Florence Arthaud, a eterna noiva do Atlântico
"Sempre tive uma vida aventureira". Florence Arthaud, uma das maiores navegadoras da história, viu sua vida de coragem e superação acabar tragicamente nesta segunda-feira, aos 57 anos, num acidente de helicóptero na Argentina, onde se preparava para mais uma aventura.
"Ser navegadora não é uma profissão de mulher. É um universo rude, duro, estamos o tempo todo no mar", tinha admitido em outubro do ano passado à AFP a francesa que triunfou num meio muitas vezes criticado por ser machista e solitário.
No momento da entrevista, ela assistia à largada da Route du Rhum, um das provas transatlânticas mais tradicionais do mundo, onde fez história há 24 anos.
Em 1990, ela se tornou a primeira mulher a vencer a competição, em 14 dias, 10 horas e 1 minutos, a bordo de Pierre Ier, trimarã de 18,28 m. Foi assim que Florence ganhou o apelido de "noiva do Atlântico".
Na Argentina, ela estava participando das gravações do programa da televisão "Dropped", reality show de sobrevivência em que atletas são levados de helicóptero a um lugar remoto, com os olhos vendados, antes de serem deixados na natureza com apenas uma garrafa de água e um GPS, com a missão de voltar à civilização.
O boxeador Alexis Vastine e a nadadora Camille Muffat, ambos medalhistas olímpicos, também morreram no acidente.
Irreverente, 'Flo' fez parte da geração ousada e de forte personalidade de marinheiros franceses que fez sucesso a partir da década de 70, liderada pelo 'mestre' Eric Tabarly.
"A gente não tinha nada, não tinha nem casa, morava no barco. O nosso grupo de amigos era a nossa família", lembrou a navegadora à AFP.
"Eu tive minha filha aos 36 anos. Antes disso, não tinha tido vida de mulher. Só uma vida de aventuras e de festas", resumiu.
Arthaud nunca escondeu seus problemas com álcool e chegou a ser detida em 2010 por dirigir embriagada.
A francesa ansiava por liberdade e sempre lutou para acabar com a hegemonia dos britânicos e dos americanos nas grandes regatas da sua época.
Ela chegou até a comparar a vitória de Tabarly, uma corrida organizada pela Inglaterra, a uma vingança da derrota de Napoleão diante do almirante Nelson, na batalha de Trafalgar, em 1805.
"O 'pequeno córsega' foi atropelado por Nelson, mas Eric nos vingou", brincou a navegadora.
Longe do politicamente correto, 'Flo' não tinha medo de alfinetar os adversários. "Quem tem medo de iceberg não pode competir no Vendée Globe", criticou a francesa, referindo-se a marcas virtuais usados por navegadores para evitar obstáculos numa corrida de volta ao mundo.
Florence Arthaud inspirou várias outras navegadoras francesas, que seguiram seu caminho em todos os mares do mundo. Suas principais herdeiras são Isabelle Autissier e Catherine Chabaud.
Em 1989, quando estava no auge da popularidade, ela chegou até a gravar uma música, "Flo", em dueto com o cantor Pierre Bachelet.
Nascida no dia 28 de outubro de 1957, em Boulogne-Billancourt, um subúrbio abastado de Paris, Florence era filha de Jacques Arthaud, dono de uma editora.
Por ironia do destino, a editora Arthaud já tinha previsto publicar na próxima semana um livo de memórias que a navegadora tinha acabado de escrever.
"Eu quero doar. Eu quero ajudar aqueles que, como eu, sonham com aventuras, de fazer de suas vidas seu sonho. Eu quero dedicar-me às mulheres que desejem navegar", escreveu a navegadora neste livro "Cette nuit la mer est noire" (Esta noite o mar é negro, em tradução livre).
A primeira participação de 'Flo' na Route du Rhum, corrida que a consagrou, foi em 1978, quando tinha apenas 20 anos. Ele terminou a prova na 11ª posição.
Em 1990, quando venceu a competição, 'Flo' foi eleita campeã do ano pelo jornal L´Équipe.
Quatro anos antes, na sua terceira participação, a francesa mudou sua rota para dar assistência ao compatriota Loïc Caradec. Ela encontrou o barco, mas não o navegador, que morreu, como o lendário Alain Colas, em 1978.
A própria Florence escapou por pouco da morte em outubro de 2011, depois de cair do seu barco durante a noite, perto da Córsega. Usando apenas uma lâmpada frontal e um telefone celular à prova d´água, ela conseguiu dar o alerta.
Duas horas depois da chamada, ela foi resgatada sã e salva por um helicóptero. "Não era meu dia de passar para outra. Foi um verdadeiro milagre", tinha afirmado a navegadora na época.
Na segunda-feira, foi outro helicóptero que tirou a vida da Florence. Não houve milagre.