Na Vila Pelé, 200 crianças driblam tráfico e miram futuro pelo futebol
Em área carente de Santos que leva o nome do Rei do Futebol, associação trabalha para tirar jovens das ruas e oferecer mais perspectivas para o futuro
João Roberto tem só 11 anos, mas sob seus olhos já passaram coisas que muita gente velha não viu. Coisas que fazem seus olhos se encherem de lágrimas, inclusive. "Eu moro em uma casinha e em cima é uma favela. Tem meninos do meu tamanho usando drogas e roubando moças maiores de idade. Isso me dá um aperto no coração, me dá vontade de chorar. Uma vez, em cima do dique, um menino roubou uma moça. Corri atrás, mas não consegui pegar".
O depoimento espontâneo de João Roberto é um exemplo da realidade em torno das crianças e adolescentes que moram na Vila Pelé, inserida no bairro Rádio Clube e uma das regiões mais carentes e com maior índice de criminalidade de Santos. Para João e cerca de outros 200 jovens, porém, há uma válvula de escape: em pelo menos três dias da semana, eles são atendidos pela Sociedade Esportiva Cantareira e têm a possibilidade de esquecer os problemas e driblar as adversidades por meio do esporte.
Exibida pela Rede Globo na década de 80, a novela Vereda Tropical tinha o futebol como pano de fundo e surgiu como inspiração para Edicarlos Ramos e o pai fundarem a Sociedade Esportiva Cantareira. Inicialmente um time de futebol de várzea em 1986, o trabalho ficou sério a partir da última década, quando o acaso fez Edicarlos se dar conta do que tinha em mãos na Vila Pelé.
Destino transforma os propósitos da Sociedade Esportiva Cantareira
"Eu era morador da favela e tinha um terreno atrás, perto do canal, e fizemos um campinho de areia que foi crescendo. Certo dia, estava um sol de uns 39ºC e eu estava molhando a areia. O diretor de marketing da Joma (empresa de material esportivo) estava visitando o Brasil, estava em São Paulo, e quis ver a periferia de Santos", conta Edicarlos sobre o encontro casual que gerou a primeira grande parceria da Sociedade Esportiva Cantareira.
As crianças da época, muitos deles já adultos nos dias de hoje, ganharam tênis, camisas, shorts e bolas. Para Edicarlos, mais que os materiais. "Isso deu autoestima para os garotos. E aí falei 'vamos fazer um trabalho mais focado, mais sério, buscar patrocínios'. Afinal trabalhando certinho com isso você traz patrocínios", explica o responsável pelo projeto.
No último dia 23, um novo passo foi dado na Vila Pelé. Com 200 jovens inscritos, de 7 a 16 anos, a Sociedade Esportiva Cantareira inaugurou um novo campo, com grama artificial, graças a recursos obtidos (R$ 374 mil destinados pela Ambev) via Lei Paulista de Incentivo ao Esporte. Até então, o gramado era natural e sujeito a chuvas, o que limitava as atividades.
"Sem esporte, as crianças se revoltam", diz responsável pela associação
Edicarlos celebra a nova conquista para o projeto sob um ponto de vista em particular. Para ele, quanto mais oferece às crianças, mais pode pedir em troca. Hoje, todos os meninos inscritos têm que estar matriculados no colégio, e a renovação pode ser cancelada em caso de repetência.
"Se nadar em canal, é expulso da escolinha. Não pode andar descalço, não pode brigar na rua. A gente dá algo, então pode cobrar. A gente dá carinho, trata como nossos filhos e eles sentem a responsabilidade", diz o responsável pela Socidade Esportiva Cantareira.
| Vila Pelé foi doação do Rei do Futebol |
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De acordo com Edicarlos, o amplo terreno localizado na zona Noroeste, em Santos, pertencia a Pelé nos anos 70. O espaço foi doado à Prefeitura para construção de habitações populares e acabou batizado como Vila Pelé. Em 2008 (foto), ele visitou a Sociedade Esportiva Cantareira para conhecer o projeto realizado com crianças. |
Em conversas informais, moradores da Vila Pelé admitem que a criminalidade passa muito perto dos meninos. "Se você andar 200 metros mais adentro (além da SE Cantareira), vai ver gente com pistola na mão", diz uma fonte. Edicarlos, por sua vez, afirma até que há ex-alunos hoje presos, mas confia nos benefícios que a entidade traz para o bairro.
"Acho que é a mais carente e a mais volumosa comunidade em Santos. A maioria (das crianças) mora em palafitas, na favela, outras nos prédios aqui por perto. Gente de fora pode achar que são crianças sem educação, redeldes, mas nada disso. Se não tiver alguém para dar atenção, fazer esporte, a criança se revolta, vai fazer tudo errado", defende.
Enquanto dribla os problemas que lhe perturbam, o menino João Roberto também se prepara para os próximos testes. Canhoto, habilidoso e alto na comparação aos demais colegas, ele é um dos destaques da categoria na Vila Pelé e quer um time para tentar realizar seu sonho de virar jogador. "Estou aqui há cinco anos e isso é algo que nem todos os meninos podem ter. É melhor estar aonde podem olhar a gente do que jogado em algum lugar por aí", diz como quem sabe o que quer.
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