Estádios de Nova York se destacam por design
O design de estádios americanos esteve parado em um medo nostálgico, com representantes esportivos reciclando as mesmas velhas imagens ano após ano.
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Mas, se é para usar um visual retrô, a cidade de Nova York poderia ter se saído pior com o novo Yankee Stadium e o Citi Field. Ambos foram projetados pela Populous (antigamente conhecida como HOK Sport Venue Event) e são grandes avanços em relação aos estádios que substituíram, que se degradavam cada vez mais com o passar dos anos. Os dois devem ser lugares agradáveis para se passar algumas horas assistindo a um jogo.
Mais do que isso, cada estádio reflete sutilmente a personalidade das franquias que os construíram. O Yankee Stadium é o tipo de monumento à história estóico e autoconsciente que combina com a franquia mais bem-sucedida do esporte americano. A nova sede dos Mets, por sua vez, é mais irregular e despreocupada. Ela brinca livremente com a história, como se fosse apenas mais uma forma de entretenimento.
A direção do Yankees começou a discutir a substituição do antigo estádio há mais de uma década, e esse parecia ser o desafio mais difícil: o estádio irradiava as memórias das 26 World Series que o time venceu.
Arquitetonicamente, porém, o edifício não tinha nenhum charme. A reforma dos anos 70 pode tê-lo deixado mais confortável (os torcedores odiavam os doloridos assentos de madeira da versão original), mas também destruiu muitas características da construção. O friso de cobre original que revestia o andar superior foi removido. (Uma réplica parcial de concreto foi adicionada mais tarde.)
Os monumentos que já ficaram nos recantos mais profundos do meio-de-campo foram transferidos para um espaço insípido atrás da cerca do meio-de-campo esquerdo, e chamados de Parque do Monumento. O pouco de personalidade que o estádio tinha vinha de sua localização: um pequeno lote urbano emoldurado por passarelas elevadas do metrô de um lado e um parque municipal do outro.
O novo estádio, que fica do outro lado da rua, melhora essa imagem, ao mesmo tempo em que revive um pouco da história perdida.
As grandiosas janelas em arco que dominavam a fachada original, imitações do Coliseu de Roma, foram reformuladas em um misto de calcário, granito e pedra artificial, e estão imponentes como nunca. Uma pequena praça, elevada apenas um nível acima da calçada, tem vista para os bares e lojas de suvenires da Avenida River e para a entrada do trem elevado, reforçando a relação da estrutura com seu cenário urbano.
A prefeitura também prometeu construir um parque e diversos campos de beisebol ao sul do estádio, num esforço para dar ao projeto uma cara mais amigável para a comunidade. Uma larga passarela para pedestres ligará o estádio aos campos e a uma estação da linha norte do metrô, mais ao sul.
As maiores melhorias, porém, estão no interior, onde os espaços foram organizados tendo em vista os torcedores. Os corredores são espaços abertos e amplos, com barracas ao longo do perímetro, de modo a não obstruir a visão do campo. Mais assentos ficaram concentrados abaixo do mezanino, mais próximo da ação. Até as comitivas de luxo, que de repente parecem relíquias da era dos excessos corporativos, estão discretamente posicionados mais para trás, para não tirarem a intimidade compartilhada de assistir ao jogo.
A história também está presente, ou pelo menos uma cópia dela. Os Yankees trouxeram de volta os placares operados manualmente dos lados esquerdo e direito do campo, uma característica usada pela última vez nos anos 60. Uma réplica do antigo friso fica no topo do andar superior.
E o melhor de tudo: o vão que separava o placar das barracas do lado direito no antigo estádio foi recriado, então ainda é possível vislumbrar o metrô passando - um lembrete de que o estádio foi esculpido no coração de uma cidade viva e próspera.
No todo, o novo Yankee Stadium pode ser um lugar austero, e até intimidante, mas não é nada brega. É uma arquitetura direta, racional. Chegar ao Citi Field é uma experiência estética mais extensa. Descendo do trem elevado 7, no Queens, é preciso atravessar uma larga praça ajardinada antes de chegar ao portão da entrada principal. Um mar de estacionamento se estende para todas as direções. Uma pilha de escombros do antigo Shea Stadium está hoje do lado de fora do estacionamento à esquerda.
O prédio se encaixa confortavelmente nesse cenário. A fachada do Yankee Stadium é dominada por linhas verticais, que enfatizam seu aspecto monumental. A fachada do Citi Field, livremente inspirada no Ebbets Field, antiga sede do Brooklyn Dodgers, é mais discreta. Seu revestimento de tijolos proporciona um calor que o Yankee Stadium não possui. Uma faixa de concreto pré-moldado corta o exterior em forma de arco, quebrando a escala da estrutura, e destacando sua horizontalidade.
A história também parece menos pesada aqui. Como os Yankees, os Mets construíram amplos corredores que se abrem para o campo, para dar a sensação de proximidade do jogo mesmo enquanto se espera na fila por uma cerveja. Mas o projeto é bem mais eclético. Uma varanda em cantoneira acima do lado direito do campo é inspirada no antigo Tiger Stadium.
Grandes pilastras de aço invocam a estrutura que sustenta o trem elevado nas proximidades. Uma ponte para pedestres cor de ferrugem que atravessa o local de aquecimento atrás do meio de campo é uma versão em miniatura da ponte Hell Gate. Até a cor dos assentos - verde escuro - foi copiada de outro lugar: o Polo Grounds, onde o time de beisebol New York Giants costumava jogar, e onde os Mets jogaram suas duas primeiras temporadas.
O clima casual é reforçado pela quantidade de espaços que pouco têm a ver com um jogo de beisebol: um auditório, um campo de Wiffleball (variação do beisebol para crianças ou para ser jogada em lugares pequenos), e até mesmo um salão de eventos para casamentos ou festas.
O que salva o projeto de se tornar completamente artificial, porém, é sua abertura para o mundo real do lado de fora. A maior parte do Queens (os resquícios desbotados da World¿s Fair de 1964, a via expressa Whitestone e as águas barrentas da baía de Flushing) pode ser vista do andar do corredor principal.
Mais acima, é possível avistar o horizonte de prédios de Manhattan, a quilômetros de distância. O cercado dos visitantes tem vista para as destruídas garagens e oficinas mecânicas da Rua 126, a nordeste. A realidade dessa paisagem de classe baixa suaviza a artificialidade do interior.
Ainda assim, a maioria dos arquitetos sérios de hoje em dia lutam para criar prédios que refletem os valores de sua própria era, e não uma visão nostálgica do passado, não importa quão abertos sejam em direção a seu entorno. E, nesse sentido, ambos os estádios serão uma decepção para estudantes de arquitetura. Para nós, os prédios são apenas mais um lembrete da enorme lacuna que ainda existe entre o alto design e o gosto popular.
Amy Traduções.
