Como um boato criado no Brasil levou Trump a pressionar a FIFA durante a Copa
Boato surgido a partir de uma CPI no Brasil chegou à Casa Branca e foi usado por Donald Trump para defender Folarin Balogun junto à FIFA
Uma informação falsa disseminada nas redes sociais acabou extrapolando o ambiente esportivo e se tornou protagonista de um dos episódios mais controversos da Copa do Mundo de 2026. O caso envolveu o árbitro brasileiro Raphael Claus, a atacante americano Folarin Balogun, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a própria FIFA.
O episódio teve origem em uma narrativa construída a partir de acontecimentos registrados no Brasil há cerca de dois anos. Embora sem qualquer comprovação, essa versão acabou sendo utilizada como argumento para questionar a punição aplicada ao atacante da Seleção norte-americana.
TRUMP PEDE REVISÃO DA SUSPENSÃO DA BALOGUN
Após a expulsão de Folarin Balogun durante o confronto contra a Bósnia, válido pela fase de 16 avos de final da Copa do Mundo, Donald Trump entrou em contato com a FIFA solicitando uma reavaliação da decisão disciplinar.
O cartão vermelho havia sido mostrado por Raphael Claus na partida disputada na última quarta-feira. Inicialmente, a punição impediria Balogun de enfrentar a Bélgica nas oitavas de final.
Depois da análise do Comitê Disciplinar da entidade máxima do futebol, a suspensão foi revista e o atacante recebeu autorização para atuar no duelo desta segunda-feira, em Seattle.
BOATO SOBRE CLAUS COMEÇOU APÓS A EXPULSÃO
Logo depois da partida, uma informação falsa passou a circular entre torcedores e páginas ligadas ao futebol dos Estados Unidos. Segundo essa versão, Raphael Claus teria sido investigado no Brasil por suposto envolvimento em um esquema de manipulação de resultados.
Apesar de a acusação não corresponder aos fatos, ela rapidamente ganhou força nas redes sociais e chegou inclusive à imprensa tradicional americana.
O jornal New York Post publicou que Claus teria sido alvo de investigações relacionadas a uma comissão parlamentar instaurada em 2024 para apurar manipulação de partidas e apostas esportivas. A reportagem também mencionava críticas feitas por clubes brasileiros, principalmente o Botafogo, sobre decisões tomadas pelo árbitro na Série A.
O QUE REALMENTE OCORREU NA CPI DO SENADO
Os fatos, entretanto, foram diferentes da versão que passou a circular.
A Comissão Parlamentar de Inquérito instalada no Senado tinha como objetivo investigar denúncias apresentadas por John Textor, proprietário da SAF do Botafogo, sobre um suposto esquema de manipulação de resultados no Campeonato Brasileiro de 2023.
Raphael Claus chegou, de fato, a ser convocado para prestar depoimento na comissão. No entanto, sua participação seria exclusivamente como testemunha, e não como investigado.
Como o comparecimento era facultativo, o árbitro optou por não prestar depoimento.
Durante os trabalhos da CPI, o nome de Claus apareceu apenas em questionamentos dirigidos ao então presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, Wilson Seneme, que foi ouvido pelos parlamentares. Em nenhum momento houve abertura de investigação formal contra o árbitro.
SENADORES ESCLARECEM SITUAÇÃO
Questionado sobre o assunto, o senador Jorge Kajuru (PSB-GO), presidente da CPI, evitou responder diretamente se Raphael Claus chegou a ser investigado.
Já a equipe do senador Romário (PL-RJ), relator da comissão, confirmou que o árbitro jamais figurou como investigado e que sua convocação ocorreu apenas na condição de testemunha.
Essa informação, porém, não acompanhou a narrativa que passou a circular nos Estados Unidos após a expulsão de Balogun.
DENÚNCIAS DE JOHN TEXTOR NÃO AVANÇARAM
As acusações apresentadas por John Textor também não prosperaram na esfera esportiva brasileira.
Segundo o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), os elementos apresentados pelo empresário não foram considerados suficientes para sustentar as suspeitas de manipulação.
No caso específico de Raphael Claus, Textor alegava que o árbitro havia trabalhado com a árbitra de vídeo Daiane Muniz um número muito superior ao de outras equipes de arbitragem durante a Série A de 2023.
O empresário afirmou que ambos haviam atuado juntos em 12 partidas, enquanto a segunda dupla mais utilizada teria trabalhado apenas em três jogos.
Posteriormente, verificou-se que os números estavam incorretos. Claus e Daiane dividiram a arbitragem em 11 partidas, enquanto a segunda combinação mais frequente esteve presente em sete confrontos.
INFORMAÇÃO DISTORCIDA CHEGOU A INTEGRANTES DO GOVERNO AMERICANO
Mesmo após os esclarecimentos feitos no Brasil, a versão incorreta continuou sendo compartilhada em fóruns e redes sociais nos Estados Unidos.
Com o tempo, essa narrativa alcançou pessoas próximas ao governo americano.
Segundo reportagem publicada pelo New York Times, Scott Goodwin, gestor de fundos de investimento e um dos maiores financiadores da U.S. Soccer, levou essa interpretação distorcida a integrantes ligados ao presidente Donald Trump.
Foi a partir dessas informações que o caso chegou ao conhecimento do mandatário americano.
TRUMP CRITICA ARBITRAGEM E QUESTIONA HISTÓRICO DE CLAUS
Nesta segunda-feira, Donald Trump confirmou publicamente que conversou com o presidente da FIFA, Gianni Infantino, para pedir uma revisão da suspensão de Balogun.
O presidente afirmou que apenas solicitou uma nova análise do lance e disse não ter determinado qual deveria ser a decisão do Comitê Disciplinar.
Segundo Trump: "Tudo o que fiz foi pedir uma revisão, porque não achei que fosse falta. Eu não disse à FIFA o que fazer. O comitê tomou a decisão certa. É injusto excluir um dos melhores jogadores dos EUA."
Em outro momento, o presidente também colocou em dúvida a credibilidade do árbitro brasileiro ao mencionar, sem apresentar provas, o histórico de Claus.
"Esse árbitro é um pouco suspeito. Se você verificar o passado dele… Eu não quero dizer isso, porque não gosto de criar polêmica, mas muito suspeito, como se eu pudesse te mostrar o histórico. Ele fez uma marcação que ninguém conseguiu acreditar."
FIFA NEGA INFLUÊNCIA POLÍTICA NA DECISÃO
Após a repercussão do episódio, Gianni Infantino confirmou que realmente recebeu uma ligação de Donald Trump para tratar do assunto.
Entretanto, o dirigente afirmou que a decisão envolvendo Balogun foi tomada exclusivamente pelos órgãos independentes responsáveis pelos processos disciplinares da entidade.
Em nota oficial, Infantino destacou que mantém contato frequente com chefes de Estado e representantes de diferentes setores por causa da Copa do Mundo, mas ressaltou que esse tipo de conversa não interfere nas decisões jurídicas da FIFA.
Segundo o presidente da entidade, durante a conversa explicou a Trump que o caso estava sendo analisado pelos órgãos judiciais independentes da organização e que a definição seria tomada seguindo os procedimentos previstos pelos regulamentos.
Infantino reforçou ainda que a independência dos comitês disciplinares é um princípio fundamental da FIFA e afirmou que continuará defendendo esse modelo em todas as circunstâncias.
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