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Exclusivo: Autuori conta aventuras e dificuldades no futebol do Catar

6 jun 2012 08h04
| atualizado às 08h14
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Terra Esportes na Catar: Paulo Autuori apresenta Doha:
André Naddeo
Direto de Doha (Catar)*

Que os técnicos brasileiros são figurinhas carimbadas no mundo árabe, isso não é novidade para ninguém. Toninho Cerezo, Sebastião Lazaroni, Abel Braga, e mais recentemente Silas e Péricles Chamusca, que o digam. No entanto, salvo Evaristo de Macedo, o precursor tupiniquim no semiárido Oriente Médio, poucos têm a moral que Paulo Autuori conquistou hoje à frente da seleção do Catar.

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Afinal, não é para qualquer um ser convidado duas vezes para estar com o Emir catariano, o xeique Hamad Bin Khalifa Al-Thani. Sem meias palavras, o homem que paga a conta e manda no pequeno país do Golfo Pérsico, cuja área é metade do Estado do Sergipe (o menor dos Estados brasileiros), com 11.437 km², praticamente uma cidade de Campinas.

"Ele é gente boníssima, com uma cabeça bem aberta, só por isso o Catar é o que é em termos de país", explicou o treinador brasileiro, em entrevista exclusuiva ao Terra, sobre o administrador monárquico dos petrodólares que jorram em abundância por ali. Se os arranha-céus impressionam pela megalomania, o futebol não fica nada atrás.

Sede da Copa do Mundo de 2022, o Catar já respira futebol. Conta com modernas arenas, centros de treinamento e tem justamente em Paulo Autuori a grande esperança de classificação inédita para a primeira Copa do Mundo da história deles, no Brasil, em 2014. Após cinco temporadas no país, fora uma rápida passagem pelo Grêmio, em 2009, o treinador já traçava planos para voltar e assumir alguma equipe para a disputa no Campeonato Brasileiro.

Mas quem disse que os árabes deixaram? Seus títulos pelo Al-Rayan (time mais popular do Catar) o credenciaram a substituir o também brasileiro Sebastião Lazaroni. Autuori não teve como dizer não, mesmo constantemente sendo sondado para assumir alguma equipe do futebol brasileiro, na boa e velha dança das cadeiras tão costumeira pelo País. "Acabei ficando, essa época era para eu estar no Brasil já, de férias, procurando algum clube, mas estou aqui, disputando as eliminatórias", disse, animado com o desafio.

O Catar está no Grupo A da fase final das Eliminatórias Asiáticas para a Copa de 2014, ao lado de Irã, Uzbequistão, Líbano e Coréia do Sul. Na outra chave, enfrentam-se Japão, Austrália, Jordânia, Omã e Iraque, comandado pelo brasileiro Zico. Classificam-se os dois melhores de cada grupo. Os terceiros melhores colocados jogam uma repescagem para encarar o quinto colocado da Eliminatória da Conmebol.

Nesta primeira parte da entrevista exclusiva de Paulo Autuori ao Terra, o treinador faz um resumo da experiência no país árabe, da saudade do Brasil, de como se diverte nos tempos de folga, dá o testemunho do crescimento econômico catariano: "estamos testemunhando a edificação de uma cidade". E aborda também a polêmica da proibição do consumo de álcool, além de confessar: já pensou algumas vezes em largar tudo e voltar para casa.

"Em muitos momentos eu pensei muito pela discrepância em relação a pensamentos no futebol. Não em relação a adaptação ao país, nada disso. Mais o lance de organização no futebol, da falta que faz o público. Aqui a grande dificuldade em todas as ações que fazem é trazer o torcedor", disse.

"Você tem um canal de televisão que transmite todos os jogos. Então, você vai a estádios às vezes, você vê gente na área de lazer, no lobby dos estádios, com a TV ligada ali, e o jogo rolando do lado. É uma coisa incrível, não dá para entender", completou, dando carona para a reportagem pelas ruas da capital Doha, a bordo do possante BMW até o Aspire Zone, centro de excelência do Catar em termos de infraestrutura para formação de novos talentos.

Confira o bate-papo exclusivo do Terra com o técnico brasileiro:
Terra - Por que passar praticamente cinco anos no Oriente Médio, no caso, em Doha, no Catar? Como tem sido essa experiência?
Autuori
- Meu lado profissional e pessoal fizeram aceitar sair do Brasil para conhecer outras culturas, outras identidades, isso só faz com que a gente cresça. Tenho que reconhecer que ao longo desses cinco anos que estou aqui, muita coisa melhorou, no aspecto físico, tático e mental.

Terra - Dá para dizer que quando você chegou tinha ainda muito "perna de pau" por aqui?
Autuori
- Não é questão de ser perna de pau, mas de jogadores locais que muitos ainda trabalham, tem uma vida paralela. Aqui é o seguinte: o cara para casar precisa ter uma profissão. E o futebol ainda não é reconhecido como profissão. Então, o que acontece: como são jogadores de futebol, e há o interesse de mantê-los jogando no clube e mesmo na seleção, eles conseguem empregos fora do futebol. Eles ficam vinculados a este emprego, embora esporadicamente apareçam, mas isso já os permite casar.

Terra - E ainda tem a questão do calor: um treino diário às 18h30...
Autuori
- Exatamente. Em alguns momentos você até consegue dois períodos e treina-se, mas normalmente é uma vez por dia, no período da tarde, em função do calor e do fato de que muitos jogadores locais trabalharem no Exército e na Polícia. Então, por exemplo, eu já tive jogador que ao chegar à tarde para treinar, já estava desde às 4h acordado, porque já tinha feito uma quantidade enorme de exercícios, chegava cansado. Você tinha que gerir ali uma situação para extrair força dele no treino. Isso é normal.

Terra - Como você se comunica com os atletas?
Autuori
- Eu não uso tradutor. Me viro até que bem no inglês, e justamente pelo país ser essa grande "salada de frutas" que é, com gente de vários países, todo mundo entende inglês, então facilita. Consigo passar as instruções necessárias sem grande dificuldade. O trabalho flui bem.

Terra - Você faz o que no tempo de folga? A família está aqui com você?
Autuori
- Família vem, sim. Já sou avô, né? Está vindo aí o meu segundo neto, então é minha mulher que acaba ficando mais comigo. Eles não moram direto comigo. Uma das minhas filhas, a mais velha, já trabalhou aqui na Qatar Foundation, ficou um ano comigo. Eu tenho três filhos - duas mulheres e um rapaz mais velho - de um outro relacionamento meu e trabalhou aqui também com futebol.

Terra - E você se diverte como?
Autuori
- Eu tenho minha vida, e faço a minha ginástica. Estou chegando aos 60, faltam praticamente quatro anos, já que vou completar 56 logo mais. Leio bastante também. Sempre fui um cara de perfil meio baixo assim, bem discreto, tranquilo. Gosto muito de estar com os amigos. Aqui tem muitos brasileiros e esse lance de a gente poder conviver ameniza um pouco a distância e a saudade.

Terra - Aqui no Catar, para se beber, somente com uma carteira de permissão para compra. Como funciona isso? Você tem essa carteira?
Autuori
- Tenho, sim. Você precisa dessa permissão, que varia, pois você pode gastar cerca de 10% do salário com o álcool (proibido para locais e seguidores da religião islâmica). Existe só um lugar que você pode comprar, um pouco distante do centro, mas perto de onde eu trabalho, o que facilita. Eu gosto de comprar o meu vinho, meu uísque e minha cerveja. Dá para comprar, fazer um estoque e levar a vida numa boa, não tenho problema com isso.

Terra - O Emir do Catar (Sheik Hamad Bin Khalifa Al-Thani), que é quem manda no país, gosta muito de futebol. Você já teve oportunidade de conhecê-lo?
Autuori
- Eu já fui convidado duas vezes para estar com ele. Ele é muito legal, um cara espetacular. Uma pessoa boníssima e extremamente simples, que te deixa a vontade. Com uma cabeça bem aberta, só por isso o Catar é o que é em termos de país, e joga um papel político bastante decisivo na região. Uma espécie de Suiça, com papel mais mediador de conflitos.

Terra - Em algum momento você pensou em largar tudo isso aqui, de não aguentar mais e querer voltar para o Brasil?
Autuori
- Em muitos momentos eu pensei muito pela discrepância em relação a pensamentos no futebol. Não em relação a adaptação ao país, nada disso. Mais o lance de organização no futebol, da falta que faz o público, aqui a grande dificuldade em todas as ações que fazem é trazer o torcedor. Você tem um canal de televisão que transmite todos os jogos. Então, você vai a estádios às vezes, você vê gente na área de lazer, no lobby dos estádios, com a TV ligada ali, e o jogo rolando do lado. É uma coisa incrível, não dá para entender.

Terra - Como você viu a transformação desse país? A primeira impressão que eu tive, da janela do hotel, foi de que aqui é um grande canteiro de obras.
Autuori
- Eu estou aqui há cinco anos, mas quem está aqui há mais tempo, como pessoas que trabalham comigo que já estão há 20 anos por aqui, dizem que esse país começou há oito, dez anos atrás. Porque realmente tudo que é de antigo eles estão remodelando, logicamente tentando preservar arquitetura, que é algo fundamental. Mas são coisas realmente incríveis, é tudo novo. Eu brinco com os amigos dizendo que nós somos privilegiados porque estamos a testemunhar a edificação de uma cidade.

*O repórter André Naddeo viajou a convite do Qatar Nacional Food Security Program

Fonte: Terra
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