito em um jogo da Liga dos Campeões contra o Lokomotiv Moscou.
Com a chegada de Joan Laporta à presidência e de Frank Rijkaard ao banco de reservas, Puyol se consagrou na posição de zagueiro e assumiu a braçadeira de capitão. Na temporada 2004/2005, ergueu a taça de campeão espanhol, sua primeira conquista pelo clube do coração.
O título daquele Campeonato Espanhol, o 17º da história do Barcelona, marcou o início de uma década dourada. No ano seguinte, foi bicampeão e ainda conquistou a Liga dos Campeões após vitória sobre o Arsenal por 2 a 1, em Paris.
Na temporada 2006/2007, Puyol passou pela primeira grande lesão de sua carreira. Ele rompeu o ligamento lateral externo do joelho esquerdo, a mesma articulação que o obrigou a anunciar a aposentadoria nesta quinta-feira.
Nessa temporada e na seguinte, o Barcelona passou em campo. Foi a decadência da era Rijkaard. O conformismo e a apatia reinavam no vestiário, e Josep Guardiola chegou para reformular a equipe.
Sob o comando do novo treinador, Puyol alcançou seu melhor desempenho tático, técnico e físico na temporada da tríplice coroa. Jogou não só como zagueiro, mas também de lateral, e com sua experiência - tinha 31 anos - ajudou no crescimento de Gérard Piqué, que começava a se firmar como titular do melhor Barça da história.
Autor de um dos gols da mítica goleada no Bernabéu (2-6), Puyol foi impecável na final da 'Champions' de 2008/2009 diante do Manchester United de Cristiano Ronaldo e se tornou o primeiro jogador do clube a erguer duas taças da competição.
Em 2010, conquistou seu quarto título espanhol e a Copa do Mundo da África do Sul. Seu rendimento começou a cair na temporada seguinte, devido aos problemas físicos que o acompanharam nos últimos quatro anos, nos quais só jogou 57 partidas como titular no Campeonato Espanhol.
Na temporada da quarta Liga dos Campeões conquistada pelo clube, Puyol só entrou em campo 27 vezes, devido aos problemas no joelho esquerdo que o obrigaram a passar por uma cirurgia.
Na final contra o Manchester United, em Wembley, Puyol será lembrado por ceder a braçadeira de capitão para Eric Abidal - recém recuperado de uma operação para retirada de um tumor no fígado -, que pôde levantar o troféu.
Na temporada 2011/2012, quando venceu o Mundial de Clubes e a Copa do Rei, disputou um total de 40 partidas como titular. Foi o último ano no qual os joelhos de Puyol aguentaram a exigência da competição.
Em 2012/2013, na qual renovou seu contrato até 2016, o zagueiro passou por uma limpeza articular do joelho direito que, unido à retirada de um cisto de Baker, o deixou seis meses longe dos gramados.
No meio do ano passado, Gerardo Martino impediu a contratação de um zagueiro, pois confiava na recuperação de Puyol. Porém, em sua última temporada pelo clube, ele só participou de 12 jogos.
Aos 36 anos, Puyol pendurou definitivamente as chuteiras. O sonho de repetir seu grande ídolo Paolo Maldini e jogar em alto nível até os 40 anos não será realizado. No entanto, sempre poderá lembrar que é uma lenda do Barça aos incrédulos do Miniestadi, que afirmavam que nunca pisaria no gramado do Camp Nou.