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Croácia e Sérvia se enfrentam 20 anos depois da guerra

22 mar 2013
11h04
atualizado às 17h49

Nesta sexta-feira, Croácia e Sérvia jogam pelo Grupo A das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2014, no Estádio Maksimir, em Zagreb, na Croácia. Duas das seis repúblicas da ex-Iugoslávia, os dois países estiveram envolvidos num grave conflito no início dos anos 1990, e tiveram maciças perdas humanas e materiais e, em consequência disso, ainda mantêm relações diplomáticas muito difíceis. Desde então, essa será a primeira partida de futebol entre eles.

Além disso, nos últimos anos, torcedores dos dois países têm se envolvido em casos de violência em estádios dentro e fora de suas fronteiras.

Na semana passada, o presidente da UEFA, Michel Platini, fez um apelo pessoal aos primeiros-ministros da Sérvia e da Croácia, para que “unam esforços para deter rapidamente e de uma vez por todas o problema da violência que cerca o futebol.”

Em uma mensagem aos dois líderes, o sérvio Ivica Dacic e o croata Zoran Milanovic, Platini demonstrou a preocupação da entidade com a aproximação da partida envolvendo as duas seleções pelas Eliminatórias nesta sexta-feira.

A FIFA também tomou medidas para se precaver. Tanto que para organizar os dois jogos entre Croácia e Sérvia pelas Eliminatórias (em 22/3, em Zagreb, e em 6/9, em Belgrado), a entidade se reuniu com representantes das federações dos dois países e autoridades locais, além de delegados da UEFA, para discutir medidas de segurança.

Croatas se confraternizam do lado de fora do estádio (FOTO: Dimitar Dilkoff/AFP)Ficou decidido que nas duas partidas não haveria torcida visitante, foram limitadas a venda de ingressos em lotes e a capacidade dos estádios foi reduzida. No início de março, o presidente do comitê de segurança da UEFA, o eslovaco Frantisek Laurinec, se reuniu com os representantes croatas para conferir se o plano segurança foi cumprido.

Laurinec vistoriou o Estádio Maksimir. Dos 60 mil lugares originais, apenas 50 mil foram liberados para a venda (e todos já vendidos).

A Federação Croata confirmou que nenhum torcedor visitante será admitido em Zagreb. O chefe de segurança da federação, Zoran Crvk diz que presença de agentes de segurança durante a partida será o maior para um evento esportivo na história do país.

- A Polícia de Zagreb e o Ministério da Administração Interna vai ter a última palavra sobre quase tudo que vai acontecer a partir de quarta-feira na cidade - afirmou Crvk.

- Nesse dia, vamos informar ao público quais os serviços irão funcionar, como será o esquema especial de transporte e os horários. Temos trabalhado nesse plano nos últimos dois meses.

O membro do comitê executivo da UEFA e delegado do comitê de segurança dos estádios, o ucraniano Grigorij Surkis, falou sobre a instabilidade do futebol nos Balcãs, e alertou para a importância do jogo em Zagreb, para o futuro dos clubes e da seleção do país, principalmente, para a Croácia, que recebe a partida.

- Essa é uma questão muito sensível e está sendo abordada com a maior seriedade e urgência. O futuro do futebol croata depende em grande parte dele. Se houver problemas de segurança dentro ou fora do estádio, não está afastada a possibilidade de haver punições contra a federação e as equipes croatas, que incluem a eliminação de competições internacionais.

O vice-ministro de Esportes da Croácia Petar Skansi confirmou o comprometimento do governo com as medidas de segurança para realizar a partida.

- Um esquema sem precedentes de segurança foi montado, com a participação da polícia e do exército. A torcida, a população, a imprensa e a comunidade internacional podem estar tranquilas. As autoridades terão todos os meios para garantir a segurança da partida.

Do campo pra dentro ou da boca pra fora?

No início dessa semana, os técnicos das duas seleções, Igor Štimac e Sinisa Mihajlovi?, participaram de um esforço conjunto para reduzir os riscos que o jogo envolve e, em uma entrevista programada pelas federações dos dois países e transmitida pelas TVs nos dois países e no site da UEFA, minimizaram a importância do resultado da partida para a definição do Grupo

A. Apesar da certeza do ambiente efusivo no Estádio Maksimir, os dois disseram encarar o jogo como qualquer outro – pelo menos publicamente.

A seleção da casa, que divide a liderança do Grupo A, com a Bélgica (com dez pontos em quatro jogos), enquanto a Sérvia se mantém em terceiro com apenas quatro pontos. Štimac sabe que uma vitória pode levar seu time a liderança do grupo,

dependendo do resultado da Bélgica, que enfrenta a Macedônia, em Skpoje. Mesmo assim, o antigo zagueiro da seleção, croata acredita que o jogo não é “decisivo” para nenhuma das equipes.

- Todos os jogos valem o mesmo número de pontos e todos os adversários são muito difíceis. Pela primeira vez estamos num grupo onde nenhum time pode ser considerado zebra - disse Štimac, cuja equipe derrotou a Macedónia (duas vezes) e País de Gales e empatou com a Bélgica, nos quatro jogos realizados até ao momento.

Para o presidente da Federação Croata de Futebol, o ex-jogador e maior ídolo da história do futebol do país, Davor Suker, tudo deve ser resolvido dentro de campo.

- O único interesse da Federação são os torcedores nos estádios e os resultados dentro de campo. Eu já vesti essa camisa, já carreguei essa bandeira nos bons e nos maus momentos. E acho, sinceramente, que não devemos nos envolver com o que aconteceu há 20 anos. Como dirigentes, como cidadãos e como atletas, temos que fazer tudo para que a cada jogo e, portanto, contra a Sérvia, nossa seleção dê mais um passo em direção à elite do futebol. E, independente da tragédia, da guerra que nossos países viveram, vamos mostrar respeito pelos adversários.

O treinador sérvio Siniša Mihajlovic também minimizou a importância do clássico:

- Um jogo contra a Croácia é igual a um contra a Bélgica. Se ganharmo ssoma-se três pontos. Se valesse seis, aí então tudo seria diferente.

No entanto, o que não se discute é a necessidade da Sérvia em vencer na capital croata. A equipe de Mihajlovic tem apenas uma vitória em quatro partidas (6-1 no País de Gales, em setembro). Por isso, com apenas quatro pontos, precisa desesperadamente da vitória. Ainda assim o antigo lateral-esquerdo da Iugoslávia acredita na classificação para a Copa no Brasil.

- Temos jogadores excelentes e vejo que eles estão melhorando a cada partida. Por isso me permito ser otimista.”

Darijo Srna, a voz do capitão croata

Um dos maiores ídolos do futebol do futebol na Croácia, o meia-direita Darijo Srna, jogador do Shakhtar Donetsk desde 2003, recentemente fez o 100º pela seleção croata, da qual é capitão, Homenageado nessa quarta-feira, às vésperas da partida contra a Sérvia pelas eliminatórias para a Copa, Srna falou sobre a importância do jogo não só para a seleção, mas para todo o futebol e para o futuro de seu país.

LANCE!Net: O que você espera do jogo contra a Sérvia. Além dos seis pontos de diferença e da luta pelas duas primeiras colocações, há toda a conotação política envolvendo os dois países. É uma partida especial para croata e sérvios?

SRNA: O jogo contra a Sérvia talvez tenha esse caráter decisivo por causa da tabela e, se ganharmos ficamos com boas chances de garantir pelo menos a segunda colocação. A Sérvia, por outro lado, estaria fora da corrida. Mas eu preciso enfatizar que a história entre os nossos dois países não vai mudar pelo que acontecer dentro de campo. Nenhum de nós pode mudar o passado, mas podemos influenciar o que acontece agora e daqui pra frente em nosso país. Precisamos dar um bom exemplo e fazer um grande jogo, sem escândalos. O adversário tem uma forte equipe e tenho muito respeito por ela.

L!Net: Você é o capitão. Isso faz com que assuma em campo uma responsabilidade especial?

S:O fato de eu ser o capitão da Croácia é um grande orgulho, é claro. Já faz algum tempo que exerço essa função, que conto com a confiança do treinador e dos meus companheiros e isso é realmente uma coisa que levo muito a sério. Afinal, ele acreditou na minha capacidade quando confiou a braçadeira a mim. Fico muito orgulhoso de representar o meu país, uma das melhores nações do mundo no futebol.

L!Net: Você recentemente disputou a sua centésima partida pela seleção, um marco para poucos. Qual é a importância disso nesse momento?

S: Procuro ajudar o time sempre. Passar tranquilidade. E, claro, ter bom desempenho. No momento, estou me sentindo no meu melhor momento, tanto fisicamente, quanto mentalmente. Me sinto no auge e ainda estou longe de estar velho para defender a seleção. Sempre lutei muito por cada coisa que conquistei na minha carreira e nunca desisti dos meus objetivos. E sou muito grato a todos que estiveram do meu lado. A todos os meus treinadores, a todos os meus companheiros dos times pelos quais passei... Pelas coisas que conquistei na vida. Com muitos a gente mantém contato, vira amigo, mesmo. Agora, sigo pensando no futuro e vejo o que vem pela frente de modo positivo.

L!Net: Desde 1998, na França, quando ficou em 3º não tem um grande resultado internacional. Até onde você acha que pode ir esse grupo?

S: A equipe de 1998 era formada por uma grande geração, com jogadores extraordinários. A terceira colocação no Mundial da França foi um resultado ótimo para um pequeno país como o nosso. Quando a Croácia ficou em terceiro na França, eu tinha 16 anos, e me lembro do impacto que isso representou para nós, que sonhávamos em ser profissionais. Desde então, o país tem tentado, mas sem sucesso repetir aquela campanha. Acho que muitas vezes nos faltou uma a dose certa de sorte necessária para chegar longe em um torneio. Por exemplo, nas quartas de final da Eurocopa 2008, quando perdemos por pouco da Turquia. Vejo e revejo aquele jogo e, sinceramente acho que podíamos ter vencido. Mas a minha confiança na equipe segue inabalável, até porque atualmente também contamos com jogadores muito, muito bons.

L!Net: A Croácia ficou de fora da Copa 2010...

S: Ficar de fora em 2010 foi a maior decepção da minha carreira na seleção. A equipe e o treinador eram fantásticos, mas o futebol é assim... Não tivemos sorte. Agora precisamos pensar no futuro para não repetirmos os erros.

L!Net: Como você avalia as chances de classificação?

S: Acho que apesar de termos caído num grupo muito difícil fomos até agora nas primeiras partidas e precisamos manter esse ritmo se quisermos conseguir a classificação direta. Mas é difícil ficar em primeiro para evitar a repescagem, pois a Bélgica tem uma equipe fantástica, na minha opinião, a melhor da história do país. Demos tudo de nós em Bruxelas, fizemos um bom jogo e trouxemos um ponto. Acho que se os vencermos em casa podemos ficar com a vaga.

L!Net: E depois da Copa? Você ainda espera jogar na Croácia?

S: Donetsky tem sido durante muito tempo minha segunda casa, minha família e eu somos muito felizes aqui. Gostaria de encerrar a minha carreira na Ucrânia. Depois pretendo voltar para o time da minha cidade, o Hajduk Split e retribuir de alguma forma, seja como treinador, ou como eu puder ajudar um pouco tudo o que a equipe me deu quando eu era jovem e estava começando.

Mihajlovic: “Escolhi ser técnico da Sérvia porque sabia que iria enfrentar a Croácia”

O atual técnico da Sérvia, Sinisa Mihajlovic, era o zagueiro da seleção da Iugoslávia, que enfrentava a Croácia, de Suker e Boksic, que vinha de um terceiro lugar na Copa da França. O jogo em Zagreb valia a classificação para a Eurocopa 2000, na Holanda. Filho de mãe croata e pai sérvio Mihajlovic, que se destacou no Estrela Vermelha (em Belgrado, então no lado sérvio

da Iugoslávia) e se transferiu para o Roma em 1991, bem quando o conflito começou a aumentar no país. Na Itália, fez carreira passando por Sampdoria, Lazio até se aposentar na Inter em 2004, onde começou como técnico, falou de sua casa na capital italiana, sobre aquele jogo, sobre suas lembranças da guerra e suas expectativas para o futuro.

L!Net: Você participou do jogo entre Iugoslávia e Croácia, em 1999? Como foi o clima para aquele jogo?

Mihajlovic: Bem, eu vou te dizer, lembro a data - 9 de outubro de 1999: a gente jogava como Iugoslávia, cantava o hino, levava a bandeira da Iugoslávia, mas quase todos os jogadores e o técnico eram da Sérvia. Pra ser exato tínhamos três jogadores montenegrinos, um deles jogou naquela partida, o Mijatovic, que, aliás, fez o nosso primeiro gol. E foi a primeira e única vez após a guerra, que nós nos encontramos com a Croácia. Era a partida decisiva para a classificação para a Eurocopa do ano seguinte... O estádio em Zagreb era um vulcão. Os jogadores, torcedores, todos tínhamos a guerra bem viva sob a pele. Os hinos que vinham das arquibancadas eram os mesmos que eles cantavam nas trincheiras durante a guerra. Em campo havia ex-companheiros de seleção nacional, só que dessa vez do outro lado. E a Croácia havia sido terceira colocada na França. Era um time forte, orgulhoso... Eles eram favoritos.

L!Net: Havia muita segurança envolvida, não é?

M: Havia agentes da polícia a cada metro dando a volta em toda a arquibancada, você não acredita. Toda vez que você ia bater lateral ou escanteio voavam coisas em você. O jogo teve que parar várias vezes para que fossem retirados sinais luminosos lançados no gramado. Mas foi um jogo emocionante, saímos atrás e viramos o placar. Para mim, pessoalmente, foi um dos melhores jogos que fiz na minha carreira, chutei uma bola na trave e fiz as assistências para os dois gols de Mijatovic e Stankovic: e, no final, o 2-2 nos deu a classificação e eliminou a Croácia. Os jornais sérvios me deram nota “10” no dia seguinte e muitos analistas consideram aquele o maior jogo da minha carreira. Eu nunca vou esquecer.

L!Net: E como aquele jogo se compara a esse de sexta-feira. A rivalidade ainda é a mesma?

M: Olha... É claro que há uma motivação. Quando eu concordei em assumir a seleção ano passado, em parte foi porque eu sabia que eu teria esse duplo desafio: o de classificar meu país para a Copa e o de enfrentar a Croácia no caminho. Eu daria alguns anos da minha para entrar em campo nesse jogo. Eu não precisava nem ganhar, apenas para jogá-lo. E espero passar para meu time pelo menos uma parte desse desejo.

L!Net: Mas em relação ao clima de guerra...

M: Há um intervalo de tempo muito grande entre aquele jogo e esse. Aquele parecia uma continuação da guerra, vou ser sincero. Havia veteranos em cadeiras de rodas colocados na pista de atletismo para assistir à partida... Quando a bola saia na lateral, às vezes se chocava com eles... Hoje a maioria dos jogadores que vai a campo cresceu longe daquele ambiente, nunca viveu o conflito. Claro que a guerra é parte da história deles, ou da família, mas isso vai ficando mais distante, cada vez menos presente na vida deles. Parte dos torcedores que viveu aquela época ainda têm feridas e cicatrizes e sempre vai descarregar no futebol essas frustrações. Mas isso é apenas um esporte. E esses dois times vão a campo apesar de seu passado, não para enfrenta-lo, corrigi-lo, ou nos vingarmos. Para a grande maioria dos jogadores essa é apenas uma partida, mais uma de um campeonato que precisamos vencer, não para derrotar a Croácia, não para provar nada, mas para buscar melhorar

nossa situação na classificação e, no final, correr atrás de uma vaga para a Copa. No final, o que falamos entre quatro paredes no hotel, é que temos 4 pontos, e que Croácia e Bélgica têm 10. Se vencermos, tiramos 3 pontos dessa vantagem

L!Net: A guerra afetou você, diretamente, né?

M: As guerras, todas as guerras, são ruins, é claro. Mas uma guerra civil como foi a nossa é bem pior eu acho. Pessoas que cresceram juntos acabam atirando uns nos outros, famílias são divididas, destruídas no período de semanas. Eu vi meu povo cair, nossas cidades serem arrasadas... Irem para o chão em questão de dias, bombas explodindo em hospitais, escolas, porque

numa guerra dessas só existem alvos civis. A família da minha melhor amiga saqueou a minha casa. Quando meus pais deixaram Vukovar em direção Belgrado, meu tio, irmão da minha mãe, que é croata, a chamou de traidora e dizia ‘por que você fugiu e que ela tinha que ter ficado para ajudar a matar o marido, o porco da Sérvia’. Meses depois, esse meu tio foi capturado por

Arkan Zeljko Raznatovic, paramilitar sérvio acusado de crimes de guerra, entre eles o de executar milhares de civis croatas], e estava prestes a ser morto, mas encontraram com ele o meu número de telefone celular. Eu já era um jogador

famoso, do Estrela Vermelha e da seleção da Iugoslávia, estava sendo negociado com o Roma e ser ligado a de mim, e eu era capaz de salvar vida. A guerra civil tem essas particularidades.

L!Net: Você saiu da Iugoslávia em 1992, no meio do conflito. Quais eram suas relações com os personagens do conflito na época?

M: Eu já fui muito criticado por falar de Arkan. Sempre disse que numa guerra civil sempre há uma zona cinzenta e que as coisas se confundem e se misturam. E do lado de fora do conflito, sentado no sofá, é fácil aponta o dedo porque não se enxerga o que estava realmente acontecendo. Arkan era meu amigo, mas eu não vou defender seus atos violentos, pelo contrário, sei que há um lado dele que é indefensável e que, como todos aqueles que são comprometidos com o direito, com a lei, têm que condenar: é o lado de Arkan, o tigre, o açougueiro. Arkan era um amigo e eu era jovem, jogava no Estrela Vermelha e ele era o encarregado de lidar com os sócios. Mas, durante a guerra Arkan defendeu os sérvios na Croácia, que estavam prestes a ser massacrados. Para esses sérvios, Arkan foi um herói. Mas, é claro, eu não vou defender seus

crimes. Como todos os crimes cometidos de lado a lado. Numa guerra civil, não há os bons e os maus. Não há preto e branco. E a cor predominante, no final, é sempre o vermelho do sangue dos inocentes. A guerra na Iugoslávia tem muitos culpados. Muitos. E nenhum herói. Choramos todos. E perdemos todos. Agora, depois de enterrados os corpos é hora de enterrar o ódio e ressentimento.

L!Net: Você hoje é embaixador da UNICEF e faz muito para órfãos e veteranos de guerra. Você já visitou os antigos locais das batalhas?

M: Já fui a alguns lugares que conheci durante a guerra. Levamos remédios, roupas, alimentos a Novi Sad, onde recebi um título de cidadão honorário. Mas em Vukovar [a cidade ficou do lado Croata após o conflito], onde nasci, estive pela última vez em 1991. Foi arrasada. Eu não conseguia nem me orientar. Havia apenas esqueletos de prédios e sucata de máquinas empilhadas para criar trincheiras. Nem um pássaro, um cachorro... Nada. Lembro de dois meninos de uns 10 ou 12 anos com metralhadoras nos braços. Nunca mais voltei a Vukovar. Eu não poderia. Mas o que eu senti, acho que um croata poderia dizer que sente quando vê suas cidades destruídas. Nós experimentamos uma história juntos. E choramos e perdemos tudo juntos. Agora, depois de tudo é hora de enterrar o ódio e ressentimento. Sérvios e Croatas nunca viverão mais juntos, mas devem perceber que para avançar, mesmo que separados, têm que superar esse momento crítico de sua história e deixá-lo no passado. E se o jogo de sexta-feira for disputado em nome da justiça, dentro e fora de campo, Croácia e Sérvia terão vencido ambos, independente do resultado.

L!Net: Qual o seu objetivo como técnico?

M: Eu tenho dois objetivos agora. Quero levar a Sérvia até a Copa do Mundo no Brasil, quero inaugurar uma nova cultura no futebol sérvio baseada no fair play, para dar uma imagem positiva do nosso futebol. Talvez trabalhar junto às categorias de base, mas que conte com a participação dos clubes, federação, imprensa, torcidas organizadas, todos, por que só assim poderemos reverter os problemas causados em anos de excessos, violência, fraudes etc. O primeiro objetivo passa pelo desafio na sexta-feira. O segundo eu já estou trabalhando no âmbito da seleção: temos o mais jovem time nacional na Europa, com uma média de idade entre 22 e 23 anos e, a partir deles, eles estamos fazendo todo um trabalho para conscientizar esses jogadores em relação aos padrões de conduta e comportamento que gostaríamos de ver espalhados pelo ambiente do futebol.

L!Net: Que tipo de conduta?

M: Vou te dar um exemplo. Quando assumi havia a questão do hino, que nossos jogadores custavam a cantar. Essa era uma questão delicada para mim, porque quando eu jogava pela Iugoslávia nossos próprios torcedores vaiavam nosso hino, símbolo de uma união, que muitos não queriam. E, pior, quando acaba o hino da Iugoslávia, os radicais nacionalistas cantavam o hino da

Sérvia. Sentíamos que saíamos em desvantagem tendo nosso hino vaiado. Por isso quando assumi propus um acordo com os jogadores, funcionários, dirigentes técnicos para que todos cantassem nosso hino e todos toparam. E, na mesma medida, para que todos aplaudissem o hino dos adversários. E na primeira oportunidade Adem Ljajic, que havia se comprometido conosco, se

negou a cantar. E aí vem o tipo de conduta que nós passamos a esperar dos nossos atletas. Eu não posso mais olhar apenas para o talento, tenho que olhar para o homem que estamos formando através do esporte. E no homem em que eu posso confiar. Ao cantar o hino eu me comprometo. Ao aplaudir o hino do meu adversário eu o respeito e, esse será o caso com o hino croata. E se algum jogador do time não o fizer na sexta-feira será excluído da seleção por conduta antidesportiva.

Fonte: Lancepress! Lancepress!
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