Flamengo quer proteção do STF para negócio que ajudou a inflar
Rubro-Negro tenta preservar receitas milionárias das bets
O Flamengo participará de audiência no STF para defender a manutenção de contratos com casas de apostas diante de restrições regulatórias. Dono de um acordo milionário de R$ 268,5 milhões anuais com a Betano, o clube busca segurança jurídica para proteger seus ganhos. Contudo, a postura revela uma contradição: após impulsionar o setor e aceitar a dependência financeira dessas empresas, o Rubro-Negro agora recorre ao Judiciário para resguardar um cenário de risco que seus próprios dirigentes criaram.
O Flamengo se acostumou a apresentar sua força comercial como exemplo para o futebol brasileiro. Quando o assunto são as bets, entretanto, essa narrativa ganha contornos inconvenientes. O clube ajudou a inflar esse mercado, incorporou receitas milionárias ao orçamento e agora espera que o poder público proteja as condições que sustentam esse negócio.
A Betano é patrocinadora máster rubro-negra. O acordo pode representar R$ 268,5 milhões por ano, considerando as propriedades comerciais previstas.
É uma receita extraordinária. Mas também é um retrato da dependência que os dirigentes aceitaram construir.
Em 3 de novembro, o Flamengo participará da audiência pública convocada pelo ministro Luiz Fux, no Supremo Tribunal Federal. A pauta envolve as restrições ao mercado de apostas e os efeitos sobre os contratos comerciais.
O clube tem direito de defender seus interesses. O problema é a seletividade do discurso: quando as bets despejam dinheiro nos cofres, a relação é apresentada como demonstração de força comercial. Quando a regulação ameaça esse fluxo, a preocupação passa a ser a sobrevivência dos contratos.
O Flamengo quer segurança jurídica para receber. Mas onde estava a mesma preocupação quando o futebol se tornou dependente de um setor sujeito a mudanças regulatórias?
Não foi o governo que obrigou os clubes a transformar as casas de apostas em protagonistas de suas estratégias comerciais. Foram os próprios dirigentes que abriram espaço nas camisas, nas competições e nas propriedades de marketing, seduzidos por contratos cada vez maiores.
O Rubro-Negro participou ativamente dessa corrida. Agora, tenta preservar seus ganhos sem enfrentar com a mesma disposição a discussão sobre os riscos do modelo.
A força financeira não elimina a contradição
A audiência reunirá dez clubes, entre eles Fluminense, Botafogo, Cruzeiro, São Paulo e Corinthians. A CBF, representantes do governo e entidades do setor também estarão presentes. O Palmeiras ficou fora da lista.
A discussão envolve seis ações diretas de inconstitucionalidade. A audiência não representa uma decisão definitiva do STF nem suspende automaticamente as restrições.
O governo precisa justificar suas medidas. Os clubes podem questionar seus efeitos econômicos e jurídicos. Mas o debate não deveria servir para transformar interesses comerciais particulares em uma suposta defesa irrestrita do futebol.
O Flamengo, especialmente, precisa olhar para a própria responsabilidade. Um clube que movimenta cifras bilionárias, reivindica protagonismo institucional e cobra respeito à sua dimensão econômica não pode agir como se fosse incapaz de construir alternativas de receita.
É cômodo celebrar a capacidade de fechar um contrato de R$ 268,5 milhões. Menos confortável é admitir que uma parcela tão expressiva do planejamento comercial ficou exposta às decisões de um único segmento.
O Rubro-Negro quer que o STF proteja o ambiente que lhe proporciona uma receita milionária. Mas não pode cobrar do Judiciário uma solução para a dependência que seus próprios dirigentes ajudaram a alimentar.
O Flamengo não é apenas parte interessada nessa discussão. É também parte responsável pelo cenário que agora contesta.
E essa é a contradição que nenhum argumento jurídico deveria esconder.
(*) Wilson Pimentel é jornalista, radialista, empresário e sócio-fundador da Agência RTI Esporte.
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