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Mundial de Clubes

Corintianos revivem "dia da independência" e incendeiam Japão

17 dez 2012 - 10h03
(atualizado em 19/12/2012 às 16h00)
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"Vamos, vamos Corinthians, esta noite teremos que ganhar". A canção foi a trilha sonora de um dos dias mais importantes da história do mais popular time do Estado de São Paulo: 4 de julho de 2012. Era a data também do 236º aniversário da Independência dos Estados Unidos, que passou desde então a viver em harmonia com a emancipação corintiana da Libertadores. Aquela noite mágica do Pacaembu, quem diria, aconteceria de novo. A 18.500 km de distância, 165 dias depois. No Japão. Milhares de vozes repetiram a música da alforria e empurraram o Corinthians no 1 a 0 contra o Chelsea. De novo a um título. Ao bi mundial.

Invasão corintiana impressionou ingleses na conquista do título mundial em Yokohama
Invasão corintiana impressionou ingleses na conquista do título mundial em Yokohama
Foto: Ricardo Matsukawa / Terra

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Estava escrito: o Corinthians não poderia perder esse torneio. Não pelo futebol, afinal, o Chelsea era mais rico, mais time, mais estelar. Mas sim pelos milhares que cruzaram o planeta por uma única causa. Que deixaram para trás emprego, casa, aluguel, família, dívidas no banco, relacionamentos, vidas. Quiçá o Japão não via tamanha invasão a seu país desde a Segunda Guerra Mundial, Mas, desta vez, não era guerra. Só outra razão leva a raça humana a atravessar fronteiras em busca de um ideal: religião. 

A fé que levou Fernanda a largar o noivo no Brasil, com casamento marcado e reforma na casa já iniciada. Que fez com que Paulo Ribeiro abrisse mão dos presentes de Natal dos filhos. E Paulo César perder a formatura de sua única herdeira. O que dizer então de Márcio Silva, que se demitiu e retirou o dinheiro da poupança da faculdade? Já João Gouveia vendeu o carro. Luciano, coitado, pediu empréstimo para o sogro. O seu Bernal não ficou atrás e, sem querer, não viu sua segunda neta nascer. Inverossímeis histórias de crença religiosa.

Dez, quinze, vinte, trinta, quarenta mil. De que importa o número exato? Os corintianos saíram em polvorosa em busca da Terra Santa. De Praia Grande, Pirituba, Tucuruvi, Pindamonhangaba, Itaquera, Taboão da Serra, Mooca, Mogi Guaçu, Cubatão, Bragança, Donizete Braga, Tatuapé, Cachoeira, Espírito Santo, Bela Vista, Interlagos, Vila Rosângela, Itaquá, Suzano, Indaiatuba, Serra Negra, Copacabana, Morato, Cangaíba, Itu, Vila Monumento, Guarulhos, São Vicente, São Mateus, Americana, Curitiba, Goiânia, Maranhão.

De Montreal, Miami, Vancouver, Sidney, Nova York, Alasca, Califórnia, Toyota, Nagoya, Fukushima, Hiroshima, Osaka, Fukuoka, Sendai, Nemuro, Sapporo, Tóquio, Lima, Moscou, Londres, Frankfurt, Madri, Lisboa, Auckland, San Diego, Cidade do México. Apenas algumas das proveniências ouvidas pelo Terra no Japão ou exibidas em faixas que preenchiam todo o anel da arquibancada do Estádio Internacional de Yokohama neste domingo. Corintianos do mundo. Unidos, pois lhes diziam que era preciso atravessar o planeta para conquistá-lo.

O trajeto alvinegro pelo Japão mudou para sempre o conceito do clube no exterior. Até Joseph Blatter, presidente da Fifa, se rendeu à festa. "Ele me deu parabéns pela nossa torcida", disse o presidente Mário Gobbi, ainda nos vestiários em Yokohama, com a voz embargada pela emoção do título. Pouco antes, os auto-falantes do complexo esportivo anunciavam em desespero: "sinalizadores não são permitidos". Era a festa corintiana nas arquibancadas. O estádio virou Pacaembu. Incendiado.

A invasão corintiana ao Japão aconteceu. A terceira dos 102 anos de existência do clube, a primeira fora do Brasil. Fora da América. A 30 horas de avião. Claro, sempre existirá aquele que duvidará da história. Os infieis que não creem. O homem pisou na lua e disseram que era tudo truque de televisão. Como foi digno de filme, também, o que fizeram os incontáveis de milhares de corintianos que estiveram no Mundial de 2012. Para fazer tremer um gigante de Londres.

"A atmosfera que eles criaram perseguiu os jogadores do Chelsea já no túnel de entrada e vai persegui-los de volta à Inglaterra". A definição não é de um entusiasmado corintiano, ébrio pelo bi mundial. É do conceituado jornal britânico The Guardian. "Os londrinos caíram de para-quedas na hostil multidão do território inimigo". Vocês percebem o que aconteceu nesses dias no Japão? O Corinthians jogou em casa. A quase 20 mil quilômetros dela. Como jogava, também, em 2000, no Mundial disputado no Rio de Janeiro. E em 1976, na mesma capital carioca.

A independência alvinegra de 4 de julho saiu dos pés libertadores de Emerson para reviver na testa abençoada de Paolo neste 16 de dezembro, exatos 22 anos depois do primeiro título nacional. Do carrinho de Tupãzinho, que vestia a mesma camisa 9 para desengasgar o grito sufocado de uma nação que era só paulista. Virou brasileira. Agora, Mundial. Bi. Com a 9 de Guerrero. Um homem que levou o time do povo a derrotar o time de um homem rico. Como noticiaram as televisões japonesas na véspera. De um povo igualmente guerreiro. Corintiano.

Fonte: Terra
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