Estrutura na América do Sul dificulta vida do torcedor para jogo único nas finais continentais
Rede hoteleira e malha aérea distante do nível europeu são pontos fundamentais no alto custo para quem quer acompanhar decisão da Copa sul-americana e da Libertadores
Decisão em uma única partida sempre fez parte da lembrança do brasileiro em Copas do Mundo. No âmbito dos clubes, o torcedor nacional sempre acompanhou tais eventos de maneira distante, lá no futebol europeu. A rotina mudou a partir de 2019, quando a Conmebol adotou o mesmo modelo da Uefa para definir o campeão da Libertadores e da Sul-Americana.
No entanto, a medida não agradou aquele seguidor mais fiel, de presença semanal no estádio. O principal compromisso da temporada, aquele ingresso mais aguardado de todos, foi transferido de seu quintal para distâncias e valores inacessíveis.
"Modelo de final única na Europa funciona bem, porque há vários países que possuem diversos estádios de qualidade, rede hoteleira e malha aérea gigantes. Na América do Sul, a maioria dos países não possui uma arena nível Europa, a rede hoteleira é muito restrita em alguns países e a malha aérea muito menor. Quem acaba pagando essa conta é o torcedor, que quer ver o seu time e muitas vezes não tem uma oferta de voos grande e nem um número de hotéis razoáveis, e acaba ficando tudo muito caro", explica Fábio Wolff, especialista em Marketing Esportivo, novos negócios e novas tecnologias do esporte.
O são-paulino que quis apoiar a equipe de Rogério Ceni na final da Copa Sul-Americana, neste sábado, contra o Independiente Del Valle, em Córdoba, na Argentina, desembolsou aproximadamente entre R$ 5 mil a R$ 9 mil somente com ingresso e passagem aérea. Caso opte por permanecer alguns dias no país, o custo aumentará consideravelmente com hotel, traslado e alimentação.
Há torcedores que estão preferindo ir de carro ou ônibus para economizar a passagem, mas estão levando de 25h a 30h para percorrer os 2.357 km na estrada. Para aqueles que têm melhor condição financeira, agências oferecem tudo por uma média de R$ 17 mil.
O Independiente Del Valle já adiantou que sua torcida não comparecerá em peso e devolveu 12.500 ingressos. O São Paulo terá maioria nas arquibancadas, mas não aproveitará toda a carga, então o estádio Mário Kempes, que tem capacidade para 57 mil pessoas, deverá ter espaços vazios.
"A Conmebol vem tentando emplacar este modelo, com o qual nos acostumamos ver nas copas europeias. Mas, creio que este seja um processo que precisa passar por muitos ajustes ainda. Pensando comercialmente e em linhas gerais, uma final única pode ser um evento promovido de forma diferenciada, explorando novas oportunidades de mercado, atraindo grandes marcas, ativações e ações pontuais, além de fomentar o turismo nas cidades-sede. Por outro lado, e antes de tudo, temos que pensar na experiência do torcedor. Na América do Sul, as condições de deslocamento, hospedagem e de logística em geral são bastante inferiores ao que vemos no continente europeu, sem falar na conversão do preço final dos ingressos. Tudo isso, naturalmente, acaba transformando a final única em um evento menos acessível para muitos", avalia Renê Salviano, especialista em Marketing Esportivo, com passagem pela direção do Cruzeiro.
Os rubro-negros, tanto de Flamengo quanto Athletico-PR, terão uma tarefa ainda mais árdua para apoiarem seus times na grande final da Copa Libertadores da América. A Conmebol agendou a atual edição para Guayaquil, no Equador, em duelo no dia 29 de outubro, no estádio Monumental. Os pacotes com tudo incluso variam entre R$ 16 mil a R$ 22 mil.
Além de todos os aspectos que envolvem o torcedor, há também um importante fator dentro das quatro linhas. A mudança de duas para uma única partida interfere no resultado esportivo da competição e favorece as equipes menos técnicas.
"Um campeão que sai de duas partidas disputadas é um campeão mais legítimo do que uma partida só. Em uma partida você pode ir bem ou mal, você pode fazer uma competição inteira muito bem jogada e fazer uma partida ruim. E aí você paga por uma competição inteira em uma partida. Pra mim, duas partidas fazem mais sentido, quando se jogam dois jogos e o campeão sai desses dois jogos", analisa Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports.
A Conmebol tira o controle dos clubes ao alterar o formato de ida e volta e passa a ditar as regras em único confronto. Os mandantes de cada estádio tinham maior poder com uma partida em cada local e cediam uma pequena cota à Conmebol. Hoje, a entidade sul-americana detém a maior parte dos bilhetes e cede uma pequena cota aos dois finalistas, encarecendo bastante o ingresso e limitando o acesso dos estrangeiros no país-sede.
SEM LOUCURAS
Sempre quando os principais clubes do Brasil estão envolvidos em decisões internacionais, vemos alguns personagens que sacrificam suas vidas pessoais ou profissionais para acompanhar de perto o momento histórico de sua amada equipe.
Alguns vendem carro, outros largam o emprego, e muitos fazem dívidas que perduram por anos. E muitas vezes o sujeito volta decepcionado, pois o resultado esportivo não foi o esperado.
Para Bruna Allemann, educadora financeira da Acordo Certo, empresa especializada em renegociação de dívidas, tudo deve ser muito planejado e o torcedor que está com o orçamento apertado pode ter meios de conter o prejuízo por lá.
"A pergunta que todo torcedor tem que fazer é: a viagem cabe no seu orçamento? O primeiro passo é sempre o de "quero ir", mas antes de tomar qualquer decisão se pergunte: eu posso ir? Se estiver em situação de inadimplência, tenha em mente que os custos de uma viagem podem ser usados para o pagamento de contas e dívidas mais urgentes", alerta Bruna, da Acordo Certo. "Se você realmente tem condições de ir, opte por meios de transporte e alimentação baratos para amenizar o gasto final. Pesquise opções de hostels e hotéis baratos longe do estádio, e veja as opções de trajeto e transporte público para o dia do jogo. Evite comprar comida perto dos pontos turísticos e gaste em supermercados - custo mais barato, promoções e maiores opções de comida. Dessa forma, o torcedor pode realizar seu sonho, sem entrar no vermelho."
No caso de Flamengo e Athletico-PR, o vencedor ainda proporcionará um outro sonho de viagem ao seu torcedor, o Mundial de Clubes da Fifa, que está programado para acontecer no início de 2023, sem local definido ainda, mas com possibilidades de o país-sede ser os Estados Unidos.
Se a conversão do dólar para o real também não alivia o bolso do brasileiro, ao menos o país tem boa estrutura e diversas opções para quem quiser se programar. No entanto, o planejamento deve começar o quanto antes, visando redução de gastos.