1978: Argentina de Kempes vence tensão política e "fantasmas"
- Julio Simões
O contexto político na Argentina nos anos 70 era o pior possível para a realização de uma Copa do Mundo no país. Em 1976, o general Jorge Rafael Videla tomou o poder e instaurou uma cruel ditadura, que duraria até 1983 e deixaria 30 mil desaparecidos políticos. Por isso mesmo, havia muita desconfiança e correntes contrárias à realização do evento no país, já que ninguém sabia como os militares poderiam usar o Mundial.
No meio desse turbilhão todo estava a seleção argentina, que, até então, havia conseguido como feito máximo apenas um vice em 1930, no Uruguai. Em 1974, o time havia sido eliminado ainda na segunda fase, após derrota por 4 a 0 para a Holanda de Cruyff, revés por 2 a 1 para o rival Brasil e, por fim, empate por 1 a 1 com a Alemanha Oriental. Mas em 1978 a história tinha tudo para ser diferente. Afinal, o Mundial era disputado em seu próprio território, diante de sua fanática torcida.
O início da seleção nacional foi tímido, mas eficaz. Na estreia, venceu a Hungria por 2 a 1, repetindo o placar em seguida com a França. Depois, perdeu a última partida da primeira fase para a Itália por 1 a 0, o que provocou o segundo lugar e a classificação para compor o grupo do Brasil, um de seus carrascos na última Copa. Além do rival histórico, Peru e Polônia também estavam na chave.
O time polonês, aliás, foi a primeira vitima argentina: 2 a 0. A segunda, no entanto, teria que ser o Brasil, caso a seleção da casa quisesse chegar ao título inédito. Mas três dias antes da decisiva partida, Cesar Luis Menotti, então técnico da seleção nacional, ainda tinha uma dúvida com relação ao time que seria escalado pelo adversário Cláudio Coutinho na partida que ficaria conhecida como a "Batalha de Rosário". E resolveu se consultar com o jornalista argentino radicado no país vizinho, Manolo Epelbaum.
Conhecidos de longa data, Menotti recebeu o amigo "brasileiro" na própria concentração, um condomínio de luxo em Buenos Aires, que, devido à ditadura vigente no país, estava cercado de militares. Manolo lembra que a atenção redobrada vinha do medo do governo em ter sua seleção nacional atacada por conta dos problemas políticos. Menotti, porém, tinha outra preocupação.
"Mas é verdade que o Falcão não joga?", perguntou o treinador argentino, atento à qualidade do habilidoso volante do Internacional. "Sim, não foi nem convocado. No lugar, vai jogar o Chicão", respondeu o jornalista, referindo-se ao meio-campo do São Paulo, que até então não havia atuado em nenhuma partida daquele Mundial. "Então acho que temos boas chances de ganhar", concluiu Menotti, satisfeito com o que ouvia do amigo.
E foi por pouco. Em um jogo caracterizado pela raça das duas equipes, que por vezes abusavam da violência, o placar ficou em branco. Com isso, a decisão da vaga na final seria na última rodada, na qual o Brasil enfrentaria a Polônia e a Argentina jogaria contra o Peru. O time brasileiro, que curiosamente entrou em campo um pouco antes dos argentinos, fez a sua parte e venceu com facilidade por 3 a 1. A seleção de Menotti, que tinha que vencer o Peru por, no mínimo, 4 a 0 para superar o Brasil no saldo de gols, foi ainda mais longe. Fez 6 a 0 (dois só no primeiro tempo) e chegou à final da Copa do Mundo. Até hoje, a partida é tida como suspeita por conta do placar elástico e do goleiro Quiroga, argentino naturalizado peruano que, segundo alguns companheiros, teria facilitado a vida de seu país de origem. Nada, porém, comprovado.
"Ah, o famoso 6 a 0! Com o qual tanto se gastou papel e tinta por todos estes anos", ironiza Manolo quando perguntado sobre o jogo mais polêmico daquele Mundial. "Sobre esse jogo, é preciso lembrar que, logo no começo, em menos de três minutos de jogo, o Peru teve chance de abrir 3 a 0 no placar. Creio que um time que tivesse sido comprado não teria tanto ímpeto de buscar a vitória, não? Por isso essa história (de compra do jogo) não me convence. Até porque já se passaram tantos anos e ninguém provou nada. Suspeitas são suspeitas, fatos são fatos", conclui o jornalista, que ainda lembra uma história contada pelo amigo Menotti para reforçar a ideia de que o jogo foi acima de qualquer suspeita.
Antes do Mundial, a Argentina havia disputado um amistoso com o mesmo Peru no Estádio Municipal de Lima - naquela época, era comum que seleções adversárias na Copa se enfrentassem durante a preparação - em que fez 3 a 0 logo nos primeiros 20 minutos. O estádio estava lotado, e os peruanos começaram a vaiar a equipe. Eis que Menotti, já treinador da seleção argentina, lembrou-se de um episódio ocorrido naquele mesmo espaço, em 1964, e pediu para que seus jogadores diminuíssem o ritmo, a fim de que se evitasse nova tragédia.
Naquele ano, as duas seleções sub-23 se enfrentavam pelo Torneio Pré-Olímpico e os argentinos venciam por 1 a 0. Nos minutos finais, porém, Lobatón fez o gol de empate, mas o árbitro anulou o tento e provocou a ira de 54 mil torcedores peruanos presentes no estádio superlotado. Saldo final: 318 mortos e mais de 500 feridos, muitos pisoteados e outros tantos atingidos por pedras e objetos arremessados pelas arquibancadas. Foi com essa imagem em mente que Menotti, mais de 10 anos depois, pedia calma aos argentinos, muito superiores aos peruanos, no jogo disputado às vésperas da Copa.
Independente disso, Manolo considera que a Argentina tinha um time capaz de conquistar o Mundial. Segundo ele, o principal trunfo era a "linha dorsal" de qualidade que toda boa equipe deve ter - e os argentinos tinham: o goleiro Ubaldo Fillol, o zagueiro e capitão Daniel Passarella, o meia Osvaldo Ardiles e o artilheiro Mario Kempes. O atacante, aliás, foi o grande nome daquela seleção, conquistando a artilharia do Mundial com seis gols. Dois deles, aliás, marcados na decisão, diante de outro "fantasma" da Copa anterior: a Holanda, a mesma "Laranja Mecânica" que havia arrasado os argentinos em 74, mas que agora, sem Johan Cruyff (decidiu não ir à Argentina após divergências com a federação holandesa), estava nitidamente mais fraca.
Sobre outro nome em evidência naquela época, o jovem Diego Armando Maradona, Manolo conta que a primeira vez em que viu o futuro craque atuar estava justamente na companhia de Menotti. Era um jogo ente a seleção argentina juvenil e um combinado de jogadores da segunda divisão de acesso, disputado em novembro de 1977 no campo do Vélez Sarsfield. "Vi o jogo ao lado do Menotti e lembro que ele comentou que o Maradona ainda estava um 'pouco cru'. Isso foi sete ou oito meses antes da Copa, e naquela época eram divulgados 40 nomes de jogadores que não podiam ser negociados com o exterior antes do Mundial. Maradona estava na lista, mas acabou não sendo chamado para a Copa", explica o jornalista, sobre a não convocação do atleta, que participaria do Mundial em 1982 e viria a ser fundamental na conquista de 1986.
"Ele (Menotti) tinha muita dúvida quanto a escalar um jovem que havia acabado de subir da segunda divisão com o Argentinos Jrs, pois tinha preferência por jogadores mais experientes. Mas acho que não teria problema, afinal era uma situação análoga com a do Pelé, que foi para a Copa com 17 anos. Na minha opinião, se Maradona tivesse sido convocado para aquela Copa, teríamos vencido com mais facilidade", finaliza.