Coreano do Manchester comeu rã para virar atleta
Park Ji-sung, o incansável meio-campista sul-coreano do Manchester United, porta o apelido "três pulmões", por seu notável fôlego. É uma referência à sua movimentação ininterrupta em campo mas também um testemunho de sua perseverança apesar das fragilidades da juventude, da insegurança cultural, do ceticismo com que foi recebido na Europa, das decepções pessoais e de uma dieta que muita gente consideraria exótica ou repulsiva. » Saiba tudo do duelo Messi x C. Ronaldo
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Na noite de quarta-feira, Park deve se tornar o primeiro asiático a participar de uma final da Copa dos Campeões, quando o Manchester entrar em campo contra o Barcelona em Roma. Um ano atrás, em uma semifinal contra a mesma equipe, Park transformou a partida em maratona pessoal, correndo mais de 10 quilômetros em campo. Mas terminou fora do time para a final vitoriosa contra o Chelsea, e até hoje define ter sido preterido na escalação para o jogo disputado em Moscou como "a maior decepção de minha carreira".
A hora do sul-coreano
Depois da segunda partida das semifinais deste ano, duas semanas atrás, quando Park marcou um gol e deu assistência para outro em uma vitória sobre o Arsenal que conduziu o Manchester a uma nova final da Copa dos Campeões, o técnico Alex Ferguson declarou que "não creio que ele vá se decepcionar desta vez". Ferguson classificou Park, 28, como um dos "mais subestimados jogadores do futebol", um grande elogio para um atleta que, no passado, parecia ser apenas um dos futebolistas mais subnutridos.
A história que costuma ser contada sobre Park é a de que, quando menino, ele era muito determinado mas franzino, e por isso seu pai aceitou emprego em um açougue para obter carne de boa qualidade e rãs, cozidas em uma sopa nada apetitosa que supostamente deveria ajudar em seu crescimento, de acordo com uma tradicional receita coreana.
"Eu ocasionalmente vomitava porque o gosto era horrível, mas eu persistia, porque minha vontade de me tornar um futebolista melhor era maior que a de comer alimentos saborosos a cada dia", declarou Park, que hoje tem 1,80 metro, em um documentário recente sobre sua vida. "Eu estava disposto a qualquer coisa para me tornar um jogador melhor".
Todas as flexões que ele fazia sozinho e sem ordens, todo o tempo adicional que ele dedicou a melhorar seu passe, todas as corridas, todas as refeições envolvendo sabores repulsivos como o do extrato de rãs, terminaram por ajudá-lo a superar as dúvidas dos treinadores, que imaginavam que ele fosse pequeno demais para tentar carreira no futebol depois do juvenil. Depois de muitas rejeições, ele conseguiu uma vaga em uma universidade, foi contratado por um time japonês e, em 2002, por fim atraiu as atenções internacionais na Copa do Mundo do Japão e Coréia do Sul.
Até então, a seleção de seu país jamais havia vencido uma partida em Copa do Mundo, o maior evento esportivo mundial. Mas inspirados pelo técnico holandês Guus Hiddink, os "diabos vermelhos" da equipe sul-coreana chegaram às semifinais e conquistaram a atenção do país, se transformando em motivo de orgulho nacional. Milhões de torcedores saíam às ruas para assistir às partidas da equipe em telões. As palavras de Hiddink eram transmitidas aos trabalhadores das empresas sul-coreanas. A recompensa do técnico pelo sucesso, de acordo com reportagens, inclui cidadania honorária do país, passagens aéreas grátis para suas visitas e uma casa de férias em uma ilha particular.
Park marcou o gol da vitória contra Portugal na fase de grupos, conduzindo a Coréia do Sul às oitavas-de-final. Ele e seus colegas praticavam um futebol de rapidez e esforço, e saíram vitoriosos, permitindo que o país deixasse de lado as preocupações e desfrutasse de um momento de orgulho.
O salto de Park
A equipe terminou derrotada nas semifinais pela Alemanha, mas o desempenho de Park impressionou Hiddink a ponto de levá-lo consigo para o PSV Eindhoven, na Holanda. Mas o ajuste ao futebol europeu, em 2002, foi um período difícil para ele. Park lesionou um joelho pouco depois de chegar à Holanda. Era vaiado pela torcida.
Mas seu joelho terminou curado, e a opinião negativa dos fãs sobre ele acabou por mudar quando o PSV chegou às semifinais da Copa dos Campeões em 2005. Park, antes alvo de apupos, se tornou alvo de uma canção da torcida em sua homenagem. Naquele mesmo ano, ele se transferiu ao Manchester. Seu pai o encorajou a aceitar a proposta, porque mesmo um lugar no banco do mais prestigioso time de futebol do mundo seria uma honra.
O ceticismo persistiu, inicialmente. Havia quem achasse que era tudo um truque de marketing para promover a venda de camisas do Manchester United na Ásia. Mas ele terminou por se provar um membro popular, ainda que discreto, no vitorioso clube inglês. "Park também despertou imenso orgulho em seu país ao ajudar a pôr fim aos velhos preconceitos de que jogadores asiáticos não eram talentosos o bastante para jogar nas grandes ligas internacionais", afirmou o jornal londrino Daily Telegraph em artigo sobre ele na semana passada.
Ainda assim, Park prefere se manter discreto fora dos gramados. Ele não deseja ser famoso ou popular, disse o jogador a jornalistas recentemente. Quer apenas ser um bom futebolista - e usou a frustração de ficar de fora da final passada da Copa dos Campeões como incentivo. "Continuei trabalhando e por fim tenho uma nova oportunidade", declarou.
Tradução: Paulo Migliacci