Músico, lutador e pai: conheça as lições de vida do lateral Nei
- Cristiano Silva
- Direto de Porto Alegre
A história de vida do lateral direito Claudinei Cardoso Félix da Silva - ou Nei, como é conhecido pelo torcedor colorado e de todo o Brasil - é recheada de superação e lições de vida. Desde que nasceu em um sítio em Bragança Paulista (SP), onde seus pais trabalhavam como caseiros, até os dias de hoje, quando entra em campo para defender as cores do Internacional.
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Quando criança, Nei tinha o sonho de ser músico, lutador ou jogador de futebol. Experimentou os três e acabou se tornando jogador de futebol, sonho que foi ameaçado quando Nei rompeu todos os ligamentos do joelho direito atuando pelo Atlético-PR. O médico disse que ele não teria mais condições de seguir na profissão, mas, teimando em contrariar o destino, Nei, por sorte ou mania de superar desafios, fez com que o médico errasse seu prognóstico.
Mais detalhes destes e outros fatos que marcaram a trajetória de Nei é o que você vai ler nesta entrevista especial concedida pelo jogador colorado à reportagem do Terra.
Terra: Como você surgiu para o futebol?
Nei: Eu comecei no infantil do Palmeiras, depois fui para o Bragantino e depois fui para a Ponte Preta, onde tive o meu último ano de juvenil, juniores e começo de profissional. Fui para o Corinthians e voltei para a Ponte, onde joguei o Brasileiro de 2006, e depois fui para o Atlético-PR. Depois vim para o Inter. Só time com torcidas que cobram bastante, mas isto é bom para a formação do jogador. Tenho uma personalidade forte e você acaba amadurecendo.
Terra: O que te levou a ser jogador de futebol?
Nei:
Sempre foi o meu sonho. Sempre fui apaixonado por três coisas na minha vida: futebol, luta e música. As três coisas que eu quis fazer na minha vida. Comecei na luta: treinei quatro anos de muay thai e dois anos de jiu-jitsu, e isto acabou ajudando no futebol, na elasticidade e na concentração dentro e campo. Na música, eu tenho 12 violões, guitarra, bateria. Eu tinha uma e dei para o filho do Muriel (goleiro do Inter). Piano, gaita... Meu negócio é tocar, porque cantar com esta minha voz não dá. Gosto de rock, sou fã de Nirvana, Guns N'Roses, Iron (Maiden), Metallica. Toco sertanejo, pop... Menos pagode. Aí não, pagode não é para mim.
Terra: Na sua infância, você via no futebol - ou como lutador ou músico - a chance de ajudar no sustento da tua família?
Nei:
Eu vim de família muito humilde, cheguei a passar fome. Já trabalhei de pedreiro, segurança, garçom, e para mim isto foi sempre um aprendizado. Sempre falei para minha mãe: "um dia eu vou dar uma casa de presente para a senhora". Eu sempre tive a minha mãe como inspiração na vida, é um anjo que me mantém forte. Quando eu estou com dor, é nela que eu penso; sempre que eu vou jogar, é nela que eu penso, porque a gente sofreu bastante, e eu disse: "eu vou te dar uma casa de presente". E graças a Deus, eu consegui realizar o sonho dela e o meu.
Terra: Quantos irmãos você tem?
Nei:
Somos eu, meu irmão mais novo e uma irmã. Meu irmão é formado em educação física e faixa preta de muay thai, minha irmã estuda psicologia e eu comecei faculdade de educação física e tive que parar para ter que jogar. Lá em casa, a única briga que eu tenho é para todo mundo estudar. Minha mulher estuda arquitetura, meu filho vai começar a cursar educação física. Todo mundo tem que ser alguém para, quando eu parar de jogar, todo mundo ter um caminho para seguir.
Terra: E os filhos? Você adotou uma criança de 11 anos quando você tinha 20. Como foi esta decisão?
Nei:
Cara, no começo todo mundo foi contra, diziam que eu era muito novo para fazer isto, mas quando eu boto uma coisa na cabeça, é muito difícil de tirar. Eu dizia: "deixa para mim que eu dou um jeito". E hoje todo mundo que foi contra me parabeniza pela maneira que eu eduquei o meu filho. Sempre tive o desejo de adotar uma criança. E agora vem a minha filha, a Laura; aí, o Victor, que é meu filho, vai ter que cuidar.
Terra: Quando você machucou o joelho pela primeira vez (Nei rompeu todos os ligamentos do joelho direito quando atuava pelo Atlético-PR), o que os médicos te falaram?
Nei:
Graças a Deus, eu sou um cara que sou muito forte. Tenho muita força - porque, se não tivesse, eu não estaria mais jogando. São seis cirurgias no mesmo joelho. A primeira vez, eu rompi todos os ligamentos no joelho, e o médico disse que eu não voltaria mais a jogar; depois de 11 meses tratando, eu voltei a jogar, sempre como titular. Depois mais cinco cirurgias: três no Atlético-PR e duas aqui no Inter. Então a gente vai levando até onde aguenta. Eu, depois da primeira cirurgia, tentei falar com o médico que disse que eu não ia mais jogar, mas ele não me atendeu. Ia mandar um abraço - foi mais uma motivação para superar as dificuldades.
Terra: Jogar na Europa é um sonho?
Nei:
Já foi um sonho muito grande, como foi a Seleção. Hoje, não. Eu estou em um lugar muito bom, em um dos melhores clubes do Brasil, todo mundo me conhece e respeita. Minha filha vai nascer agora, estou tranquilo aqui. Tive muitas propostas para sair, mas hoje eu não trocaria o Inter por um time da Europa para ganhar 10% a mais do que eu ganho. Para sair, tem que ganhar o triplo do que ganho aqui. Senão, não vale.
Terra: Quando parar de jogar, o que você vai querer fazer?
Nei:
É cedo para falar, mas duas coisas eu tenho certeza que eu vou fazer: concluir a minha faculdade de educação física e cursar a faculdade de música. Isto é certeza. Se eu vou voltar a trabalhar com futebol, eu não sei, mas primeiro eu vou terminar as minhas faculdades.