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Após título inédito, Athletico Paranaense quer virar protagonista

Conhecido por investimento fora das quatro linhas, campeão da Sul-Americana espera colher frutos dentro delas

14 dez 2018
04h41
atualizado às 04h41
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O título da Copa Sul-Americana conquistado na última quarta-feira, sobre o Junior Barranquilla, foi o primeiro passo de um projeto que vai priorizar justamente os resultados dentro de campo. Esta é a meta do Athletico Paranaense após anos de investimento fora das quatro linhas.

"O clube tinha feito vários ciclos de investimento, crescimento de estrutura. Agora é a hora do protagonismo no futebol", explica Rui Costa, diretor de futebol. "Isto implica fortalecimento do grupo de atletas, e não apenas vender, vender e vender. Claro que precisa de uma venda ou outra porque gera renda para o clube, mas a partir do momento em que conquista esse título, a próxima temporada será de altíssimo nível. A ideia é continuar nesse projeto de crescimento desportivo, conquistando títulos, participando de competições."

Uma das vendas possíveis é justamente a que desperta temor maior na torcida: a do atacante Pablo, grande estrela da equipe. Segundo Costa, o clube precisa estar preparado para se planejar sem seu goleador.

"O mercado está muito movimentado em torno dele, e o presidente tem tratado isso de forma mais próxima. É difícil achar um Pablo hoje em dia. A gente planeja 2019 com ele, mas também sem a sua presença, porque não há como fazer futebol sem vender ativos", diz.

Apesar do salto de patamar, o Athletico ainda tem orçamento modesto na comparação com os grandes do continente, o que, na visão do dirigente, obrigará o clube a seguir apostando no estudo de mercado para se equiparar aos adversários.

"O clube investe muito em scout, tem um grupo de trabalho de profissionais que ficam diariamente buscando mercado. Estivemos recentemente no Paraguai com pessoas que conhecem muito de futebol, ampliando nosso relacionamento na América do Sul. A ideia é trabalhar com jogador de grande valor desportivo, não sendo necessariamente caro. Não faremos loucuras e trabalharemos dentro do limite", afirma Costa.

O primeiro passo, porém, será efetivar o técnico Tiago Nunes, ainda interino. "Há um processo de negociação que vai fluir nos próximos dias."

Entrevista com Rui Costa, diretor de futebol do Athletico Paranaense

Rui Costa chegou ao Athletico em agosto
Rui Costa chegou ao Athletico em agosto
Foto: Divulgação / Estadão

Em termos de estrutura, hoje o Athletico pode ser considerado top5 do futebol brasileiro?

Eu diria mais. Estive em CTs da Lazio-ITA, Sporting-POR, vários lugares do mundo, mas o Athletico em termo de conteúdo de pesquisa, equipamentos, produção científica, é top10 do mundo, está entre os CTs mais qualificados da América do Sul. O clube investe no que há de mais moderno em tecnologia. Está entre os cinco primeiros, sem dúvida.

Você chegou em agosto, pouco após o Tiago Nunes ter assumido como interino. Qual o papel dele nessa ascensão do time?

Eu já conhecia o Tiago da época do Grêmio, ele estava no sub-15. Quando cheguei aqui, já sabia que ele vinha de um processo que não foi planejado, ele substituiu um profissional que saiu do clube, mas sabia da sua capacidade. Na minha avaliação, ele tem um perfil adequado ao que o futebol exige hoje: longa trajetória em clubes pequenos, para sabe lidar com adversidades. Soube entender o momento dele com muita humildade, mas sem ser simplório, porque no vestiário precisa ter comando. Ele é um estudioso, está colhendo o que plantou. Chega as nove da manhã e sai às sete da noite. Faz do clube uma rotina de trabalho de fato. E isso faz a diferença. Teve um papel relevante, assumiu um grupo sem confiança, sendo questionado.

Você trabalhou na reestruturação da Chapecoense após a tragédia de 2016. Como foi trabalhar no clube naquelas circunstâncias?

Cheguei num momento em que vi uma cidade devastada. A Chape sempre foi o seu povo, um clube vinculado à sua região. Retratava a cultura e o modo de ser do chapecoense. Cheguei dez dias depois do acidente. Ali tive noção de que seria o maior desafio da minha carreira e dificilmente vou encontrar outro dessa magnitude. Os gestores ali, mesmo diante de toda dor de enterrar 20, 30 amigos, entenderam que só profissionais poderiam reerguer o clube. Sem desconsiderar o fato de entrar na sala e ver pessoas chorando a perda de amigos, maridos, pais, tentei conduzir da forma mais profissional possível. E isso foi o diferencial do nosso projeto. Sabendo que, às vezes, teria de dar a cara para bater para proteger o elenco. Não fiz nada sozinho, mas isso fez com que tivéssemos o êxito que tivemos. Tenho muita gratidão por ter participado desse projeto.

Em 2015, você também teve uma missão difícil no Grêmio. Pode contar como foi?

Foi muito emblemático, nós vínhamos de um processo de muitos anos sem títulos, e eu carregava esse peso, tinha um protagonismo grande como gestor. E foi o ano em que se quis fazer o equilíbrio econômico financeiro, tivemos de reduzir a folha em quase R$ 2 milhões por mês, essa foi a tarefa que me foi dada. Naquela época, tivemos de abrir mão de muito jogadores, como Dudu, Barcos, Marcelo Moreno. Reduzmos muito o elenco e chegamos em terceiro lugar no Brasileiro. Tinha sido vice com o Renato (Gaúcho) em 2013 e chegamos em terceiro com o Roger (Machado). E hoje o Grêmio está equilibrado financeiramente.

Estadão
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