Simeone: nascido para treinar e aguerrido para vencer tudo
Era uma vez um treinador muito simples, franco e democrático. Chamava-se Luigi Simoni e treinava a Inter de Milão em 1998. Antes de cada jogo, ele chamava os jogadores individualmente e anunciava como pretendia escalar o time. Ninguém dava palpite. "Você decide, professor". Mas um dos jogadores era exceção: Diego Simeone, um meio-campista argentino de 28 anos, sempre dava palpites. Ganhou até fama de escalar o time no lugar de Luigi, o que gerou um ambiente ruim no elenco. Mas a história, contada pelo ex-jogador Zé Elias ao Terra, prova que Simeone sempre teve potencial para ser técnico. Porém, para entender como esse potencial virou sucesso é preciso fazer uma viagem ainda maior no tempo.
1992 a 1998: época de aprender e ensinar
Em 1992, o técnico Carlos Bilardo estava no comando do Sevilla e precisava de um volante. Lembrou do jovem Simeone, um jogador aguerrido que ele convocou para a seleção argentina anos antes. Não foi difícil tirá-lo do Pisa, um time minúsculo da Itália. Custou pouco e rendeu muito: após uma ótima temporada em 1994, Simeone chamou atenção e foi contratado por um clube maior: por 2,7 milhões de euros (R$ 9 milhões) o Atlético de Madrid começou a contar com um argentino que entraria para sua história. Duas vezes.
Depois de um primeiro ano ruim, Simeone ajudou a equipe a conseguir o que parecia improvável: o título espanhol de 1996, um feito que, desde então, o Atlético não conseguiu repetir - pode ser campeão neste sábado, mas não vamos interromper a viagem ao tempo.
Em 1994, Simeone partiu então para a Itália, onde atuou pela Inter de Milão e conviveu com estrelas, como Iván Zamorano, e jovens promessas, como o lateral esquerdo brasileiro Gilberto. Mesmo há 17 anos, ambos percebiam, na época, o potencial do argentino para ser técnico: "Na concentração o hobby dele era montar time que ia jogar no dia seguinte", afirmou o chileno. "Sempre foi um cara de muita personalidade e se cobrava, como cobra os jogadores dele hoje", analisou Gilberto.
Apesar da seriedade, Simeone também foi coadjuvante em histórias engraçadas: "durante os treinos, ele ficava treinando cobranças de falta com o Zanetti e o Zamorano. Mas quando chegava no jogo, o Ronaldo dava um 'migué', chegava e chutava. Os caras ficavam p..., mas o Simeone só olhava para não atrapalhar o time", lembrou Zé Elias.
De 1999 a 2012: estágio e a formatura
Depois de "treinar" a equipe de Luigi em 1998, podemos acelerar a viagem no tempo: Simeone jogou mais quatro anos, pela Lazio, e voltou para a Argentina, onde se aposentou pelo Racing, em dezembro de 2005. Nem precisou estudar para virar treinador. Não precisava. Tinha nascido para isso.
"Ele era um técnico dentro de campo. Posicionava todo mundo e dava dicas. Uma vez me disse para deixar o adversário bater uma, duas vezes... mas na terceira, quando ele achar que está forte, dar uma chegada bem dura mesmo", contou Zé Elias, entre risadas.
Após o começo da carreira no Racing, o argentino foi campeão argentino no Estudiantes (Apertura 2006) e no River Plate (Clausura 2008). Treinou também o San Lorenzo. Montou um currículo expressivo para treinar um time europeu. O RH do Catania aprovou a ideia em 2010, o que foi decisivo para salvar o time do rebaixamento. Mas o grande sucesso na Europa começou em 2012.
2012 a 2014: tempo para vencer tudo
Nem é preciso detalhar os três títulos conquistados por Simeone no Atlético de Madrid (Liga Europa, Copa do Rei e Supercopa Espanhola) para entender as razões do sucesso do argentino. Basta ouvir o que seus comandados têm para falar. Ou então seu comandante.
"Ele cobra muita vontade nos treinos. Antes não era assim, não tinha essa entrega", revelou o zagueiro Miranda. "Ele pensa sempre em ganhar os jogos e só escolhe os melhores para o jogo seguinte", lembrou o lateral Filipe Luis. "É o melhor técnico do mundo", decretou Enrique Cerezo, presidente do Atlético de Madrid.
Os elogios rasgados não são à toa: além dos títulos e da raça agregadas ao Atlético de Madrid, Simeone é um técnico inteligente. Faz seu time marcar como poucos, contra-atacar de forma letal e ter ferramentas para controlar o jogo quando precisa. Isso é resultado de um temperamento diferente, revelado por quem jogou com ele. "Hoje vejo ele mais tranquilo do que quando era jogador", observou Gilberto. "Agora ele não precisa se preocupar com as jogadas mais ríspidas", divertiu-se Zé Elias.
De 2014 em diante: hora de deixar a herança
Era uma vez um treinador ambicioso, aguerrido e vencedor. Chamava-se Diego Simeone. Ele podia ser campeão nacional e continental em uma semana e, mais do que isso, se tornar um exemplo de como respirar e amar o futebol. O final dessa história ainda será fechado. Mas também não afetará a carreira de Simeone, que ainda deixará um legado ao esporte: tem três filhos e todos jogam no River Plate - Giovanni (18 anos, profissional), Gianluca (15 anos) e Giuliano (11). É evidente que a viagem no tempo dos Simeones não vai acabar tão cedo.