Conheça 'Filó', o primeiro brasileiro campeão do mundo bem antes da Copa de 1958
Anfilóquio Guarisi Marques, que brilhou no futebol paulista, ganhou o conturbado campeonato de 1934 com a seleção italiana sob ameaças do fascismo de Benito Mussolini
Conhecido por ser um celeiro de craques, o Brasil não só exporta jogadores para os clubes mais poderosos do mundo, como também reforça muitas seleções com nomes naturalizados, seja por tempo jogando em um país ou ascendência. Na Copa de 2022, teremos três: Pepe, Matheus Nunes e Otávio, todos por Portugal. E você sabia que um de nossos representantes já foi campeão por um escrete estrangeiro? É o caso de Anfilóquio Guarisi Marques, que brilhou no futebol de São Paulo atuando por Portuguesa, Paulistano e Corinthians e levantou a taça com a Itália em 1934, sendo um dos poucos "destaques" de uma copa manchada pela propaganda e ameaças a jogadores do regime totalitário de Benito Mussolini.
Ponta-direita rápido e habilidoso, "Filó", como era conhecido, começou sua carreira na base da Lusa e chamou atenção desde cedo. Logo em seu segundo ano de carreira, fez história no Campeonato Paulista ao marcar cinco gols no empate contra o Brás, por 5 a 5. Um ano depois, já pelo alvirrubro, a amarelinha o chamava pela primeira vez, para a Copa América de 1925. No entanto, sua carreira com a Canarinho acabaria precocemente após o vice-campeonato para a Argentina. Com pouco brilho, não foi mais lembrado pelo treinador Píndaro de Carvalho Rodrigues em suas convocações e ficou de fora da Copa de 1930. A partir dali, começava sua história com a Azzurra.
Filho de mãe italiana e pai português, Guarisi deu os primeiros passos na naturalização ao ir jogar pela Lazio depois de um bom desempenho pelo Corinthians. De 1929 a 1931, se destacou com jogadas plásticas, dribles e artilharia, alcançando o sucesso na primeira temporada no alvinegro com os títulos de 29 e 30 do Paulistão, bem como a conquista da Copa dos Campeões, a mesma que deu ao clube o famoso verso de "campeão dos campeões" entoado em seu hino.
De acordo com o "Almanaque do Timão", do jornalista Celso Unzete, foram 72 jogos e um total de 41 gols - contando suas duas passagens pela equipe, visto que ele retornou em 1937, tempos depois da conquista de 1934.
As exibições chamaram atenção dos times do exterior e, com isso, ele se transferiu para a italiana Lazio. E não foi o único brasileiro: De Maria, Del Debbio e Rato Castelli, seus companheiros de Corinthians, também foram para lá, junto aos outros atletas do País Fantoni I, Fantoni II, Rizzetti, Serafini e Tedesco. Eles seriam comandados por Amílcar, que encerrava sua carreira no Palestra Itália (origem do Palmeiras). O "esquadrão" verde e amarelo ficou conhecido como "La Brasilazio".
Em campo, o desempenho foi aquém do esperado: não venceram o título da Série A de 1931/32 - que ficou com a Juventus - e terminaram na 13ª colocação. O que ficou lembrado foi a aplicação de uma das maiores goleadas da competição: 9 a 1 sobre o Modena, com direito a hat-trick (três gols) de Guarisi.
O destaque de Filó, um dos artilheiros do time, o rendeu a convocação para sua primeira Copa do Mundo, a de 1934. E não pela seleção brasileira, mas sim pela italiana, comandada na época por Vittorio Pozzo.
Na verdade, a jornada pela Azzurra - que começou anos antes, em 1932, com um gol em sua estreia contra a Grécia nas eliminatórias - não teve seu lado romântico, pois o regime de Mussolini tentou a todo custo ganhar a Copa em casa, nem que pra isso fosse preciso "contratar" jogadores estrangeiros através de uma lei vigente que garantia dupla nacionalidade a filhos de italiano - os chamados oriundi, que eram rejeitados pelos simpatizantes da ideologia. Além disso, a influência do governo nos bastidores da organização e arbitragem era contestada pelos adversários.
Por conta disso, países sul-americanos, enfraquecidos pela saída de seus atletas com ascendência europeia, boicotaram o evento. O Uruguai recusou-se a defender a conquista de 1930 e o Brasil não mandou sua força máxima.
O mundial de 1934 foi disputado todo em fase mata-mata e iniciou já nas oitavas de final. Os estádios viraram palco de celebração do nacionalismo italiano e vencer a competição passou a ser uma dura obrigação dos jogadores, que não necessariamente compactuavam com a forma de governo, e Guarisi era um deles - historiadores não sugerem que tenha apoiado o regime. Há relatos até de ameaças de morte ao elenco: "Ou vocês ganham, ou terão que arcar com as consequências", teria dito Mussolini, bem como o canto "vitória ou morte".
Em campo, Filó começou como titular e ajudou na vitória por 7 a 1 sobre os Estados Unidos, que garantiu a Itália nas quartas. No entanto, esse seria seu único jogo na competição, já que não foi escalado nas fases subsequentes, contra Espanha, Áustria e no duelo final, com a Checoslováquia. Na época, ainda não havia substituições durante os jogos, com a regra sendo implementada apenas em 1958.
Mesmo com somente uma atuação, e o contestado cenário político em volta, Anfilóquio entrou para história como parte do elenco que levantou a primeira taça da Copa do Mundo - que ainda era a lendária Jules Rimet - para a Itália. Não somente isso, foi também o primeiro brasileiro a conquistar o título mais cobiçado do futebol, muito antes dos esquadrões de Pelé, Garrincha e companhia. Desde então, seguiu jogando: retornou para o Corinthians em 1937 e defendeu o Palestra Itália de 1938 a 1940, quando encerrou a carreira com o nome marcado, mesmo que "indiretamente", no futebol brasileiro.